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publicado em 03/10/2009 às 10h02:

Câncer de mama é mais agressivo em mulheres jovens

Uma em cada cem mulheres diagnosticadas com a doença no Brasil tem entre 13 e 16 anos

Camila Neumam, do R7

A estudante paulistana Sheila Araújo Martins, 16 anos, descobriu um câncer raro na mama direita em 2007, ao fazer uma consulta de pré-natal em um posto de saúde da Cidade Dutra (zona sul de São Paulo) no terceiro mês de gravidez. Ela tinha 14 anos na época, quando sentiu um caroço na mama ao tomar banho.

Ao avisar o médico, foi encaminhada ao departamento de Oncologia do hospital Pérola Byinton, em São Paulo (SP), onde foi feita uma biópsia. Cinco meses depois, quando estava no oitavo mês de gravidez, o resultado do câncer foi confirmado. O tumor já estava com 11cm, o que exigiu que a cirurgia para a retirada do câncer fosse feita imediatamente. A mãe de Sheila, a empregada doméstica Maria Lucinéia de Araújo, 39 anos, entrou em choque.

- O desespero foi muito grande, não dá para falar a reação, porque no meu caso ela era uma menina de 14 anos, grávida, correndo risco de perder a mama.

Sheila foi transferida para o hospital São Paulo, onde fez a cirurgia de retirada do tumor. Ao saber da cirurgia, a grande angústia de Sheila era a possível perda de um seio.

- [Assim que soube da notícia] Tive medo por tudo. Medo de tirar a mama, porque na minha idade, sem mama, eu ia me sentir diferente. Não tive medo do pior, porque minha mãe me aconselha muito, e nem pelo bebê, porque fizeram os exames e eu sabia que ele estava todo formado.

A cirurgia foi um sucesso e não houve necessidade de retirada da mama. Um mês depois, em 12 de maio de 2008, Rafaela nasceu com a saúde perfeita. No fim de agosto deste ano, no entanto, Sheila voltou a sentir um caroço no mesmo seio. O tipo de câncer que Sheila teve tem grande chance de retornar e, em casos reincidentes, aumenta a possibilidade de retirada da mama. A biópsia já foi feita no hospital São Paulo e a família espera o resultado.

Diagnóstico é difícil

O caso de Sheila entra nas estatísticas brasileiras do câncer infanto-juvenil, que atinge crianças e adolescentes de um a 19 anos. Segundo pesquisa divulgada pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) e pela Sobop (Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica), o câncer é a doença que mais mata  jovens na faixa dos cinco aos 18 anos no Brasil.

A doença corresponde entre 2% e 3% de todos os tumores malignos registrados no país. A leucemia, o linfoma e os tumores cerebrais são os tipos de câncer mais comuns nessa faixa etária. A pesquisa indica ainda o surgimento de aproximadamente 10 mil casos de câncer infanto-juvenil a cada ano no país a partir do biênio 2008/2009. O levantamento registrou dados entre 2001 e 2005 em 20 cidades em todas as regiões brasileiras.

O oncologista pediátrico do hospital Santa Marcelina, em São Paulo (SP), e presidente da Sobop, Renato Melaragno, explica que a mortalidade dos jovens pelo câncer passou a ser maior no país ao longo dos anos, já que doenças infecciosas como o sarampo têm sido erradicadas.

O câncer de mama, em especial, é considerado raro entre adolescentes, mas o número de casos vem crescendo a cada ano. Ele atinge pelo menos uma em cada 100 mulheres diagnosticadas com câncer de mama no Brasil entre os 13 e 16 anos - 1% das adolescentes brasileiras - segundo o diretor do departamento de Mastologia do hospital Pérola Biynton, em São Paulo (SP), Luiz Henrique Gebrin. O médico diz que, nesses casos, o agravante é que o câncer nos adolescentes costuma ser mais agressivo do que nos adultos, e são mais dificeis de serem diagnosticados.

- Na maioria dos casos, ele é descoberto casualmente pela formação de um caroço na axila ou por um nódulo apalpado na mama. Mas nove entre dez deles são tumores benignos. Entre as mulheres na faixa dos 20 a 30 anos, o índice sobe para dez casos em cada 100 (10%), pois à medida que se envelhece, aumentam as dificuldades de se defender do câncer.

Mamografia, não!

Diferentemente do câncer em adultos, em que se leva em conta aspectos do comportamento como fumo, alcoolismo, alimentação, sedentarismo e exposição ao sol, a medicina ainda não conseguiu estabelecer os verdadeiros fatores de risco do câncer pediátrico. Por isso, a orientação é tratá-lo o quanto antes com quimioterapia ou mesmo cirurgia, até em crianças, dependendo do caso.

- O câncer na mulher jovem é mais agressivo, de crescimento mais rápido e de propensão genética maior. Isso porque o problema é hereditário, mas ainda não sabemos as causas. Ao menos 30% delas acabam morrendo em cinco anos, porque os casos são muito agressivos. Quando [os casos muito agressivos] ocorrem, a chance de morte é quase certa, pois não respondem à quimioterapia.

Mesmo diante desses números, o médico não aconselha as jovens a fazerem mamografia por prevenção, pois, segundo ele, o exame pode trazer malefícios futuros.

- O contato com a radiação da mamografia pode acarretar um câncer depois de alguns anos. A outra razão é porque a mamografia é ineficiente em uma mulher jovem. O exame não é capaz de identificar um nódulo porque a quantidade de gordura ao redor da glândula é muito pequena, e a mamografia só consegue detectá-los através da gordura. Por isso, é indicado para mulheres mais velhas.

Nas jovens, o diagnóstico fica ainda mais difícil por outras duas razões: suas mamas estão em formação, ou seja, qualquer mudança é encarada como um processo, e jovens só costumam ir ao médico quando se sentem realmente doentes. No último caso, se o nódulo já estiver avançado, o tratamento tende a ser mais duro. O ideal é consultar o ginecologista assim que for percebida qualquer anormalidade na mama, orienta Gebrin.

Atualmente pelo menos 15 meninas estão em acompanhamento no Pérola Byinton com tratamento baseado na quimioterapia. Para evitar sequelas emocionais, as pacientes recebem antendimento psicológico logo após descobrir o câncer. Sheila, que teve o diagnóstico da doença aos 14 anos, foi uma das pacientes de Gebrin.


 
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