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publicado em 29/07/2010 às 14h10:

Índios estudam em meio à sujeira em São Paulo

Escola com a pior nota no Ideb em São Paulo tem duas salas para ensino de 1ª a 8ª série

Camila de Oliveira, do R7

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 Na zona norte da capital paulista está a pior instituição de ensino fundamental de 1ª a 4ª série do Estado de São Paulo, segundo o resultado do último Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Com nota 2,5 – 6,5 pontos distante da primeira colocada no ranking da cidade, - a Escola Estadual Indígena Djekupe Amba Arandy atende diariamente 130 alunos da etnia guarani de 1ª a 4ª série da Aldeia Indígena do Jaraguá setor 1 e 2.

No prédio, há apenas duas salas de aula com cerca de 20 lugares cada uma. Não há biblioteca, muito menos sala de informática. Segundo a diretora, Jatiaci Fernandes Martins, os poucos livros ficam trancados em sua sala e, os cerca de dez computadores que a Secretaria Estadual de Educação enviou ao colégio estão em caixas, na diretoria de ensino longe dali. Uma pequena cozinha improvisada como refeitórioé responsável por duas das principais refeições dos estudantes.

- O governo já prometeu ampliar, estava tudo certo, mas não temos espaço no terreno para a reforma. O único [espaço] é da casa de um morador aqui ao lado que não quer ceder o terreno dele. Enquanto isso, dividimos as turmas aqui, em um galpão lá no setor 2 e no Ceci (Centro de Educação e Cultura Indígena).

A escola localiza-se ao lado do posto médico da Funai, que fica a poucos metros da casa da diretora. Os vizinhos de Jatiaci são seus pais, tios, irmãos e primos, também seus alunos. Além do problema de espaço da escola, os alunos e moradores, convivem com uma realidade de muita pobreza e sujeira na aldeia. Por todos os cantos é possível encontrar lixo entre os barracos. Enquanto a reportagem do R7 conhecia a aldeia, um cachorro “se divertia" com uma fralda suja jogada no chão.

Ideb 

A diretora diz que não entende o péssimo resultado de seus alunos. Segundo ela, houve um progresso no ensino fundamental entre 2008 e 2009, “por isso esperávamos uma boa nota”, afirma. Segundo Jatiaci, a responsabilidade pode ser do professor que cuidou da sala durante a aplicação do exame. 

- Como ele fala muito bem guarani e nós [outros professores] não falamos, acreditamos que apressou as crianças para que terminassem logo a prova. Elas já têm medo dele na sala de aula, então...

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Crianças brincam na comunidade indígena da zona norte da capital paulista                   Daia Oliver/R7

                                                                                                      

Para Jatiaci nem o Ideb, nem a prova do Saresp (Sistema de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) deveriam ser aplicados aos alunos indígenas.

- Acho que deveria ser uma avaliação diferenciada, já que a educação é diferenciada. As crianças da comunidade só aprendem guarani até os sete anos, passam o dia na casa de reza e no Ceci aprendendo só sobre a cultura indígena, depois que começam a aprender o português. É impossível competir os alunos de escolas não indígenas.

A diretora explica que as aulas são bilíngues – em guarani e português – assim como o MEC (Ministério da Educação) prevê para a educação dos índios; e, que  "as aulas de história e geografia não ensinam tudo o que se ensina nas escolas lá de fora," diz ela. Apesar de concordar com a preservação da cultura, seus costumes e tradições, ela se preocupa com o futuro dos alunos.

- Pergunto a eles o que vão fazer se acabar o Bolsa Família? Não existe uma avaliação específica e muito menos um vestibular para índios. Como vão se sustentar? Na cultura guarani, é costume  se casar com 12 ou 13 anos e abandonar a escola para viver apenas do artesanato e a renda do governo.

Para cuidar da escola, a diretora fez o curso de pedagogia especial para educação escolar indígena de três anos na USP (Universidade de São Paulo) e conta que sempre estudou em escola regular, "por isso teve mais facilidade no ensino superior".

Porém, apenas ela e mais cinco professores, entre os 11 da escola paulistana possuem graduação – o restante tem apenas ensino médio.

Reforma programada

A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo diz que existe uma proposta de ampliação do colégio "de acordo com as salas de aula e adequação das instituições de ensino indígenas". Segundo a assessoria de imprensa da secretaria, a escola Djekupe Amba Arandy está com a ampliação programada dentro da pasta de planilhas de obras do FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), com a proposta aceita e recursos liberados para o início da obra, "independente do morador que não quer mais sair de sua casa. Com a reforma, afirma o órgão responsável pela escola, está prevista a construção de uma sala de multiuso (informática, biblioteca e leitura).

A assessoria ainda confirma a não participação das escolas indígenas em avaliações como Ideb e Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), "por entender que o currículo das escolas indígenas é diferente das escolas não idígenas, com aulas interculturais e bilíngues, diferente de todas as escolas da rede pública".

A responsabilidade pela limpeza do local, diz a Funai (Fundação Nacional do Índio), é dos moradores da comunidade. A fundação afirma que há um agente sanitarista no local, um índio pago pela Funai, para orientar os moradores sobre o assunto. Segundo o órgão, a comunidade recebe sacos de lixo e material de limpeza periodicamente.


 
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