O relato de um pai de detento

Apenas um em cada dez visitantes de cadeias do Estado de São Paulo é homem. Veja relato de pai que acompanhou filho preso por três anos

Imagem aérea do Centro de Detenção Provisória de Guarulhos, em São Paulo
Imagem aérea do Centro de Detenção Provisória de Guarulhos, em São Paulo Gustavo Basso/R7

Este é o segundo Dia dos Pais de José* com o filho em liberdade. Depois de uma pena três anos pai e filho tentam recolocar a vida nos eixos.

— Nunca mais ele estará livre, este erro vai ficar marcado na vida dele pra sempre.

Emocionado, o pai revela a luta incessante fora das grades. E conta como peregrinou por três presídios no Estado de São Paulo.

Sua saga é a mesma de milhares de mulheres que visitam as penitenciárias e CDPs (Centro de Detenção Provisória) no Estado. José está nas linhas abaixo por ser uma exceção à regra.

Sua presença, tanto no CDP de Guarulhos, quanto em dois presídios no interior do Estado de São Paulo, representa uma minoria. Dos 1.003.329 visitantes cadastrados no sistema da SAP (Secretaria de Administração Penitenciária), apenas 243.612 (25%) são homens.

Os números das visitas são ainda menores. Em julho deste ano foram realizadas 215.102  visitas em todo o Estado de São Paulo. Do total, 11,8% foram registradas por homens. O restante foi preenchido por mulheres (82,5%) e menores (5,7%).

De janeiro a julho deste ano o número de mulheres também é bastante parecido. De todas as 1.146.208 visitas, 82% foram feitas por mulheres e apenas 12,3% por homens. O número é praticamente igual no mesmo período de 2016.

As estatíticas foram fornecidas pela SAP a pedido do R7.

José, que é viúvo, comenta a falta de homens nas visitas aos detentos.

—  Tem a ver com o machismo. A mentalidade de pais, principalmente os mais antigos, é de que “foi preso, para mim morreu.”

O pai do detento revela ainda que a presença masculina é bem menor do que os números apresentados pela SAP.

— Nas visitas que eu ia, de 100 mulheres tinham dois, três, no máximo quatro homens e muitos iam até a porta do presídio, mas não entravam.

Além da ausência paterna, a comunidade carcerária tem ainda um alto índice de pessoas que sequer tem o nome do genitor no documento de identidade. De acordo com levantamento publicado pelo R7 no dia 6 de julho de 2017 há 183.945 presos no Estado de São Paulo. Segundo a SAP, 28.439 detentos dos presídios paulistas não são registrados pelo genitor. Com base nestas duas fontes é possível concluir que 15,5% das pessoas encarceradas não são registradas pelo pai.

Leia o depoimento de José sobre a baixíssima frequência de homens nas visitas, o abandono dos pais aos filhos encarcerados, as facções dentro dos presídios, as humilhações sofridas pelas famílias e a vida que se desacortina fora das grades. 

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Familiares de detentos em presídio no Estado do Amazonas
Familiares de detentos em presídio no Estado do Amazonas Marcelo Camargo/Agência Brasil

Poucos homens nas visitas

Eu não queria perder o meu filho nem para o roubo nem para o tráfico, porque se ele ficasse sozinho lá dentro o apoio que ele ia ter era desses caras [crime organizado]. Lá dentro se você não tiver o apoio de familiar, o detento acaba sendo obrigado a assinar o contrato com o PCC. É assim que funciona.

Eu fui na luta, não deixei ele sozinho um minuto. Onde não dava pra gente se falar por telefone, a gente se falava por carta. Eu tinha mais de 300 cartas que a gente trocava.

Eu acho que a falta de homens nas visitas tem a ver com o machismo. A mentalidade de pais, principalmente os mais antigos, é de que foi preso para mim morreu.

Na época em que meu filho esteve preso no CDP de Guarulhos eram poucos homens, quando ele foi transferido para outro presídio no interior do Estado aí eram menos homens ainda. Nas visitas que eu ia de 100 mulheres tinham dois, três, no máximo quatro homens e muitos iam até a porta do presídio, mas não entravam.

Eu me emociono quando eu falo, porque a gente sofre demais. É muito dolorido a gente passar a humilhação que a gente passa lá dentro e na hora que fecha a grade para ir embora é muito difícil ver seu filho lá dentro sem poder sair.

Ele não estava lá de graça, eu nunca passei a mão na cabeça dele pelo que ele fez, até hoje eu não passo. Ele está pagando, passando pela situação que está, porque quis. Ele não foi pego pelo braço para fazer besteira, mas não é por esse motivo que eu vou abandonar ele. Meu pensamento sempre foi esse.

A namorada dele ficou firme o tempo inteiro. Eu tenho certeza que se ela não estivesse comigo eu não aguentaria e acho que ele também não.

Facções dentro dos presídios

Ele caiu lá dentro, largou a droga e ficou fora de todo tipo de movimento. Ele não se envolveu com nada.

É difícil manter alguém fora de facções. Lá dentro é uma lavagem cerebral. O PCC comanda aquilo lá dentro. Não é a polícia, não é o sistema que controla eles, eles controlam o sistema. É diferente.

Esses caras lá dentro [membros do PCC] têm celas separadas. Em Bauru é uma zona, só não tem moto para os caras andarem lá dentro. Não tem como eles falarem que não sabem que tem telefone. Uma vez eu vi um preso com um tablet lá dentro.

Eles chamavam meu filho com frequência [para pertencer à facção], mas o problema é que se você aceita você e sua família ficam nas mãos desses caras. Se eles te derem uma missão de matar um PM ou matar outra pessoa e você não cumprir eles matam você ou alguém da sua família. É um negócio que você está amarrado para o resto da vida.

Se você não quer participar eles não te enchem o saco, mas se tiver uma treta lá dentro você não tem segurança nenhuma. Graças a Deus não teve nenhuma ocorrência no período em que ele ficou preso como teve agora neste de Pinheiros.

Celas e pátio do CDP de Guarulhos, em São Paulo
Celas e pátio do CDP de Guarulhos, em São Paulo Gustavo Basso/R7

A penitência dos familiares

A família é muito mal recebida sempre. Nós somos tratados como se fôssemos os culpados dos agentes estarem trabalhando. A humilhação é constante. Meu filho não se chama “Ladrão”, mas para eles todo mundo é ladrão, não tem outro nome.

O parente já é humilhado quando ele vai levar o jumbo [alimentos e itens de higiene levados aos detentos]. Você tem que separar tudo em saquinhos plásticos transparentes, quando você entrega os agentes quebram tudo, amassam e aquilo chega para o seu familiar destruído. O pão de forma chegava só uma “massada”, eles faziam propositadamente para chegar estragado lá dentro.

Quando você levava comida na visita do fim de semana eles te davam uma lista do que pode ou não pode, como deve ser levado e em que formato. Eu obedecia aquilo à risca todas as vezes. Eu nunca levei nada que não fosse permitido, mas várias vezes eu tive que jogar comida fora, porque naquele dia o funcionário achou que não ia entrar aquela comida.

Uma vez eu levei um bife a milanesa, cortado já, porque não pode entrar bife com osso, galinha com osso, nada disso. Eu preparava e levava numa embalagem separada do resto da comida, fiz isso por meses. Naquele dia o agente cismou que não ia entrar, porque tava muito bonita e cheirosa. Ele falou pra mim. “Isso tá muito cheiroso, o cara não merece comer isso lá dentro. Não vou deixar entrar. Põe aí do lado.”

Se eu deixasse ali sabe o que ele ia fazer? Comer depois. Eu joguei na lata do lixo. Se meu filho não vai comer, ele também não vai comer.

Essas coisas faziam você ficar marcado. Aí toda vez que você chegava com a mistura o cara não deixava você entrar até você não levar mais. Eu passei a fazer um macarrão com presunto e queijo derretido para que eles não tirassem a comida do meu filho. Isso ficou até quando trocou o funcionário, quando tiraram ele de lá voltei a entrar com tudo normal. Eles têm satisfação em sacanear quem faz visita.

Você é tratado lá dentro como se fosse um bandido. Eles não dão o nome, não dá nem para reclamar do funcionário. Não tem crachá, não tem nada.

Você entra, tira a roupa, senta num banquinho que detecta alguma irregularidade e acaba, mas muitas vezes eles extrapolam essa revista.

É muito pior para as mulheres, porque têm algumas agentes que abusam delas, pedem para que elas sentem numa cadeira obstétrica para ficarem olhando elas.

Eles são estúpidos com todo mundo, por mais que você tenha educação, fale com calma, eles costumam ser agressivos, não respeitam os horários.

A gente chegava às 4h, 5h da manhã para conseguir entrar no presídio depois de 10h30.

Os familiares não podem usar guarda-chuva, tem que usar capa e se você estiver molhado não pode entrar. É bem complicado. Quando chovia muito a gente levava roupa extra, tínhamos que fazer uma cabaninha para se trocar e a roupa molhada a gente perdia, porque não podia guardar numa sacolinha, tinha que jogar no lixo.

Sobra muita comida que eles não permitem entrar, ou que decidem que naquele dia não pode entrar, não pode ser guardado, tem que ser jogado no lixo. Aquilo que está sendo jogado fora é o suor de quem tá ali, de quem faz vaquinha para ver o filho. Eu passava o mês juntando dinheiro, porque cada vez que eu ia para o presídio do interior eu gastava, com passagem, hospedagem e as outras coisas, uns 700 reais. Só de pedágio é 140, mais 120 de estadia, mais combustível.

A vida lá dentro é muito humilhante. Esse sistema não recupera ninguém, só afunda o cara mais ainda.

Imagem aérea da Penitenciária de Guarulhos
Imagem aérea da Penitenciária de Guarulhos Gustavo Basso/R7

Fora das grades

Da cela do meu filho, em um dos presídios, dos 12 caras que estavam, ele é o único que está vivo, trabalhando e sem ligação com o crime. O resto, ou já voltou pra cadeia ou já morreu.

Os que entraram com ele nesse embalo dessa besteira que ele fez também já morreram todos, inclusive o que foi preso com ele.

Todos os familiares que viviam enfiados na minha casa sumiram, parece que eu tinha feito alguma coisa errada. Eu ouvi coisas de amigos que eu preferi nunca mais falar com a pessoa a ter que voar na garganta dela e perder a razão.

Eu tô feliz porque eu consegui salvar meu filho.

Nunca mais ele estará livre, vai ficar marcado na vida dele pra sempre.

* Nome fictício para preservar a segurança do entrevistado