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publicado em 26/11/2009 às 13h08:

Na China, Aids luta contra burocracia e preconceito

Estudos mostram que 50% dos chineses não trabalharia ao lado de um soropositivo

EFE.

A recente iniciativa do governo da China de combater a Aids no país parece ter se diluído na burocracia provincial e no preconceito dos próprios funcionários públicos e médicos.

Organismos internacionais e ONGs dizem que a mudança de mentalidade no governo chinês com relação à Aids - Pequim chegou a tachar a doença de "estrangeira" - foi drástica nos últimos cinco ou dez anos, mas os avanços práticos ainda são lentos.

O diretor executivo da UnAids (agência das Nações Unidas de combate à doença), Michel Sibidé, explica que há dez anos a política era de "tolerância zero" com relação à Aids na China. De acordo com ele, agora isso mudou e foram iniciadas políticas "visionárias", como o tratamento gratuito da doença em um país onde a saúde é paga.

Segundo Herman Bergsma, da Cruz Vermelha holandesa, que trabalha há quatro anos no país, a teoria difere da prática na China.

- As políticas e a atitude em Pequim são bastante boas, mas colocá-las em prática é difícil.

Os representantes dos escritórios de saúde provinciais concordaram em seus discursos de que existe confusão sobre que departamento deve se ocupar de cada ação na hora de executar os planos de luta contra a Aids. Também apontaram a falta de fundos para enfrentar o problema e chegar aos grupos de risco, embora tenham admitido que só utilizam dinheiro do governo central, sem usar nada do orçamento provincial.
 
Para Bergsma, da Cruz Vermelha, o problema esbarra no crescimento financeiro da China.

- É muito difícil fazer com que as administrações locais destinem fundos suficientes para a prevenção, quando o que querem na realidade é o desenvolvimento econômico.

A China destina 2 bilhões de iuanes (US$ 292 milhões, ou R$ 504 milhões) anuais para a luta contra a Aids, dos quais o governo central fornece pouco mais da metade, confirmou o diretor do Centro Nacional de Controle e Prevenção da Aids, Wu Zunyou.

A isso se unem os preconceitos dos próprios funcionários, já que, segundo Bergsma, as pessoas que tem que iniciar os planos têm 40 ou 50 anos, e muitas vezes necessitam se educar sozinhas sobre uma doença que desconhecem.

Estudos oficiais chineses assinalam que 50% dos indagados não estariam dispostos a trabalhar com alguém que tenha Aids, e 63% não viveriam com uma pessoa que sofre da doença. O mesmo ocorre com os médicos, entre os quais se estendem os preconceitos quase na mesma proporção. Segundo pesquisas da ONG Alliance China, a maioria rejeitava tratar pacientes com Aids.

O sistema de saúde pago também é um problema para lutar contra a epidemia, já que o tratamento é gratuito é muito limitado e tem seis remédios, explicou Martin Gordon, presidente da ONG Barry and Martin Trust, que trabalha há 13 anos na China.

- A pessoa tem que solicitar os remédios no lugar onde nasceu, se vive em outro lugar, é muito difícil consegui-los.

Segundo Gordon, o problema se agrava pelos cerca de 200 milhões de emigrantes rurais que estão nas cidades chinesas. Além disso, poucos hospitais estão dispostos a tratar a doença, diz ele.

- Não é muito rentável e ganham muito mais dinheiro com a hepatite e outras doenças.

As estimativas oficiais assinalam que a Aids afeta 740 mil pessoas na China, número que os analistas consideram pouco confiável em um país de US$ 1,3 bilhão de pessoas, onde ainda faltam controles eficazes para conter a epidemia.
 
De acordo com Sibidé, da UnAids, há 50 milhões de pessoas em perigo de serem contaminadas, incluindo os grupos de risco e seus conhecidos.

Para Bergsma, o passo mais importante é começar com a educação sexual nas escolas, algo que considera a grande disciplina pendente das autoridades em um país onde, desde 2007, a transmissão sexual é a principal via de contágio, na frente da doação de sangue.

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