Técnicas modernas revolucionam tratamento do glaucoma, mas diagnóstico tardio leva cada vez mais pessoas à cegueira

Detecção precoce evita danos; consulta periódica ao oftalmologista é fundamental

Glaucoma tem desenvolvimento silencioso e pode levar à cegueira; tratamento abrange desde o uso de colírios até a cirurgia
Glaucoma tem desenvolvimento silencioso e pode levar à cegueira; tratamento abrange desde o uso de colírios até a cirurgia Thinkstock

Silencioso, o glaucoma é uma doença ocular que atinge 60 milhões de pessoas em todo o mundo hoje, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). O número, entretanto, deve aumentar consideravelmente nos próximos anos, segundo Cristiano Caixeta Umbelino, médico especialista em glaucoma do Departamento de Oftalmologia da Santa Casa de São Paulo e membro da Diretoria do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

— No Brasil, hoje, são 2 milhões de pacientes. A estimativa é que, em 2020, serão 80 milhões de portadores da doença no mundo, sendo 11 milhões cegas nos dois olhos. O número cresce de uma forma muito alarmante, já que o glaucoma, embora não tenha cura, tem controle. Há técnicas bastante modernas que evitam a perda parcial de visão ou mesmo cegueira completa, consequências desenvolvidas apenas em quem apresenta a doença em graus mais avançados.

Glaucoma em detalhes

Em linhas gerais, o glaucoma se caracteriza por alterações na pressão dentro dos olhos. “Essas alterações causam danos no nervo óptico, que é a estrutura que configura a qualidade visual que nós temos. O nervo óptico manda informações para o cérebro para que se tenha uma qualidade melhor de visão”, diz o médico.

— O mais afetado é aquele paciente acima dos 40 anos de idade, onde você vai ter uma incidência, na população geral, em torno de 1%. Essa incidência aumenta com a faixa etária a cada década de vida. Acima dos 70 anos, a incidência chega a quase 8% da população.

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A alteração na pressão intraocular, de acordo com o médico, acontece de forma progressiva em pacientes predispostos. Além dos indivíduos com mais de 40 anos, fazem parte do grupo de risco os afrodescendentes, diabéticos e hipertensos.

— Existe uma produção de humor aquoso [um tipo de líquido] naturalmente presente dentro do nosso olho. E existe a necessidade de que esse líquido produzido diariamente seja escoado. Então, se há um determinado volume de produção, seu olho precisa drenar esse mesmo volume todo santo dia para que o líquido não eleve a pressão intraocular. A partir dos 40 anos de idade, nos pacientes que são predispostos, é observado um pequeno excedente da produção em relação à sua drenagem.

Diagnóstico precoce

A grande preocupação dos médicos em relação ao glaucoma atualmente é o diagnóstico precoce — já que muitos dos pacientes procuram o consultório oftalmológico somente diante do aparecimento dos sintomas, o que ocorre quando a doença se encontra em estágio mais avançado.

— O diagnóstico precoce é muito importante para restringir o avanço da doença, por isso a realização de exames regulares com oftalmologistas é fundamental. Na fase avançada, geralmente, o paciente vai perceber uma baixa visual e uma restrição de campo periférico. Um exemplo: eu vejo um quadro, eu consigo perceber todos os detalhes dessa obra de arte, mas não enxergo a parede em volta. Em alguns casos, quando o paciente tem um desequilíbrio importante da pressão ocular, pode chegar a ter dor de cabeça e até dor ocular.

Remédios e procedimentos modernos

Nos dias de hoje, a principal forma de tratamento para pacientes com glaucoma já diagnosticado é o controle da pressão intraocular por meio dos colírios, explica Paulo Augusto de Arruda Mello, professor titular de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Nas últimas décadas, esses medicamentos passaram a combinar princípios ativos que tanto diminuem a produção do humor aquoso quanto melhoram a drenagem dentro dos olhos.

— O que vem sendo desenvolvido recentemente são colírios que, além de contarem com os medicamentos para a melhora da pressão intraocular em si, oferecem substâncias que aceleram a penetração dos remédios no olho. Isso diminui a chance de ocorrerem efeitos colaterais como a hiperemia, que é aquela congestão sanguínea nos olhos que causa vermelhidão. Essa hiperemia, até onde se sabe, não causa nenhum dano à saúde dos olhos, mas é extremamente desagradável do ponto de vista estético.

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Quando o tratamento com colírios não surte efeito, é possível recorrer a procedimentos com laser, que vêm ganhando força nos últimos vinte anos. Em último caso, o paciente é submetido a uma cirurgia, ressalta o especialista. A opção mais adequada é sempre discutida caso a caso, diz o professor da Unifesp. A boa notícia é que tanto o laser como a intervenção cirúrgica são oferecidos pela rede particular de saúde e também pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

— Em glaucomas ainda em estágio inicial, o laser mais utilizado é aquele que melhora a malha de drenagem intraocular. O procedimento é chamado de trabeculoplastia. Quando o caso é um pouco mais avançado, utiliza-se um laser que faz uma perfuração na íris. A técnica abre uma passagem dentro do olho que equilibra a pressão intraocular e favorece o escoamento do humor aquoso.

A última alternativa para glaucomas graves sem possibilidade de tratamento clínico, explica Mello, é a cirurgia antiglaucomatosa — chamada tecnicamente de trabeculectomia. "A operação existe há cerca de 60 anos, mas vem se tornando cada vez mais segura, com todos os benefícios para a saúde do paciente preservados. O procedimento faz um dreno no revestimento exterior do olho usando os próprios tecidos oculares, com o intuito de criar um novo caminho para o escoamento do humor aquoso. No último ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou ainda uma nova técnica, a cirurgia antiglaucomatosa minimamente invasiva, que consiste no implante de pequenos tubos no globo ocular para a drenagem dos líquidos e causa menor agressão aos olhos", diz.

— O problema é que, muitas vezes, essa microcirurgia com implantes intraoculares não reduz completamente a pressão intraocular. Aí a solução é combinar o tratamento com colírios após a operação. O importante é que hoje os pacientes têm à disposição tratamentos que melhoram sua qualidade de vida, já que o glaucoma é uma doença crônica, ou seja: não se cura, mas se trata. Melhorando a qualidade de vida, aumenta-se também a fidelidade de quem tem a doença ao tratamento.