27 de Maio de 2012
Projeto Quixote tira crianças das ameaças das calçadas e as afasta do crack
São dois núcleos batizados de Moinhos, um na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e outra bem em frente à praça da República, no centro, em um prédio de dois andares cedido por um banco. Numa manhã de calor, algumas poucas adolescentes viviam experiências quase desconhecidas por elas, embora banais. Brincavam, riam, comiam bem, tinham um banheiro limpo, recebiam regras de disciplina e orientações do que podiam ou não fazer e, talvez o mais importante, eram notadas e protegidas. Tudo muito diferente das ruas onde moram.
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Apesar da sensação de liberdade e da ausência de autoridade e descontrole, as calçadas são sempre ameaçadoras o que as obriga a viverem num estado de permanente atenção e vigilância. Um convite ao consumo do crack, anestésico letal que usam, muitas vezes, para suportar tanta hostilidade e desconforto. Elas estão em um dos núcleos do Projeto Quixote que desde 1996 trabalha com crianças e adolescentes em “elevado risco social”.
O nome Quixote não é gratuito, diz a psicóloga Cecília Motta, uma das coordenadoras.
- No imaginário universal Quixote é um sonhador, é um louco, e é como nos sentimos nessa aventura. Aqui é um espaço que simboliza o sair da rua. A rua é um lugar onde ninguém aguenta, onde a vida é como de um soldado no front.
A presença de crianças e adolescentes no Projeto Quixote é o início de uma possível volta para casa, isso quando ela existe.
Educadores acompanham essas crianças de volta para o suposto lar e muitas vezes não encontram mais nem parentes e nem as casas. Em muitos casos, os pais mudaram, e os vizinhos não se lembram do rosto delas. E quando encontram as famílias, o quadro não é promissor. Pais abusadores e violentos, mães doentes e alcoólatras. Segundo Cecília, a “violência física” em casa é o fator mais importante para uma criança acabar indo parar nas ruas.
- O rematriamento (a reinserção na família) é artesanal. Encontramos famílias desorganizadas, na linha da pobreza, com relações desgastadas. Precisamos preparar as mulheres para serem mães destas crianças e adolescentes.
Pais negligentes
Entre junho do ano passado e junho deste ano, o Projeto Quixote entrevistou 209 crianças e adolescentes que vivem no centro da cidade e foi feita basicamente a seguinte pergunta: por que motivo estão nas ruas? Apenas 12,4% das crianças disseram que optaram pela vida nas ruas por causa das drogas.
Os principais motivos para viveram longe de casa foram a negligência de pais e parentes (37,3%), a violência familiar (18,3%) e sexual (15,7%), além da necessidade de se deslocarem com a família para pedir esmolas (10,46%), problemas de saúde mental (3,27%) e trabalho infantil (2,61%). Das 209 ouvidas, 56 não sabiam responder por que estavam nas ruas.O Projeto Quixote recebe as crianças em seus espaços de convivência das 9h às 21h. À noite, as crianças que quiserem são encaminhadas para sete abrigos no centro.
O Quixote está vinculado ao departamento de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e é mantido pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo e Secretaria Municipal de Saúde. Atende em média 300 crianças por mês.
- Criança tem que cuidar, é simples, precisa de afeto. Não somos assistencialistas, só queremos despertar o desejo de dignidade nelas.
Cecília se orgulha de ver todas limpas e bem-vestidas em passeios pelos principais museus de São Paulo.
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