“Muita gente acha que maldade genuína não existe”, diz psiquiatra

Autora de Mentes Perigosas comenta alguns crimes que chocaram o Brasil

Ana Beatriz Barbosa Silva é psiquiatra e autora do livro Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado
Ana Beatriz Barbosa Silva é psiquiatra e autora do livro Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado Sandra Lopes/Divulgação
Segundo edição do livro Mentes Perigosas traz os casos do serial killer Ted Bundy e os de Isabella Nardoni e Eloá Pimentel
Segundo edição do livro Mentes Perigosas traz os casos do serial killer Ted Bundy e os de Isabella Nardoni e Eloá Pimentel Divulgação

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado, conversou com o R7 sobre a relação entre psicopatas e crimes graves e o lançamento da segunda edição de seu livro sobre o assunto.

O livro, que chegou a ficar três anos entre os mais lidos, traz uma série de informações úteis sobre como agem os psicopatas e como aprender a reconhecê-los para se manter bem longe deles. Nele, a autora analisa uma série de casos famosos, como o de Suzane Von Richtoffen e o assassinato da atriz Daniela Perez.

Além desses, a segunda edição, lançada em agosto deste ano, traz casos mais recentes, como o do famoso serial killer americano Ted Bundy e os de Isabella Nardoni e Eloá Pimentel.

Confira!

R7: Qual é a relação entre a psicopatia e crimes graves como homicídio?

Ana Beatriz Barbosa Silva: Não é qualquer pessoa que comete um crime que é psicopata, mas existem crimes de tamanha perversidade com o outro, que só se pode atribuir a um psicopata. No Brasil existiu, nos anos 2000, o caso de uma lavradora que teve seu filho de quatro anos estuprado por um rapaz menor de idade. Ela acabou matando o jovem na delegacia com uma faca que estava sendo usada pelo delegado para descascar uma laranja. Quando ela chegou lá e se deparou com o estuprador, ele olhou para ela e disse: “Sou de menor e nada vai acontecer comigo”. No impulso, ela matou o rapaz. É um homicídio e foi um ato de maldade, sim, mas você consegue entender que ela estava frente a uma forte emoção. Bem diferente, por exemplo, do caso do Maníaco do Parque. Ele prometia às vítimas um teste para que pudessem ser modelos, as levava para um lugar a ermo, sem armas, e as matava depois de realizar uma série de perversidades. Na época, um repórter foi perguntar a ele como ele conseguia conduzir as mulheres espontaneamente e ele disse que é porque elas pediam, porque eram tomadas pela vaidade de querer usá-lo para chegar a uma carreira. Na concepção do psicopata, principalmente os mais graves, eles não cometem nada de errado, é a pessoa que se põe na posição de querer ser enganada e ele simplesmente usa aquilo. Todos eles veem o outro como um objeto. Simplesmente vão usar esse objeto para obter três coisas: poder, status e diversão.

R7: E quanto aos psicopatas que se casam e têm filhos?

Ana Beatriz: Eles vão ter famílias por alguns motivos, mas sempre naquela tríade, para obter poder, status e diversão. Eles podem ter por status, para passar por uma imagem social vantajosa e alçar maiores voos. Dependendo da categoria de psicopata, eles vão ter isso como uma coisa de vaidade de exibir aquela estrutura familiar ou um filho muito bonito ou mulher muito bonita. Mas a relação que eles têm com essa família é a mesma que eles têm com um carro ou um relógio de que gostam muito. Todas as vezes que eles preservarem essas pessoas ou que fizerem algum ato que se passe como afetuoso, certamente tem um objetivo. Nunca é um ato verdadeiramente de amor.

Casal Nardoni foi condenado pela morte de Isabella
Casal Nardoni foi condenado pela morte de Isabella Montagem/R7

R7: O que te levou a escrever o livro Mentes Perigosas?

Ana Beatriz: Eu nunca escreveria Mentes Perigosas espontaneamente. Uma amiga sugeriu que eu fizesse um livro sobre psicopatas porque eu já fiz livros sobre TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), por exemplo, (Mentes e Manias – TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo, 2011), por exemplo, que é para uma população específica. Eu falei que não escreveria sobre psicopatas porque eles não querem se tratar e nem existe tratamento para psicopatia. Então, ela começou a me questionar sobre qual era a porcentagem de pessoas com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), que é de 6%, e com TOC, de 2%, e disse que minha visão de ajuda estava muito equivocada porque, quando você escreve sobre psicopatas, não está escrevendo para os 4% de psicopatas, mas para os 96% que sofrem em função disso. Aí eu não tive argumentos (risos).

R7: Nesta nova edição você analisa casos novos, entre eles, o de Isabella Nardoni. O que mais te chamou a atenção nele?

Ana Beatriz: O caso Nardoni é emblemático porque me lembro de ter lido um artigo na época que dizia: “Pela janela não jogamos nem um lenço de papel, quanto mais uma criança”. E quando você pensa que isso foi feito por um pai, é tenebroso. A gente fica tentando entender e acreditar naquelas histórias que eles tentaram montar, que eram, no mínimo, para menosprezar a inteligência do povo, tantas eram as criações idiotas. Queremos acreditar no bem, sim, mas não somos burros. Não coloquei este caso antes porque não posso publicar nenhum que ainda não tenha sido julgado, senão os próprios psicopatas já me ensinaram que podem me processar e ganhar dinheiro com isso. Sempre espero que o caso seja julgado para que eu não seja processada.

Ana Beatriz relembra que Eloá apanhou na frente das câmeras
Ana Beatriz relembra que Eloá apanhou na frente das câmeras Robson Fernandjes/ 15/10/2008/Estadão Conteúdo

R7: O caso da Eloá Pimentel também está no livro. O que você pode dizer dele?

Ana Beatriz: O Lindemberg não pode ser considerado um criminoso passional. As pessoas ainda não conseguiram reparar o erro de classificar como crime passional tudo que acontece entre casais. Crime passional é um crime cometido sob um forte impacto de emoção, é uma coisa que ocorre na hora, não pode ter sido planejada ou premeditada. Aquele menino levou uma semana, ele já ia matá-la de qualquer maneira. A polícia ali correu o risco e ainda colocou a amiga de Eloá lá dentro. Foi um grande erro! Na época, uma jornalista perguntou o que eu achava do caso e eu disse que se não entrassem no dia seguinte ele ia matá-la. Ele estava fazendo um escarne público com aquelas meninas, batia nelas o tempo todo. A Eloá apanhou diante das câmeras! Não estavam lidando com um Romeu, era um menino muito novo, mas que já tinha um histórico de maldades. Aquela menina era o objeto dele. Aquele amor era como se fosse o carro dele. Infelizmente, na época, fui tachada de radical e eu queria estar errada porque queria que ela estivesse viva. No dia em que eu falei que seria o limite, eles colocaram a amiga de volta e, então, a situação saiu totalmente do controle.

R7: Por que você acha que esse tema fascina tanto as pessoas?

Ana Beatriz: Eu acho que, no fundo, muita gente tem essa coisa de achar que a maldade genuína não existe. Ao se deparar com crimes hediondos, você se pergunta por que pessoas com tanto dinheiro, que têm fama, condições de ter uma vida feliz, se propõem a fazer crimes indescritíveis, inimagináveis em termos de perversidade. No fundo, a gente fica naquela dúvida, mas quando uma menina de classe média alta, com bom estudo, boa aparência, bonita, planeja e assiste à execução dos pais com requintes de maldade, estraçalhando o cérebro de duas pessoas com barras de ferro, chega uma hora em que não conseguimos mais esconder e percebemos que existe alguma coisa além do que sabemos.

Veja como funciona o cérebro de um psicopata

*Amanda Martins, estagiária do R7