27 de Maio de 2012
Emprego significa uma forma de "melhorar a vida" para 35% dos entrevistados
A maioria dos sem-teto já teve um trabalho regular antes de ir para as ruas, segundo apontou um estudo organizado pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto Pólis. No total, 96% disseram que trabalhavam e 90% declararam continuar trabalhando na rua.
Praticamente a metade dos entrevistados (49%) diz que tinha carteira de trabalho assinada. É o caso do cabeleireiro mineiro Edson (foram adotados nomes fictícios, porque os entrevistados não quiseram se identificar) que já trabalhou legalmente por cerca de dez anos em salões de beleza da capital paulista.
- Infelizmente, eu caí na droga e perdi tudo. Agora que estou limpo [sem usar drogas] é difícil ter emprego que pegue ex-morador de rua. Eles têm preconceito, acham que a gente é bandido.
A pesquisa aponta que o recolhimento e a venda de material reciclado é a principal ocupação da população de rua de São Paulo (35%). Há três anos, o carioca Marcos (nome fictício) entrou para essa estatística. Ele vive em um centro de acolhida mantido pela prefeitura e trabalha recolhendo lixo nas ruas.
- Já tenho alguns lugares certos que eu passo. Porque eu trabalho há muito tempo na região [centro de São Paulo]. Já conheço algumas pessoas que separam o material pra mim. Aí eu pego, levo pro depósito e vendo.
Os dados foram obtidos em pesquisa do Instituto Pólis - feita a pedido do Ministério de Desenvolvimento Social -, que ouviu cem moradores de rua, respeitando a proporcionalidade apontada pelo censo dos moradores de rua realizado pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).
Para Maria Carolina Tiraboschi Ferro, antropóloga e uma das pesquisadoras que organizou esse estudo, os dados desmistificam a imagem de que sem-teto é vagabundo ou culpado pela própria situação precária em que está.
– A gente culpa o sujeito, mas por trás tem toda uma situação. Quando pessoas pobres perdem o emprego, o risco de ir para rua é grande. Muitos começam a beber, a brigar em casa com a família. Essas pessoas não esperavam acabar na rua.
A pesquisa também revelou que 96% dizem estar dispostos a trabalhar todos os dias da semana. A maioria (81%) afirma que trabalharia oito horas por dia. Cerca de metade (51%) tem algum curso de capacitação. Ter um emprego significa uma forma de "melhorar a vida" para 35% dos entrevistados. Para 25%, é uma forma de ser reconhecido pela sociedade.
João (nome fictício) tem 64 anos, é formado em publicidade, mas vive em um centro de acolhida mantido pela prefeitura. Desempregado, ele confirma as informações da pesquisa, não apenas por ter nível universitário, mas também por não se sentir reconhecido pela sociedade.
- É como se eu fosse invisível para as pessoas. Eu já vivi tanta coisa na vida... É muito difícil não poder trabalhar e me sustentar. Eu queria muito um emprego, mas as empresas não pegam a gente. Eles dizem que não têm preconceito porque nós fomos de rua, mas na verdade ninguém liga.
Como procurar um familiar desaparecido
A Prefeitura de São Paulo divulga uma lista com fotos e nomes de alguns dos moradores de rua albergados no site da Secretaria Municipal de Assistência Social. O telefone de contato da secretaria é o (0xx11) 3291-9666. Também é possível entrar em contato pelo e-mail protecaosocialespecial@prefeitura.sp.gov.br.
* Colaborou Nelly Bacovic, estagiária do R7
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