27 de Maio de 2012
Especialistas criticam "importação" do projeto de revitalização da Cracolândia
- Da forma com que o projeto está colocado, a região não tem moradores de rua e de cortiço, não tem drogados, trabalhadores informais ou comerciantes. Apesar da falta de informações, já está muito claro que o projeto é excludente e que pretende enobrecer a região para a elite da cidade.
O projeto, elaborado por um consórcio de empresas contratado pela prefeitura, prevê a criação de bulevar, áreas verdes e ciclovias. A estrutura idealizada será composta por três eixos. O primeiro irá abranger a região da rua Vitória e deve ser voltado ao entretenimento, com a criação de um bulevar semelhante ao La Rambla, em Barcelona, na Espanha.
O segundo eixo, na rua Timbiras, será voltado para o setor de tecnologia, com concentração de empresas da área. O último ficará na região da rua Triunfo e será voltado para área residencial, incluindo a criação de uma grande praça, que funcionará como espaço de convivência.
A prefeitura reforça que a discussão sobre o projeto está apenas começando e diz discordar de críticas referentes à falta de informações. Por meio de nota, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano afirma que o site tem "todos os aspectos urbanísticos do projeto".
A prefeitura diz que as experiências internacionais servem apenas como referência. "O modelo a ser implantado deverá, incondicionalmente, seguir as necessidades que a realidade [da Nova Luz] demanda", segundo a nota. A pasta rebate também crítica de que o projeto não contempla demandas sociais. De acordo com a prefeitura, "creches, escola e biblioteca estão previstas e servirão para atender a futura demanda habitacional".
Os moradores de cortiços serão atendidos, diz a nota, por unidades de (HIS) Habitação de Interesse Social, a serem implantadas. A prefeitura afirma que a questão dos usuários de drogas e moradores de rua vai além do projeto e é alvo permanente de ações. "Vale ainda lembrar que o projeto prevê um centro comunitário que vai estar voltado também para a capacitação profissional, procurando assim dar oportunidades a essa população marginalizada de entrar no mercado formal de trabalho."
"Hábitos burgueses"
O arquiteto e professor da universidade Presbiteriana Mackenzie Paulo Giaquinto pondera que o projeto ainda está no começo e, por isso, diz ser difícil prever se o modelo dará certo ou não. Contudo, ele critica a maneira como a administração municipal diz querer atrair capital e público para revitalizar a área. Giaquinto afirma que os focos em entretenimento e tecnologia não são as soluções.
- Nós já temos os exemplos dos equipamentos culturais na região, como a Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa e a região da Santa Ifigênia, onde se pode encontrar todo tipo de tecnologia. Essas duas apostas do projeto [entretenimento e empresas de tecnologia] não funcionam. Falta no projeto dizer quais serão as âncoras [atrativos] que vão puxar os investimentos para a área.
A prefeitura diz, por meio de nota, que a revitalização da área será o maior atrativo para os novos investidores. "Uma área central, estratégica, dotada de infraestrutura, completamente renovada, que prioriza o uso misto de ocupação (habitação, serviços, comércio) e valoriza os espaços públicos será muito atrativa".
A secretaria também defende que a proposta é potencializar e diversificar os segmentos de entretenimento e tecnologia. Na área da cultura, estão previstos equipamentos como cinemas, teatros e casas noturnas. A atração de empresas de tecnologia, diz a pasta, visa a expandir a atual característica da região, hoje limitada à venda de eletrônicos.
O professor também pontua que, para que ofertas imobiliárias na região sejam atraentes à classe média, são necessários investimentos do poder público, como a instalação de hospitais e universidades. Para ele, essa classe social tem poder de consumo que pode ajudar na revitalização da região. Ainda segundo o urbanista, os arquitetos costumam ter o "péssimo costume de impor hábitos burgueses às classes mais baixas”.
- Eu não vi no projeto um local para música popular, que é o que tem a ver com os moradores da região. As imagens [do croqui] parecem um centro europeu. O projeto me parece uma transferência de exemplos internacionais. E isso é praticamente sentença de derrota.
Áreas verdes
A urbanista Lucila Lacreta, diretora do ONG Defenda São Paulo, faz coro com os outros especialistas e afirma que o centro “não pode virar o shopping Iguatemi”. Para ela, há características da região que não são levadas em conta na proposta.
- A Santa Ifigênia é uma região que tem uma vitalidade que não se encontra em outro lugar. Pelas informações dispostas no projeto, não sei como ela vai se readequar dentro desse espaço.
Já o arquiteto e professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo) Dácio Ottone diz acreditar que a junção de comércio, moradia e entretenimento é a formula para consolidar um bairro sólido e com infraestrutura bem arrumada. Para o especialista, a região é rica em transporte coletivo, o que pode ser um grande atrativo para que as pessoas voltem a morar no centro.
- A região tem futuro e o projeto da Nova Luz pode inclusive movimentar a revitalização de outras áreas próximas.
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