Eficácia de teste rápido para zika vírus não está devidamente comprovada, dizem especialistas

Governo distribuirá 3,5 mi de kits até fevereiro; tecnologia promete resultado em 20 minutos

Teste rápido será distribuído até fevereiro pelo Ministério da Saúde
Teste rápido será distribuído até fevereiro pelo Ministério da Saúde Alberto Coutinho/GOVBA

Já está disponível no Brasil um teste que promete diagnosticar o zika vírus em apenas 20 minutos. Porém, especialistas ouvidos pelo R7 afirmam que a eficácia do produto não está devidamente comprovada. Na opinião do presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose, Artur Timerman, o exame não deveria ter sido lançado sem a certeza absoluta de que ele funciona. 

— O novo teste tem que ter validade de publicação científica. [Desta forma], parece um teste secreto e isso não existe. A gente só não quer embarcar na canoa que não sabemos se é lá essas coisas. É muito preocupante. Aí a gente começa a especular o porquê de eles estarem fazendo isso [principalmente] no momento em que estão criticando a assistência à saúde, que está precária. Eu acho que é para dar uma resposta rápida à população.

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O pediatra e Membro do Comitê Técnico Assessor em Imunizações do Ministério da Saúde do Brasil, Marco Aurelio Palazzi Sáfadi, concorda com o colega.

— A presença de um dos vírus pode provocar falso positivo para os demais.

A tecnologia, desenvolvida pelo laboratório Bahiafarma, em parceira com a empresa sul-coreana Genbody Inc, promete mostrar se o paciente tem ou já teve o zika vírus em algum momento da vida, em apenas 20 minutos.

De acordo com o farmacêutico e diretor presidente do BahiaFarma, Ronaldo Dias, o teste foi desenvolvido a princípio para resolver o até então problema estadual: o surgimento de um novo vírus que não era dengue nem chikungunya. Os médicos da Bahia perceberam que muitos pacientes chegavam aos hospitais se queixando de sintomas parecidos, mas os testes não indicavam nem uma nem outra. A partir daí, iniciou-se uma corrida para desenvolver o teste rápido em meados de abril de 2015.

— Em maio, um professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) isolou o vírus. Na época, ninguém não tinha entendimento de que seria um problema nacional. A prioridade não era fazer a pesquisa, mas desenvolver o produto o mais rápido possível.

Em janeiro e fevereiro deste ano, quando a epidemia surgia como problema nacional e mundial, o Ministério da Saúde procurou o laboratório após saber da existência de um protótipo de teste para diagnosticar a doença. O teste passou pelo controle de qualidade da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e, após entrega da documentação na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), foi registrado e adquirido pelo ministério, que divulgou ter comprado 3,5 kits do teste, que serão distribuídos até fevereiro de 2017.

Em junho, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) determinou que as operadoras de planos de saúde cubram as despesas do teste rápido para gestantes, bebês filhos de mães com diagnóstico de infecção pelo vírus, bem como os recém-nascidos com máformação congênita sugestivas de infecção pelo zika. Se a cobertura for negada, os conveniados devem reclamar com suas devidas operadoras e, em último caso, procurar a ANS. A multa pelo descumprimento da norma é de R$ 80 mil. Porém, o anúncio extraordinário da agência foi feito na mesma época que o Brasil foi duramente criticado e contestado por órgãos internacionais sobre o surto do zika vírus, pouco antes das Olímpiadas no Rio de Janeiro. Diversos atletas, inclusive, se recusaram a participar dos jogos justamente por medo de contrair a doença.

Assintomática

O zika vírus não apresenta sintomas para 80% dos portadores do vírus. Mesmo assim, ela é transmissível em qualquer estágio. Os sintomas, quando ocorrem, aparecem geralmente dez dias depois da picada ou transmissão sexual, e são semelhantes aos da dengue, só que mais agressivos. Em muitos casos, os sintomas são confundidos com os de viroses comuns e desaparecem num período de três a sete dias.

Os sinais principais são febre baixa (menos de 38,5ºC), coceira, manchas na pele, dor articular e edema, conjuntivite e dor de cabeça. Segundo o ginecologista César Eduardo Fernandes, presidente da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), o zika pode ser encontrado no sangue, sêmen, urina, leite materno e saliva.

O diagnóstico é feito com exame de sangue em até cinco dias após a transmissão ou picada e, por análise de urina em até 14 dias. O especialista esclarece que é possível fazer pesquisa de anticorpos para saber se o paciente já contraiu o vírus em até 12 semanas.

A transmissão vertical — de mãe para feto — pode ocorrer durante qualquer estágio da gravidez, inclusive nas últimas semanas, e pode ocorrer pela placenta, durante o parto normal ou na amamentação. No entanto, este tipo de parto e a amamentação não são contraindicados, por enquanto.