É Carnaval na Cracolândia! Bloco de usuários e trabalhadores desfila no centro de São Paulo

Moradores do bairro da Luz e militantes também participaram da festa nesta sexta

Pelo terceiro ano seguido as ruas da Luz, no centro de São Paulo, receberam o Blocolândia, o bloco de carnaval de usuários de crack, trabalhadores, moradores e militantes da região conhecida como cracolândia. A festa aconteceu na tarde desta sexta-feira (24), um dia após a Polícia Militar entrar em confronto com usuários de drogas, deixando PMs e moradores feridos. Dois fotógrafos também se feriram — um deles foi atingido na perna por um disparo de arma de fogo.

O bloco de carnaval da cracolândia contou pela segunda vez com a bateria Coração Valente, formada por usuários e funcionários do programa Recomeço, do governo do Estado.

O palhaço Fanfarrone também pulou a festa com os moradores. O personagem é do psiquiatra Flavio Falcone, que trabalha com os usuários
O palhaço Fanfarrone também pulou a festa com os moradores. O personagem é do psiquiatra Flavio Falcone, que trabalha com os usuários Diego Junqueira/R7

Cerca de 200 pessoas brincaram em mais de duas horas de desfile, entre a batucada ensaiada e os sambas-enredo que pedem respeito a quem vive na cracolândia. Além dos usuários, participaram funcionários dos programas de saúde, como o Recomeço e o De Braços Abertos, da prefeitura, além de membros do movimento A Craco Resiste e do coletivo Casadalapa.

O bloco e a bateria utilizam a abordagem de redução de danos, que é aliada ao tratamento de saúde e focada no bem estar das pessoas. A ideia é estimular o cuidado com a região degradada e incentivar a participação dos usuários em atividades artísticas e culturais.

William da Silva, 29 anos, é usuário há sete anos. Natural de Suzano, na Grande São Paulo, ele diz ter perdido a mulher e a família por causa do crack, mas desde que entrou para a bateria, há um mês, conta que não usa mais a droga.

— Quando entrei eu estava na rua. Hoje eu vou para o albergue e passo no psicólogo do Cratod (Centro de Referência de Álcool Tabaco e Outras Drogas). A bateria ajuda a rapaziada a ficar afastada do crack.

A bateria conta com o trabalho de arteterapeutas, enfermeiros e conselheiros, que circulam pelo "fluxo", local de maior concentração de usuários, para formar vínculos com as pessoas. Os ensaios duram uma hora e acontecem de forma permanente há um ano, em quase todos os dias da semana. O uso de entorpecentes não é permitido.

O arteterapeuta e fundador da bateria Anderson Rogério Santos, de 39 anos, relata diversos casos em que os usuários melhoraram de condição após se integrarem à bateria.

— O que se faz com arte e com amor rompe barreiras. Tem quem chega usando 12 pedras por dia e passa a usar duas.

Aika Stefaneli sonha em montar um grupo de dança afro na cracolândia
Aika Stefaneli sonha em montar um grupo de dança afro na cracolândia Diego Junqueira/R7

Com um vestido de renda branco e florido, Aika Stefaneli, de 26 anos, é uma das mais animadas do bloco, entre as tantas rainhas que puxam a bateria.

— Eles me chamam pro ensaio e eu vou. Largo tudo o que tiver na minha mão.

Há “alguns meses” vivendo na cracolândia, Aika revela o desejo de montar um grupo de dança afro na região.

— Meu primeiro ganha-pão foi com a dança na minha cidade, em Itacaré (Bahia).

"Davi matou Golias com uma pedra a menos de 30 metros de distância", diz Alexandre de Oliveira Santos. Usuário que mora na cracolândia, ele quer saber se a bala de borracha que recebeu da polícia militar seria capaz de matá-lo
"Davi matou Golias com uma pedra a menos de 30 metros de distância", diz Alexandre de Oliveira Santos. Usuário que mora na cracolândia, ele quer saber se a bala de borracha que recebeu da polícia militar seria capaz de matá-lo Diego Junqueira/R7

Fim das balas de borracha

Olhando a festa de longe e sem participar, Alexandre Oliveira dos Santos, 47 anos, traz na testa as marcas da violência do dia anterior. Uma bala de borracha da PM causou um grande ferimento em sua cabeça, ainda suja de sangue.
 
Caminhando lentamente pela rua Helvétia, ele usa uma marca no chão para mostrar onde estava exatamente ao ser atingido, a uma distância de 30 metros da Tropa de Choque da PM.

“Tiro de curta distância mata?”, pergunta a si mesmo, repetidas vezes.

As atividades culturais também são uma forma de resistir à violência empregada contra os dependentes químicos.

“O fluxo tem uma cultura, não é só a droga”, diz Marco Torres, 28 anos, coordenador pedagógico da Adesaf (Associação de Desenvolvimento Econômico e Social às Famílias), gestora do programa municipal De Braços Abertos.

— A imagem que sempre fica da cracolândia é a de ontem [quinta, 23], a da violência, a da bala de borracha, a do “bando de viciados”. A alegria deles nunca é mostrada. Mas aqui se criou uma cultura, um jeito próprio de falar. Não é só a droga. É um bairro como outro qualquer.

Torres e outros funcionários do programa municipal afirmam viver um clima de “incerteza” desde que o prefeito João Doria anunciou o fim do projeto, durante a campanha eleitoral do ano passado, o que não aconteceu até agora. Pelo programa, o dependente químico recebe moradia e remuneração em troca de serviços como a varrição de ruas. Ele é incentivado a reduzir o consumo de drogas, mas não se exige a internação.

Em janeiro, a prefeitura declarou que o novo programa de combate ao crack vai exigir exames antidoping frequentes dos usuários como contrapartida para receberem a moradia. Quem não aceitar correrá o risco de perder a vaga.

E no início deste mês. Doria divulgou o programa Redenção, que prevê a "retirada" dos dependentes da rua. A remoção será feita de forma “humanitária”, disse o prefeito, que não detalhou a ação. Empenhado em seu projeto mais conhecido de início de governo, o Cidade Linda, ele afirmou na ocasião que a cracolândia é "uma imagem ruim para as pessoas, para a cidade e para o Brasil". 

Torres questiona as mudanças que podem ocorrer na região. Ele diz que o trabalho com os usuários é individualizado, respeitando as particularidades de cada caso.

— Ele falou em terminar [com o De Braços Abertos], mas precisa conhecer melhor. Vários métodos já foram testados, como o da internação [forçada], e não deram certo. A redução de danos está dando certo, com respeito ao indivíduo. Um leva um ano pra sair, outro leva três. O trabalho é individualizado. Além do Braços Abertos e do Recomeço, existem movimentos que fazem um trabalho tão importante quanto. Será que a internação é a solução? Eles são carentes de atenção, de saúde, e não de polícia dando borrachada.

Para o diretor da unidade do Programa Recomeço na rua Helvétia, o médico Cláudio Jerônimo da Silva, de 47 anos, as ações de violência prejudicam os trabalhos junto aos dependentes.

— Fica todo mundo com medo do que pode acontecer, e [os usuários ficam] receosos com as equipes de saúde.

Raphael Escobar, um dos organizadores do Blocolândia e membro do movimento A Craco Resiste, afirma ter “certeza” que os programas de redução de danos estão sob “risco”.

Uma assistente social da prefeitura, que preferiu não se identificar, diz que a violência cria um clima de incerteza na região, mas que o trabalho do dia a dia não é afetado porque os dependentes químicos reconhecem quem trabalha com eles por causa da convivência.

As ações da PM ocorreram em todas as últimas gestões da prefeitura, de José Serra a Gilberto Kassab, Fernando Haddad e Doria. O confronto de quinta já foi o segundo do ano. Em janeiro, a polícia militar também agiu na região, deixando vários feridos, oito detidos e levando a reações como saques a lojas.

O diretor do Recomeço lembra que os projetos como a bateria Coração Valente têm o objetivo de atrair o usuário para a recuperação.

— Aproxima, reduz danos e incentiva o avanço no tratamento de saúde. Eles ensaiam, cuidam dos instrumentos, do samba-enredo, e aí ficam cada vez mais aqui [no programa].

Alguns programas de redução de danos que intervinham na região já foram cancelados neste ano. O coletivo Casadalapa manteve por dois anos e meio parceria com a Secretaria de Direitos Humanos, durante o governo Haddad, para desenvolver atividades como sessões de cinema, plantio e oficinas de lambe-lambe. O acordo não foi renovado pela atual gestão, mas o grupo mantém a atuação de forma voluntária, conta Julio Dojcsar, de 47 anos.

— Eles retiraram os vasos de plantas e outras intervenções que fizemos. Nós conseguimos estar com a galera e fazer parte, não pode parar, não pode quebrar o vínculo. Quando voltamos aqui o pessoal cobra, não só do fluxo mas também os moradores.

Conheça abaixo os sambas do Blocolândia.

Marchinha Blocolândia (2015)

Alô Família!

O bloco da pedra tá na rua

A rua é minha, a rua é sua

Ninguém nunca tá só nessa vida nua e crua

No sol, na lua

O bloco da pedra tá na rua

Eu viro pedra, eu viro pó

Eu já sou crack pra desenrolar os nós

Minha vida é uma bagagem que eu carrego, levo e puxo

Puxo, puxo, puxo

E vou levando minha vida nesse fluxo

Fluxo, fluxo, fluxo

A pobreza é uma beleza que eu não troco pelo luxo

Samba enredo Coração Valente 2017

Bate na palma da mão, com emoção,

Está passando a bateria Coração

Com muito orgulho e com respeito,

Não quero nada, eu só quero o meu direito

Não importa a origem do homem

Desde o início ele teve que aprender

Sou ser humano em convivência com a nação

Buscando a nova sociedade

Escravizando em corpo e mente

O diamante pelo homem

Na batida do tambor

Sociedade destruída

Foram moldados grandes homens

Os africanos da América Latina

O amor (olha o anjo)

Tranforma inveja sem envaidecer

Da fé ressurge a felicidade

Dando esperança a uma nova sociedade

Recomeçar a minha vida, amor

Vou é cantar

Veio do latim nossas culturas ancestrais

É o recomeço em minha vida

E pra frente agora eu vou olhar

Agradeço a todos que me ajudam

Com fé vou lutar (nem tenta)