Christian Rizzi/Agência de notícias Gazeta do Povo/AEConhecido das vítimas, Carlos Eduardo confessou os homicídios, mas há questões em aberto, como o motivo do crime e o seu estado mental
27 de Maio de 2012
De um caso de latrocínio até surto psicótico, caso deixa ainda várias incógnitas
O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, 54 anos, e de seu filho Raoni, 25 anos, teve versões contraditórias desde a última sexta-feira (12), a data do crime. De um caso de latrocínio —roubo seguido de morte— a história evoluiu para um possível surto psicótico, e pouco do que foi dito nas primeiras horas se manteve de pé. Até a cor do carro usado pelo(s) suspeito(s) mudou.
Veja a cobertura completa do assassinato de Glauco
As várias versões aos poucos confluíram para um relato relativamente harmonioso, mas evidências ainda alimentam dúvidas da polícia. Na madrugada do crime, a primeira ligação para a emergência da Polícia Militar dava conta de que um carro preto parou em frente à casa das vítimas, e três homens desceram. Um deles teria atirado nas vítimas.
Pela manhã, o advogado da família do cartunista, Ricardo Handro, contou que Glauco e a mulher, Beatriz Galvão Veniss, estavam em casa por volta da meia-noite, quando assaltantes invadiram a casa e os agrediram, antes de decidirem levar Glauco refém. Quando o grupo estava saindo, Raoni chegava. Ele tentou negociar, mas os criminosos balearam os dois e fugiram, sempre de acordo com o advogado.
Foi essa a notícia divulgada pela imprensa de manhã e comprovada pelo advogado em entrevistas ao vivo: a de que um dos cartunistas mais importantes do país tinha sido vítima de um caso de violência por criminosos não identificados.
Conhecido da família
No início da tarde, a primeira mudança. O caso foi registrado como homicídio simples, sem menção a tentativa de sequestro. Uma testemunha disse ter reconhecido um dos suspeitos. De acordo com os primeiros relatos, os três supostos criminosos teriam chegado em um Gol cinza (e não preto) e atirado.
Questionado sobre as versões, o advogado da família de Glauco disse no dia do crime que só estava contando a história ouvida da própria família. Consultado novamente pelo R7 quase uma semana depois, ele não quis se manifestar.
Pouco depois de informar que o assassino era conhecido das vítimas, o delegado Archimedes Cassão Veras Júnior disse que o suspeito era o universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, amigo da família. Ele teria chegado ao local acompanhado de uma pessoa. Já não eram três os ocupantes do carro.
Com base em depoimentos, o delegado disse que o cartunista tentou impedir o suspeito de se matar na entrada da casa. O suspeito, que fora frequentador da igreja Céu de Maria, fundada por Glauco, da doutrina Santo Daime, teria apontado a arma para si.
Nesse relato, o rapaz pediu que o cartunista fosse até a casa dele contar a sua mãe que ele próprio era Jesus Cristo. Quando Raoni chegou e viu o pai sendo levado, tentou intervir, e Cadu atirou, fugindo com o acompanhante.
O acompanhante
Com os suspeitos foragidos, as testemunhas eram a principal fonte de informações. A identificação de parte da placa do carro pela enteada do cartunista levou ao nome do condutor: Felipe de Oliveira Iasi, um estudante que passou a ser considerado possível cúmplice.
Iasi se apresentou à polícia no domingo e disse ser mais uma vítima de Cadu, a quem conhecia e que o teria sequestrado. Ele disse que presenciara o crime, sem poder fazer nada, e também teria ouvido o suspeito afirmar que era Jesus. Após depor, foi liberado.
Em entrevista à TV Globo, no domingo, a mulher do cartunista colocou em xeque alguns detalhes até então divulgados. A ameaça de suicídio foi, segundo ela, uma “cena”, e Cadu não teria dito ser Jesus, apenas “poderoso”. Teria sido ela própria a dizer que ele era Jesus Cristo. Ela afirmou que Iasi teria ficado até o fim na cena do crime.
– Após o assassinato, ele levou Cadu dentro do carro dele.
Envolvimento com drogas
Pouco depois de a entrevista ir ao ar, Cadu foi preso. Ele trocou tiros com a polícia na fronteira com o Paraguai, feriu um policial, acabou se entregando e, imediatamente, confessou os homicídios.
O estado de consciência de Cadu passou a ser foco de atenção. Na primeira vez que apareceu em frente às câmeras, respondeu, com aparente dificuldade de expressão, que matara Glauco e Raoni. Horas depois, em uma gravação feita com câmera amadora dentro das instalações da polícia, contou o crime de forma articulada. Mais tarde, foi conduzido entre repórteres falando em Jesus, com frases desconexas.
O advogado de Cadu, Gustavo Badaró, afirmou que o cliente tinha apresentado distúrbios mentais, dizendo ser Jesus e falando com plantas.
Na quarta-feira (17), o exame de urina do acusado detectou uso de maconha. O suspeito pode ter consumido a droga até cinco dias antes da coleta, o que não comprova que estava sob efeito da dela no momento do crime.
Cadu confessou também vender em um bairro boêmio de classe média pequenas quantidades de drogas, compradas na periferia de São Paulo. Com esse dinheiro, teria comprado a pistola semiautomática, já com a intenção de confrontar Glauco, por motivos religiosos.
Ponto em comum
Em meio a divergências, as versões confluíram em um ponto – a inocência de Felipe Iasi. Cadu disse que levara o “playboyzinho bundão” sob mira de uma arma para acompanhá-lo, e a mulher de Glauco disse já não ter certeza de que o estudante tivesse ido embora com Cadu. Os dois testemunhos foram coerentes com a versão da defesa de Iasi:
– Aconteceu o que parece ilógico, ele fugiu e não ouviu os disparos, disse o advogado Cássio Paulette.
Contra Iasi ficou apenas o testemunho de um amigo da família que estava na casa de Glauco e disse ter avistado um vulto acompanhar Cadu saindo da casa.
Iasi, que disse que foi pra casa e não ligou para a polícia por medo e que só tomou conhecimento do crime às 10h do dia seguinte, viu sua versão contestada por um dado independente de testemunhos: o rastreamento do celular de Cadu, que mostrou um deslocamento a velocidade incompatível com uma fuga a pé, como relatada pelo próprio assassino confesso.
É em outro rastreamento que a defesa de Iasi aposta para afastar as suspeitas, o do GPS de seu carro. Para o advogado, o GPS vai provar que Cadu não saiu da cena do crime com seu cliente.
Consciência de Cadu
Já a defesa de Cadu reafirma algum grau de insanidade do cliente, tese reforçada pelos relatos da família de Glauco e por Iasi. Familiares dizem que Cadu mudou após o envolvimento com o daime. A bebida ritual, legalizada para uso nas cerimônias, é desaconselhada para pessoas com problemas psicológicos.
O pai do jovem relatou um surto e uma conversa com Glauco para que evitasse dar a bebida ao filho. Líder da Céu de Maria, o cartunista teria demonstrado compreensão e dito que controlaria a situação, embora o pai de Cadu considere que o filho tenha voltado a tomar a bebida. Há três meses, Cadu estaria afastado da igreja, disse o pai, que pediu um exame psiquiátrico do filho para provar que ele não sabia o que estava fazendo.
Novamente, é de fora do círculo familiar e de testemunhas que vem a contestação:
–Ele tem o comportamento como se fosse um criminoso contumaz, típico de quem está na vida do crime, disse o chefe da Polícia Judiciária da Grande São Paulo, Marcos Carneiro Lima, citando como exemplo a recusa de Cadu em dizer de quem teria comprado a arma.
Os advogados
O R7 tentou entrar em contato com os advogados das três partes: as vítimas, Felipe Iasi e Carlos Eduardo Sundfeld Nunes.
Ricardo Handro, que representa as vítimas, disse que não vai se manifestar sobre o caso. Os advogados de Felipe Iasi, Cássio Paulette e Pablo Naves Testoni, e o de Cadu, Gustavo Badaró, não retornaram os recados deixados pela reportagem.
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