"Percebi que eu não precisava me esconder porque o HIV não me definia"

Jeferson Martins recebeu o diagnóstico há oito anos e enfrentou seus medos e inseguranças

Ana Ignacio, do R7

Jeferson Martins descobriu que estava com HIV aos 19 anos Eduardo Enomoto/R7

Jeferson Martins tinha 19 anos e estava na faculdade quando fez um exame de sangue e descobriu que tinha o vírus HIV. A primeira coisa que fez foi contar para os pais.

Depois, aos poucos, descobriu como lidar com essa característica em sua vida. Hoje, o jovem é relações públicas e mora com a irmã em São Paulo.

Conheça a história de Jeferson:

DIAGNÓSTICO
Este ano faz oito anos que eu descobri e hoje tenho mais consciência de quão jovem eu era naquela época. Eu tinha 19 anos e eu não tive essa percepção de que minha vida mudou, porque eu era jovem quando eu descobri, então era como se eu tivesse vivido minha vida inteira com HIV. Eu fiz o exame porque tinha um namorado na época e a gente discutiu por qualquer coisa e eu falei que ia fazer o exame, mas eu nunca esperava.

Meu pensamento hoje em dia é que como aconteceu não importa, o que importa é o que fazer com isso. Eu não esperava, fiquei muito chocado e não sabia o que fazer. Peguei o exame, abri no computador e deu isso. Fiz de novo em diversos laboratórios e vi que tinha que aceitar o resultado.

Eu tenho lembranças da minha vida sem essa parte, mas muito do meu desenvolvimento em áreas que são importantes eu não vivi sem então eu não sei como é ser um jovem sem essa característica. Muito dos medos, das experiências, do que diz respeito a relacionamentos, do que diz respeito à sexualidade, a auto aceitação, descobertas de si mesmo eu não passei como um jovem que não tem essa característica. Eu passei com os meus próprios medos e eu passei suprimindo isso para mim mesmo. Até que dois anos atrás eu resolvi colocar isso para fora e lidar de outra forma.

ACEITAÇÃO
Várias partes da minha vida afetiva, sexual e emocional ficaram quase que hibernando durante muito tempo. Só quando eu resolvi realmente tratar dessa característica consegui amadurecer. Passei por um processo grande, tive uma relação que foi um pouco conturbada em 2014, mudei de País por causa de uma paixão, larguei tudo e fui morar lá e voltei muito debilitado emocionalmente e falei que eu precisava colocar tudo no lugar. E fui cuidar disso. Procurei o GIV (Grupo de Incentivo à Vida), fui na reunião de jovens, comecei a frequentar, e comecei a me entender e vi que podia falar sobre isso. Todo mundo tem o poder de contar da sorologia para quem quiser e só ela pode decidir. Mas, para a minha vida, tive tanto medo sempre de estar andando na rua, no trabalho e me sentir um HIV ambulante, achar que eu tinha cara [de HIV] e percebi que eu não precisava me esconder porque aquilo não me definia. Hoje, ninguém pode chegar em mim e falar que sabe algo sobre mim. Porque agora todo mundo já sabe.

Muita coisa mudou em oito anos, tanto na medicina quanto na forma de tratar a questão do HIV. Quando eu descobri com 19 anos não tinha informação além do muito básico e muito longe da sua realidade. Não tinha uma referência de pessoas que passaram, pessoas que viviam com HIV. Então eu tinha meus medos. Com 19 anos, na minha turma, ninguém tinha.

Eu não sabia que podia dividir. Era uma coisa que era dito que não podia falar, diziam para guardar isso para você. Contei para alguns amigos, algumas pessoas mais íntimas e as pessoas choravam. E comecei a criar para mim nesse tempo inteiro uma máscara, um comportamento de que estava tudo bem. Fui no infectologista que me falou que tinha pessoas que duravam até 15 anos. Eu com 19 achei que era maravilhoso. Já estou durando oito.

Eu injetei em mim uma força para lidar com isso e as pessoas estavam morrendo [de tristeza] porque eu ia morrer. Mas na verdade eu descobri que essa força, muito tempo depois, era de mentira. Ao mesmo tempo que eu estava forte eu usava várias válvulas de escape para não lidar com um monte de coisa, para não lidar com a falta de cuidado que eu sentia porque sempre fui muito autossuficiente, afastava as pessoas, não me envolvi amorosamente.

RELACIONAMENTOS
Hoje eu desenvolvi para mim, para a minha vida, sempre contar antes de ter qualquer tipo de relação sexual. Eu prefiro contar antes, nas não é uma obrigação. Cada um tem que saber da sua sorologia, duas pessoas têm uma relação sexual e ambos têm responsabilidade sobre isso, 50% de cada um, cada um tem que cuidar de si, essa é a regra. Mas eu prefiro cuidar da minha sanidade mental porque as pessoas não cuidam das suas em geral. Então se eu transar com alguém de forma protegida — eu estou indetectável faz quase três anos — eu sei que não dou nenhum tipo de risco e se eu contar a pessoa pode surtar e eu não quero lidar com o surto de ninguém. Então eu sempre conto antes. Durante muito tempo eu não conseguia falar isso pessoalmente então eu tinha um e-mail pronto. Eu passava todas as informações técnicas. Eu falava que estava bem e que eu não ia morrer.

Se eu tivesse uma relação que fosse de acordo, transaria sem camisinha. Se eu estou em uma relação e sei que não vou transmitir nada e os dois estão de acordo... somos dois adultos que temos o direito disso. Você tem que se conhecer, se testar. Eu vou ao médico a cada três meses, eu me acompanho e é o que todos deveriam fazer. É uma questão de informação. As pessoas transam sem camisinha. Não acho que as pessoas tenham que transar sem camisinha, as pessoas têm que se proteger e elas têm que achar qual a forma que elas vão fazer isso e esse proteger tem uma variedade de opções. Vai desde a abstinência até você só beijar na boca.

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TEMOS QUE FALAR SOBRE ISSO
A maioria das pessoas que descobre não consegue contar para suas famílias. Comigo foi a primeira coisa que eu fiz. Vi e já gritei “pai, vem ver aqui”. Não que eu ache que tem que sair por aí contando, mas enquanto as pessoas não quiserem contar porque elas acham que isso é algo negativo, as pessoas vão continuar se evitando. O HIV é só uma característica. É uma parte das pessoas. Na vida a gente adquire um monte de coisa. Eu tenho milhares de coisa e o HIV está entra elas. Enquanto isso ficar na parte feia e na caixinha do “não vou dividir”, as pessoas vão continuar se infectando, porque o feio, o submundo, o que as pessoas não sabem... Se você demoniza algo, isso sempre vai estar lá na parte escura. Eu tive muitos relacionamentos soro discordantes, a maioria que eu tive, e as pessoas sabiam e não houve nenhuma infecção.

TRATAMENTO
Quando eu comecei a tomar medicação, por opção, é porque ouvi dizer que talvez diminuísse a chance de transmitir e eu não me sentiria o monstro do HIV [na época, ainda não havia recomendação para iniciar o tratamento logo após o diagnóstico como existe hoje]. Me deram uma medicação que eu não podia tomar porque eu já tinha tomado remédio psiquiátrico e eu fiquei totalmente louco, afetou todo o meu sistema nervoso. Parei e voltei em 2003 e hoje em dia lido bem com essa medicação. Tomo todos os dias e estou indetectável há três anos.

PREVENÇÃO
As pessoas têm informação, mas existe ainda uma moral em volta que é muito grande. As pessoas transam sem camisinha, os jovens transam sem camisinha, isso é óbvio, mesmo sabendo que tem HIV, gravidez, um monte de coisa, as doenças estão aí, as pessoas sabem como funciona. Só não existe ainda o suporte da forma que se deveria ter de outros métodos de prevenção, e falo especificamente de HIV e não de outras doenças, que hoje são possíveis. Existe o TcP [Tratamento como Prevenção], existe PEP [profilaxia pós exposição, o mesmo oferecido para mulheres vítimas de estupro], existe PREP [profilaxia Pré-exposição, ainda não disponível na rede pública de saúde no Brasil], o homem circuncisado tem menos chance de contrair HIV e outras doenças. Isso não quer dizer que é para sair circuncisando todo mundo, mas são informações. Falam que é só a camisinha e se não tem a camisinha acabou. O risco é 100 ou zero. E existe porcentagens aí que diminuem uma séria de coisas. Eu sou um adepto do TcP porque todo mundo que está indetectável faz e você medica todas as pessoas que são portadoras do vírus e uma vez que estão indetectáveis ela não transmite o vírus.

Hoje, para um jovem que se descobre soropositovo, eu falaria que está tudo bem. É a sua vida, você é a mesma pessoa. Algumas coisas vão mudar, mas é só um pedacinho de você. Alguns dias vão ser mais difíceis, mas a vida inteira é assim e [quando as pessoas descobrem] elas colocam a capa a e fantasia de um vírus gigante de HIV e as pessoas andam pesadas e na verdade aquele bichinho tem que ficar diminuindo. Não tem que esconder e colocar embaixo da cama, mas também não tem que se vestir de HIV. Você vai precisar olhar e vai ficar tudo bem.

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