Dília Massuia, que mora em São Paulo, precisou cortar empregada todos os dias e agora conta com ajuda de uma assistente duas vezes por semana
Publicidade
Na falta de grana, vale tudo para cortar gastos, até mesmo mandar a empregada doméstica embora ou diminuir o número de dias de trabalho da diarista. Mesmo a contragosto, já que elas costumam “salvar a vida” de muita gente na correria do dia a dia das grandes cidades, o fato é que cortando essa despesa do orçamento do mês é possível poupar bastante dinheiro.
Foi pensando na economia que a gerente de comunicação Zeneide Teixeira Amaro trocou a ajudante que ia diariamente a sua casa por uma que trabalha apenas três vezes por semana. Apesar de ainda ter alguém com quem contar para fazer as atividades domésticas, ela precisou mudar, e bastante, sua rotina.
- Não a mandei embora só pela questão do dinheiro, mas porque desconfiávamos que ela estava roubando coisas da minha casa. Um dia sumia dinheiro, no outros, objetos. E assim foi. Com a nova empregada, eu precisei ir para cozinha. Antes, eu apenas fazia a comida e deixava a sujeira lá para ela.
Mas não foi apenas Zeneide que passou a dedicar parte do seu tempo para cuidar da casa. Os dois filhos também foram “convocados” para ajudar.
- Fiz uma tabelinha, uma espécie de escala para cada dia. Em cada dia, em cada horário, era um deles quem lavava a louça. Um ano depois que eu enjoei de cozinhar, foi meu marido quem mudou o horário de trabalho para começar a preparar a comida. O problema era que ele não sabia fazer nada [risos]. Mas eu e minha filha deixávamos a receita e, no fim, ele aprendeu.
Assim como a gerente de comunicação, a dona de casa Dília Massuia, que mora em São Paulo, não quis assumir o trabalho de casa sozinha. Há pouco mais de um ano, ela cortou a empregada que ia todos os dias por uma diarista que trabalha duas vezes por semana.
- Meu problema é a louça, mas para isso eu adotei a máquina de lavar. A casa, ela limpa e a gente apenas mantém. Coloco meus filhos para arrumar a cama deles pelo menos aos domingos. Antes, eu era neurótica com limpeza, mas hoje, não sou mais não.
Apesar de não trabalhar fora, Dília afirma que não ter empregada todos os dias faz muita diferença. Mas, segundo ela, os salários das empregadas subiram tanto nos últimos anos que não acompanharam os aumentos dos outros trabalhadores.
- Se eu trabalhasse fora e tivesse que pagar meu salário todo, eu pagava [risos]. Gente que faz serviço de casa deveria ser indenizada pelo presidente. O problema é que o quê ganhamos não é suficiente para bancar uma empregada todos os dias. Antigamente, nos pagávamos um salário mínimo por todos os dias. Agora, pagamos quase um salário mínimo por mês para dois dias de trabalho por semana.
Os dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) mostram que a conclusão de Dília está para lá de correta. Nos últimos quatro anos, o salário das empregadas na região metropolitana de São Paulo aumentou 21%, já o dos trabalhadores em geral subiu menos da metade: 8%.
Apesar das duas mães de família sentirem falta das ajudantes em casa, o administrador Carlos Magalhães, de 28 anos, que mora sozinho na capital, diz que tem vários motivos para manter empregada bem longe de casa.
- Coloquei no papel e percebi que teria um gasto a mais de R$ 300 a R$ 400 por mês com uma pessoa. Reservo três horas dos sábados para limpar a casa. Levo minhas camisas para a lavanderia, lavo o resto na máquina aqui em casa, almoço fora de dia e, à noite, faço algo pré-pronto. Sou uma pessoa metódica também, então, prefiro eu mesmo arrumar, e saber onde estão minhas coisas. Isso não tem preço. É um alívio.
Falta de empregadas
Apesar de muitos precisarem eliminar esse “luxo” das vidas, a procura por ajudantes do lar é alta na cidade de São Paulo. De acordo com a diretora da agência de empregadas domésticas Unire, Ângela Correia, há muitas pessoas que estão há tempos a procura e não encontram.
- Senti, do ano passado para cá, uma diminuição dos salários delas. Não sei se é uma recessão. Por isso, muitas têm preferido ser diaristas e pegar várias casas. Talvez dê para ganhar um pouco mais.
O presidente da ONG Doméstica Legal, Mário Avelino, afirmou que uma das preocupações do brasileiro em manter uma empregada é o registro em carteira. Além dos impostos, os patrões têm que fornecer a alimentação.
- Nós estamos batalhando para diminuir os impostos que se pagam para quem quer ter uma empregada. Uma pessoa que tem que manter uma ajudante todos os dias em casa tem um gasto de R$ 1.000 por mês, ou seja, ela precisaria ter uma renda familiar de pelo menos R$ 4.000. O índice de informalidade é muito alto. Para cada100 domésticas, apenas 27 delas têm carteira assinada, no Brasil.