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publicado em 15/03/2010 às 16h41:

Conheça Zé Congonhas, o fã que tirou fotos
ao lado de 4.000 famosos no aeroporto

Total de fotografias passa de 6.000, se incluídas as personalidades repetidas

Eduardo Marini, colunista do R7

Calçada em frente ao setor de desembarque do Aeroporto de Congonhas, São Paulo, meio-dia. Irineu acerta a posição do corpo na sessão de fotos para esta reportagem do R7 e solta um comentário:
 
- Meu rapaz, Deus tá mandando um sol de derreter couro de jegue, não é verdade?
 
Diante do sorriso contido do repórter, Irineu emenda:
 
- Sei o que você vai argumentar. Vai dizer que a última pessoa do mundo que pode reclamar de chateação por causa de foto sou eu, não é isso? Não é?

Veja a galeria de fotos

Ranking aponta os chatos e os gente boa

Irineu é o zelador Irineu Bernardo da Silva, 50 anos, caçula dos 21 filhos de um ferroviário pobre e de uma dona de casa de Gameleira, no interior de Pernambuco, casado, pai de um jovem de 15 anos. Mas deixe de lado o Irineu. Chame-o de Zé Congonhas. Ele vai adorar.
 
Zé Congonhas é uma dessas figuras impagáveis que transformam a própria vida – e, felizmente, parte da dos outros – em coisas um pouco menos chatas e bem mais agradáveis do que a média.
 
Desde 1989, em seus finais de semana livres, folgas, férias e feriados, ele faz longos plantões no Aeroporto de Congonhas, com pelo menos 12 horas de duração cada um.
 
O objetivo, a meta de Zé: ser fotografado ao lado de artistas, cantores, jogadores de futebol, humoristas, enfim, todo o tipo de personalidade.
 
E não pensem que tudo é feito assim, jogado, de qualquer jeito. Nosso Zé tem figurino exclusivo para a atividade: camisas de manga comprida de cores fortes, arremedo plastificado de chapéu panamá e um cordãozão grossão de aço.
 
Coisa linda. Afinal de contas, nosso Zé precisa estar bonito diante da turma do sucesso. “E ninguém, muito menos gente da fama, merece esculacho”, ele completa. Com grande, absoluta e inteira razão.  
 
Apenas tirar uma foto roubada do famosão sozinho, para ele, vale nada não. Conta zero. Está por fora. O negócio do nosso Zé Congonhas é abordar o figurão, pedir a devida autorização, entregar sua digital Sony com zoom de 12 vezes a um gaiato que esteja próximo e dar a senha célebre:
 
- Você tiraria uma foto minha ao lado desse nosso amado artista, por favor?
 
De 1989 até hoje, são mais de 6.000 imagens registradas ao lado de cerca de 4.000 artistas (veja galeria de fotos). Tanta experiência deu a ele condições de criar um guia de personalidade. Nele, nosso caçador de fotos divide os famosos de acordo com a reação de cada um ao ser abordado por ele. Há o Artista Me Engana que Eu Gosto, o Bomba, o Celular, o Jatinho, o Povão, o Sorriso Maroto e o Chega Mais.

 



 
Isso: Zé Congonhas é pós-moderno. Também conheceu e dominou a autoajuda.
 
Zé tem assessor. E press release, aqueles textos com informações e declarações preparados para ajudar jornalistas a fazer reportagens. O dele tem 17 páginas, 12 delas manuscritas pelo próprio.

 

O moleque Zé era famoso em Gameleira por causa da alegria contagiante. O sonho de criança, mantido até hoje, é o de ser humorista. O estilo ao mesmo tempo sonso, doce e leve lembra o do genial e eterno trapalhão Zacharias.
 
Em junho de 1980, Zé (então Irineu) veio para São Paulo morar no barraco de um amigo de sua cidade na favela Beira Rio, que fica próxima ao aeroporto. Barra pesada. Ao ouvir o primeiro tiroteio, ele, em associação direta com as festas juninas que todos os anos fazem arder fogueiras no Nordeste nesta época, berrou:

- Viva São João.
 
O amigo deu-lhe um tapaço na boca e o jogou embaixo da cama. Quando a coisa acalmou, Irineu levantou com um corte na testa e muito sangue no rosto, que tinha arrastado no chão. O amigo, assustado, achou que ele tinha levado um tiro, mas logo tudo foi esclarecido.
 
Em 1989, desempregado após jornadas de trabalho como zelador e pedreiro, Zé/Irineu passou em um teste para trabalhar de segurança no Aeroporto de Congonhas. A possibilidade de ficar próximo de artistas o deixou entusiasmado.
 
A primeira foto da série foi feita ao lado de Claudia Raia. Ao ver a atriz de perto, abandonou a postura discreta e foi atrás. Claudia parou ao lado do porta-malas de um táxi. Zé chegou por trás e deu um cutucão na atriz, que quase teve um infarto.

 

- Ela levantou as mãos e disse: pode levar tudo, mas não atire, não atire, não mate, não mate.
 
Desfeito o mal-entendido, Zé conseguiu seu primeiro troféu. E protagonizou a primeira gafe. O chefe da segurança do aeroporto não ficava exatamente feliz com a desenvoltura de Zé nessas ocasiões. Em 1990, prometeu mandá-lo para a rua caso ele tirasse foto ao lado de mais alguém. E o chute não demorou a vir. Numa tarde de sábado, Tarcisio Meira, com a imponência que lhe é peculiar, cortou calmo e sorridente o saguão de desembarque do aeroporto.
 
Era demais para Zé, que, obviamente, não resistiu. Bela foto ao lado do galã. Belo bilhete azul.
 
O caso Claudia Raia foi o marco inaugural de alguns furos célebres. Na primeira vez em que viu Carlinhos de Jesus, confundiu-o com Ralph, o da dupla com o Christian. Caminhando um pouco atrás do dançarino, chamou-o várias vezes pelo nome do cantor. Fez elogios, perguntou pela carreira, quis saber da agenda de show. E o artista nada. Nem um pio.

- Até que, uns quatro minutos depois, ele parou, virou-se e gritou: ‘eu não sou Ralph, sou Carlinhos de Jesus! Carlinhos de Jesus, ouviu? Car-li-nhos-de-Je-sus!'
 
Nosso Zé gastou um tempo nas desculpas, plenamente aceitas pelo sempre doce e educado Carlinhos. Mas, claro, não perdeu a viagem. Voltou dela com sua “fotinha”.
 
Em outra ocasião, encontrou Lúcio Mauro Filho e desatou a elogiar o “trabalho” do ator e roteirista no programa Zorra Total. “Trabalho na Grande Família”, deu o toque Mauro Filho após alguns minutos. Zé não perdeu o rebolado, desculpou-se e, novamente, conseguiu sair da saia justa com a imagem registrada.
 
Juca Chaves – um humorista – conquistou o coração de Zé:
 
- Quando foram fazer nossa foto, ele virou para o cara que estava com a máquina e disse: faça-me alto, magro, bonito e rico.
 
O mais célebre dos micos de Zé Congonhas está relacionado a ninguém menos do que o rei Roberto Carlos. No espaço ocupado hoje pela principal livraria de Congonhas funcionava antes um comércio de discos. Certa vez, Zé leu em um cartaz pendurado na loja: “Amanhã: Roberto Carlos ao vivo”.
 
No dia seguinte, às 7h da manhã, lá estava nosso bravo caçador de fotos a postos para tentar ser fotografado ao lado do gigante.
 
Nove horas da manhã. Nada. Meio-dia. Nada. Quatro da tarde. Nada. Até que Zé, esgotado, resolve reclamar com o dono no final da tarde:
 
- Senhor, não está escrito ali que hoje terá Roberto Carlos ao vivo? Cadê ele? E os fãs? Quando começará o show?
 
O comerciante soltou uma gargalhada e fez Zé Congonhas, desmoronado, voltar à realidade:
 
- O que é isso, rapaz? Enlouqueceu? É o disco ao vivo, e não um show do cantor ao vivo. Isso aqui é uma loja de discos, cidadão.
 
Roberto Carlos, por sinal, deu a Zé, em outra oportunidade, o que nosso caçador de fotos considera sua maior pedra preciosa: um autógrafo.
 
Não seria uma foto? Pois é: por uma daquelas ironias supremas do destino, Zé não tem a imagem ao lado do seu maior ídolo.
 
- O motivo eu não me lembro, mas o fato e que esqueci a máquina em casa naquele dia.
 
Um dia ele aparece de novo, Zé. Mas não vá esperá-lo na livraria...

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