Ignacio Ortega.
Moscou, 5 mar (EFE).- Um dos três signatários do acordo que estabeleceu em dezembro de 1991 o fim da União Soviética, o bielorrusso Stanislav Shushkevich, não escondeu seu espanto quando soube que esse histórico documento desapareceu.
"Devem ter vendido para algum fanático por documentos raros e históricos", afirmou Shushkevich à Agência Efe em conversa telefônica desde Minsk.
Shushkevich decidiu se interessar pelo paradeiro do original em bielorrusso quando resolveu escrever suas memórias, mas o Ministério das Relações Exteriores de Belarus lhe respondeu que não tinha mais o documento em seu poder.
"Eu queria o original, mas a versão em russo também virou fumaça. Após colocar minha assinatura no documento, este foi entregue ao encarregado de protocolo da chancelaria bielorrussa", disse.
O ex-presidente do Parlamento bielorrusso, que com a desintegração da URSS se transformou no primeiro chefe de Estado bielorrusso, lembra que ele mesmo fez várias cópias e as distribuiu entre as principais estruturas de poder da república.
Seja como for, uma vez superada a surpresa inicial, Shushkevich descartou que este incidente "possa ter alguma sequela jurídica em relação ao desaparecimento da URSS" como Estado de direito.
O último dirigente da União de Repúblicas Socialistas Soviéticas, Mikhail Gorbachev, também não pôde evitar falar no sábado sobre este assunto por ocasião do seu 82º aniversário.
"Verdade? Interessante. Pois, então é preciso restabelecer a URSS. Se os documentos do Acordo de Bielovezhskaya Puscha já não existem de verdade e é preciso restaurar o que havia, estou disposto a retornar", brincou em declarações ao jornal "Komsomolskaya Pravda".
Já em tom mais sério, Gorbachev, que é tachado de traidor por muitos nostálgicos do regime soviético por ter permitido o desaparecimento do Estado totalitário, destacou: "Ninguém me substituiu no cargo. Eu mesmo saí".
O então vice-primeiro-ministro e secretário de Estado da Rússia, Gennady Burbulis, lembrou em entrevista à imprensa local que a cópia que correspondia à parte russa foi entregue ao ministro das Relações Exteriores, Aleksandr Kozirev.
"Eram três exemplares e cada um tinha suas versões em russo, bielorrusso e ucraniano. Espero que (a russa) esteja bem guardada nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores", disse Burbulis, que também assinou o documento junto com presidente russo, Boris Yeltsin.
Burbulis acrescentou que "o acordo foi ratificado pelos Parlamentos de Rússia, Belarus e Ucrânia, e os documentos foram apresentados à ONU", que reconheceu a Rússia como sucessor jurídico da URSS.
"Não há motivos para avaliar a venda de um dos exemplares do documento como uma ameaça à legitimidade", ressaltou, alegando que o reconhecimento da comunidade internacional é garantia suficiente da sua vigência.
Precisamente, Burbulis foi quem propôs na véspera da assinatura a frase que ficou para a história no Bielovezhskaya Puscha, uma reserva natural bielorrussa onde os dirigentes soviéticos costumavam caçar.
"A União de Repúblicas Socialistas Soviéticas deixou de existir como sujeito de direito internacional", dizia o acordo de duas páginas assinado em 8 de dezembro de 1991.
Por outro lado, o escritor e publicitário Alexander Prokhanov, um reconhecido entusiasta do período comunista, não descarta que existam forças que aproveitem o desaparecimento do documento original para tentar resgatar a URSS.
"O original é um marco. Se desaparece, dá motivos para se especular com uma conspiração. Digamos que existe um grupo de pessoas que quer denunciar o acordo e fez desaparecer o original. A ausência do documento lhes dá direito a proclamar que a URSS existe 'de jure'", comentou.
Por outro lado, Shushkevich insiste que o ocaso da URSS "não foi uma conspiração. De fato, não tínhamos pensado em assinar um acordo. Simplesmente, devíamos constatar em um documento quem éramos e qual era a situação da URSS naquele momento".
"Tínhamos que ser valentes. Caso contrário, poderia ter ocorrido uma guerra civil", alegou.
O bielorrusso afirmou que nunca chegou a falar com Gorbachev, que tentou conservar a comunidade euroasiática por todos os meios, inclusive com a criação de uma União de Estados Soberanos.
"Gorbachev era primeiro comunista e só depois um democrata", assegurou.
O Estado totalitário comunista desapareceu definitivamente no dia 25 de dezembro de 1991, quando Gorbachev - em renúncia à luta política com os líderes republicanos que ameaçava se tornar um conflito civil - admitiu em discurso pela televisão o fim da URSS.
"Tinha que ter lutado pela integridade territorial de nosso Estado de maneira mais insistente, coerente e ousada, e não escondido com a cabeça sob a areia, deixando o traseiro para cima", disse posteriormente Vladimir Putin, atual presidente russo. EFE
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