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publicado em 31/07/2011 às 12h34:

R7 passa jornada na Feirinha da Madrugada

Reportagem mostra curiosidades, estilo e os segredos de um dos mais curiosos mercados

Eduardo Marini com fotos de Julia Chequer, do R7


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Jeitão de rodoviária caótica de subúrbio, trilha sonora bate-coxa, esfrega- chinela e chora-coração de pé de serra, população de disposição admirável e semblante nem tanto e clima de arrasta sapato de quermesse bombada do Brasil profundo. 

A Feirinha da Madrugada, visitada pela reportagem do R7 na virada do último dia 26 para 27 de julho, poderia ser tudo isso, tem um pouco de cada uma dessas coisas mas, para o bem ou para o mal, não é absolutamente nada disso.

Veja fotos da Feirinha da Madrugada

Encravada entre a avenida do Estado e as ruas Oriente, São Caetano e Monsenhor de Andrade, no Brás, bairro paulistano com corpo, alma e cheiro de comércio, esse formigueiro humano toma forma e se desfaz, de segunda a sábado, com cinco mil ambulantes no galpão principal, outros estimados 1,5 mil nos arredores e entre 10 mil e 20 mil fregueses diários.

Uma multidão que confere vida a um dos mais curiosos e inusitados mercados populares do Brasil e do mundo.

A feirinha funciona de segunda a sábado, das duas da madrugada às quatro da tarde do dia seguinte.

E tome acessório, alimentação, Bijuterias, bolsas, bonés, brinquedos, pelúcias, carteiras, cintos, decoração, jeans, relógios, perfumes, papelarias, celulares, roupas., calçados...

Em clima de boemia fake, de balada falsa encorpada a pão e bolo com margarina, e regada a café de garrafa térmica em copo de plástico, geléia e ou extrato de tomate, os ônibus começam a encostar no imenso estacionamento da Feirinha a partir da meia-noite.
Na média, ele abriga entre 400 e 500 busões a cada madruga. Nas jornadas mais pegadas (Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, dos Namorados, período de Natal) a coisa passa dos 600. Isso fora peruas, vans e carros particulares.

Esses números significam algo entre 2,5 e 4,5 estações rodoviárias do Tietê, a maior do País, com todas as suas plataformas de embarque e desembarque ocupadas.

Por isso, a turma precisa ficar esperta. Ou então vai demorar muito, mas muito tempo para encontrar seu busão na hora da volta.

Neste clima copinho de leite a reportagem do R7 encontrou José Marçal, por volta de duas da manhã, ao lado da porta do ônibus que o trouxe de Paraíba do Sul, Estado do Rio de Janeiro, cidade distante 430 quilômetros da Feirinha.

Funcionário da ELC, grande empresa de produtos de segurança de sua cidade, no horário dos normais, Marçal paga R$ 85 pela excursão para comprar tênis a cada 20 dias na feirinha.

Costuma voltar com 20 a 50 pares, a depender dos pedidos, como ele explica:

- Oitenta por cento do que vendo é por encomenda. Pago em média entre R$ 50 e R$ 60 o par. Repasso com com margens entre 60% e 120%. 

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As lojas ao lado da Feirinha costumam dar nota fiscal. Já os ambulantes de dentro... Bom, se a polícia parar na volta e resolver arrochar, o jeito é ter “conversa de trabalhador e muita paciência”, como diz Marçal.

A Feirinha da Madrugada recebe gente de praticamente todos os estados do País. Mas Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são, junto com os nascidos em São Paulo, claro, os líderes da freguesia.

O espaço é cuidado todos os dias por 160 policiais militares, divididos em dois turnos de 80. Mesmo com tanta gente reunida em pleno madrugadão, as ocorrências, na suprema maioria das madrugadas, não são graves e nem em grande número, como explica o tenente Antônio Júnior, um dos chefes de equipe da PM que atuam no lugar:

- Normalmente, temos entre dez e 20 ocorrências por jornada. A suprema maioria dos casos é composta de pequenos furtos de clientes que se distraem com suas sacolas ou sacoleiro de fora que perdeu ou teve furtada a carteira com dinheiro e documentos. Mas violência, briga, gente bêbada brigando, isso quase não acontece.

Apesar de a Feirinha funcionar até quatro da tarde, muitos donos de barraca, grande parte deles fabricante do que vende, deita lona e volta casa entre oito horas e dez da manhã.

O motivo: neste período do dia, a maioria dos sacoleiros, de pacotada cheia e feliz com os preços pagos dentro da Feirinha, toma o rumo das lojas do Brás das redondezas, em busca do arremate final com o que sobrou das pechinchas no balcão.

É o caso de Ari Gomes, cearense de Fortaleza, 64 anos, os 44 últimos vividos em São Paulo. Fabricante e vendedor (a bons preços), de dezenas de modelos de bolsas, estojos escolares e afins, ele explica porque não passa das dez da manhã em suas barracas, as de número 98 e 99 da rua D:

- Olha, o sacoleiro nosso freguês normalmente tem outra renda além desta. Mesmo quem mantém loja costuma ter também um emprego ou aposentadoria. No nosso caso, dos que vendem aqui na Feirinha, isso é muito difícil, quase impossível.

Antônia, vendedora de moda feminina ao lado de Gomes, nas barracas 69 e 72, com 60% de fabricação própria e 40% comprados, completa:

- Veja só o meu caso. Chego aqui antes de meia-noite para montar as barracas. Começo a atender a turma a partir das duas, saio daqui – quebrada, moída - às dez, onze da manhã, meio-dia. Aí vou correr atrás de mercadoria, comprar alguma coisa, fabricar outra... E ainda preciso arrumar tempo para descansar, comer, tomar banho. Bom, sou de carne e osso como vocês, né? Assim vivemos eu, o Ari e 95% desses malucos que ralam aqui.

A Feirinha da Madrugada funciona há dez anos. Até 2005, era feita a céu aberto, na região da Rua 25 de Março, tradicional ponto de comércio do tipo tudo-o-que-você-imagina-e-mais-alguma-coisa na região central de São Paulo.

A partir de 2006, ela passou para o galpão atual, uma área antes ocupada pelas Ferrovias Paulistas, a Fepasa. No início, foram para a Feirinha ambulantes que trabalhavam mais cedo no Brás e também os retirados da 25 de Março por pressão dos comerciantes donos de loja.

Foi a solução encontrada para impedir conflitos entre ambulantes e lojistas. Com horário e local de trabalho diferentes, as chances de choque entre as partes dimimuiriam bastante.

Nos últimos cinco anos, em meio à mudança de líderes e à luta pelo controle administrativo e político do espaço, a Feirinha sofreu abalos. Foi envolvida em denúncias de corrupção e de atuação de milícias policiais, que durante um tempo teriam cobrado “pedágio” de ocupantes do lugar.

Na mais recente dessas denúncias, os vereadores de São Paulo Agnaldo Timóteo (PR) e Adilson Amadeu (PTB) foram acusados por comerciantes e lideranças da feira de cobrar propina de antigos e novos camelôs.

Timóteo tentou responder com chumbo grosso.

Em carta escrita no último dia 31 de março a um “empresario amigo”, Geraldo de Souza Amorim, ex-administrador e supostamente controlador de grandes espaços da Feirinha, com firma reconhecida e registro em cartório, o cantor-vereador acusou “oportunistas” do seu partido, o PR, Partido da República, de “exigirem propina de R$ 300 mil mensais” a Amorim para que ele continuasse a explorar o espaço.

O vereador do PR acrescenta na carta: “os maus conselheiros te levaram a peitar o Waldemar (Valdemar – com V - Costa Neto, deputado federal por São Paulo e presidente nacional de honra do PR) e, lamentavelmente, te ajudaram a perder sua galinha com ovos de ouro. Uma pena!”.

As acusações contra Timóteo e Amadeu a a reação bombástica do cantor-vereador levaram o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) a fazer uma representação no Ministério Público Federal pedindo investigação do caso.

Hoje, a administração da Feirinha está entregue à Prefeitura de São Paulo. A taxa de cerca de um salário mínimo historicamente paga pelos ambulantes do espaço está temporariamente suspensa.

E assim, entre um baque e outro, a Feirinha, seus camelôs e sacoleiros dispostos vão sobrevivendo.

Camelôs, sacoleiros e clientes inusitados como Dona Maria Julia Zandomenigue, 67 anos, de Rio Claro, interior de São Paulo.

Uma das raras a visitar a feira para “consumo próprio”, e não a trabalho de comprar e revender, ela estava animada com o pijama novo comprado para o maridão, funcionário público aposentado, e, sobretudo, com a camisola arrematada para ela própria.

Dona Maria Julia abre a bolsa, mostra a foto de Rita de Cássia, 41 anos, filha única que morreu de câncer há um ano, e crispa no rosto o único instante de tristeza da conversa.

Em seguida, exibe o pijama de malha comprado para o marido - mas, elegante, pergunta se ficaríamos chateados se ela não mostrasse a camisola. Na hora, o repórter aperta das duas mãos de Dona Maria Julia e a ajuda a fechar a bolsa.

É madrugada profunda.

A fina Dona Maria Julia se levanta, diz ter adorado a entrevista e se despede rumo às lojas que começam a acender letreiros e a abrir nas ruas ao lado da Feirinha.

- Um abraço.

Outro, Dona Maria Julia.

O maridão vai adorar o pijama.

E, embora a gente não tenha visto, ainda mais a camisola, tenha certeza.


 
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