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O adeus a Índio, o ambulante espancado até a morte no Metrô de São Paulo

Amigos e familiares enterram o corpo do vendedor ambulante assassinado no domingo (25)

Peu Araújo, do R7

Luiz Carlos Ruas
Luiz Carlos Ruas Reprodução

"Eu peço perdão pela vida daqueles dois jovens, porque eles não tinham sanidade mental ao cometer um ato desses. Que Deus perdoe eles também", brada um familiar de Luiz Carlos Ruas, o vendedor ambulante que foi espancado até a morte no domingo de Natal (25), em frente à catraca do Metrô Pedro II, em São Paulo, após tentar defender uma travesti em situação de rua. Outro parente, em meio às duas dezenas de pessoas, retruca: "Ele perdoa, eu não."

E sob pedidos de “justiça”, amigos e familiares se despedem do homem de 54 anos.

Familiares velam vendedor morto no Metrô
Familiares velam vendedor morto no Metrô Fabio Braga/27.12.2016/Folhapress

Paranaense de Guaraci, cidade de pouco mais de 5.000 habitantes no norte do Estado, Luiz Carlos Ruas trabalhava no Parque Dom Pedro, entre o terminal rodoviário e a estação do Metrô, há mais de 20 anos. Água, refrigerante, cerveja, pipocas, salgadinhos, cafés e vários tipos de doces faziam parte da barraca do Índio, como o ambulante era conhecido na região. Maria de Souza Santos, 54 anos, explica o apelido. "O povo chamava ele de Índio. A avó dele era índia, acho que é por isso."

Ele e a esposa estavam juntos havia 32 anos. "Eu estou muito triste, tanto que eu não quis nem ver. Eu vou ter lembrança dele vivo." Do lado de fora, ela parece ainda estar aérea com a situação. Parentes próximos comentam que sua ficha não caiu.

Neste instante, Maria de Fátima Ruas, irmã de Índio sai de dentro da sala 1, onde o corpo estava sendo velado e grita aos quatro ventos por justiça. Ele pede ao delegado Nico Gonçalves, do Decade (Departamento de Capturas e Delegacias Especializadas), que seja rigoroso em sua busca pelos agressores. Diante das câmeras de TV, ela diz: "Esses caras que fizeram isso são monstros, não posso nem chamar de lixo, porque lixo é reciclável."

A irmã e outros parentes ainda levantam o motivo de Luiz Carlos estar trabalhando em pleno Natal: o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) do carro. 

Roubado

Sobrinha de Índio, Janaína Ruas, comenta: "Ainda foi uma pessoa e roubou ele desacordado." Ainda durante o velório, os parentes comemoram discretamente a prisão do homem de muletas que, ao ver Luiz Carlos Ruas desacordado, pegou sua carteira e seu celular.

Pouco antes das 17h, o corpo deixa a sala onde estava sendo velado com apenas uma coroa de flores. O caixão de madeira lacrado range ao entrar em contato com o alumínio do carro que o transportará até sua cova. A famíla, num silêncio quase resignado, segue a pé por quase um quilômetro.

Outra mulher também tem a atenção de viúva. Maria Aparecida Cavalcante convivia com Índio havia quase uma década. Ela fala da relação dos dois. "Eu era a outra mulher dele, nós já estávamos juntos há nove anos. Todo mundo sabe, temos carta registrada em cartório."

Ela, que o acompanhou até o hospital, explica como recebeu a notícia de sua morte. "O médico me chamou e disse que ele entrou em óbito, que não tinha como ele viver, a cabeça dele foi estourada toda por dentro."

Protegida

A consultora de imóveis Ivanir Kohara, de 57 anos, estava conversando com o vendedor ambulante minutos antes das agressões. Ela e Índio ficaram amigos, porque o Parque Dom Pedro é seu itinerário de manhã e à noite nos passeios com sua cachorrinha. "Eu me sentia protegida por ele."

Ela conta que viu os dois homens agredirem uma das travestis e que ouviu ela pedir ajuda ao vendedor ambulante. "Na hora ele disse: 'Por que você tá fazendo isso com ele?'."

A testemunha relata ainda a demora no atendimento. "Ele ficou um tempão caído no chão, não tinha ninguém do metrô. Toda hora tem guardinha perto da catraca, naquele dia não tinha ninguém. Demorou muito o socorro. Foi muita demora no resgaste, pra tudo."

Índio fazia parte também da rotina de Ana Célia de Souza, de 33 anos, que sai diariamente do Parque São Lucas para a Avenida Faria Lima e passa pela estação Pedro II. No protesto feito no início da tarde desta terça-feira (27), ela conta como o ambulante se tornou seu amigo. "Convivo com o Seu Luiz há três anos, porque é o meu trajeto. Eu passo por aqui todo dia e conheci ele."

E comenta gestos recíprocos de amizade. "Eu viajei há uns dois meses e ele me pediu para trazer peixinho seco, ele gostava muito de manjubinha. Ele ficou muito emocionado com o gesto. Ele também já foi meu ombro amigo e me ouviu chorar quando eu sofri racismo dentro do metrô. Eu falei para ele."

Sem brigas

Outro que relembra a rotina é o também ambulante Gilberto Silva Gomes, de 34 anos, dez deles lado a lado com Índio. "Ele trabalhava de domingo a domingo. Era um cara que não gostava de briga, ele sempre apartava. Era muito respeitado pelas pessoas ali."

O caixão desce diante de uma comoção tímida, enquanto os rumores de que os suspeitos da agressão — Alipio Rogério Belo dos Santos, de 26 anos, e Ricardo Nascimento Martins, de 20 anos — se entregariam no DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa) se desfaz ao cair da paz.

A família pede por justiça e chora a morte de Índio, um homem que estava no lugar de sempre e na hora de trabalho.

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