Foto por Julia Chequer/R7João Grandino Rodas diz que teve medo de não ser aprovado no vestibular quando jovem
Outra alternativa pensada por Rodas para melhorar a infraestrutura da universidade é buscar o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e outros órgãos para obter financiamento.
O novo reitor conversou com o R7 na sexta-feira (13), um dia após ter sido escolhido para o cargo pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB), a partir de uma lista com três candidatos.
Rodas disse para a reportagem que assinou a nomeação no Palácio dos Bandeirantes na noite de quinta-feira (12), diante de Serra. O decreto foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo na sexta-feira (13).
O governador afirmou que prezava muito as universidades estaduais paulistas, que estudou na Poli-USP e desejou boa sorte ao novo reitor.
No dia seguinte à escolha, mais de 30 pessoas – do ministro da Educação, Fernando Haddad, à atual reitora da USP, Suely Vilela – ligaram para a direção da Faculdade de Direito para dar os parabéns a Rodas pela nova função.
Rodas - Sim, elas poderão. Por exemplo, se o orçamento delas tiver, além do gasto de água e luz, uma parcela de investimento, elas já poderão decidir sobre isso.
Não que será tudo distribuído no momento, mas terá que ter uma latitude – e a gente vai fazendo aos poucos, obviamente.
A desconcentração gera descentralização. E, por outro lado, uma racionalização, principalmente dos serviços jurídicos, como está no programa, e no serviço de pessoal.
Então, se você somar a desconcentração com a racionalização você vai ter uma descentralização. Só descentralização sem isso que expliquei não funcionou.
Rodas - Essa progressão horizontal de salários já não está mais barrada, está liberada. Os funcionários tinham progressão horizontal e vertical, mas os professores tinham só a vertical. Esse projeto dá aos professores doutores e associados certos graus – dois nos doutores e três nos associados.
Mas não é só para aumentar salário, é também para fazer com que outras coisas aconteçam. Por exemplo, o professor associado de nível 3 pode se candidatar a diretor da [Faculdade de Direito] antes de ser titular.
Esse projeto foi aprovado, mas a Adusp [Associação dos Docentes da USP] não aceitou, por muitas razões, disse ter tido poucos votos a favor (76 votos) e entrou na Justiça à toa – é lógico que esse pedido não foi aceito, não passaria.
O projeto não significa que a carreira tenha terminado. Significa, pura e simplesmente, um passo de isonomia comparativamente aos funcionários e, ao mesmo tempo, um desafogo salarial que, potencialmente, dos 5.700 mil [docentes] alcançaria mais de 3.500 mil, em tese.
R7 – E como seria essa progressão de salários, seria por tempo de carreira?
Rodas – Ela é feita com tempo de carreira e com várias coisas, como produção científica. A discussão que falta agora é regulamentar, como fazer isso. A Adusp é radicalmente contra [a proposta], não entendo o porquê, já que isso não atrapalha o plano de carreira.
Quando você arruma o bolso de um vestido, não significa que, amanhã, você não poderá mais reformá-lo inteiro.
R7 – E o sr. pretende implementar esse projeto na USP?
Rodas – Quem é relator dessa questão é o professor Glaucius [Oliva, diretor da Faculdade de Física de São Carlos, derrotado nas eleições para reitor]. Então, é óbvio, se aprovou alguma coisa, é para se implantar. Certamente, vai ser verificado primeiro como isso será regulamentado.
R7 – O sr. chega a cogitar avaliações dos professores para entrar nesse plano de remuneração?
Rodas – A universidade já tem várias avaliações. O que a gente tem de fazer é aperfeiçoar os métodos, e não cada um que chega inventar um modo diferente.
O que se pretende é justamente fazer com que essa avaliação possa ser continuada e melhorada, mas que a avaliação seja mais global. Não avaliar separadamente só aluno, só professor, só infra-estrutura, quando o ensino é tudo – ou depende de tudo isso.
Eu acho a avaliação importantíssima na universidade, ela deve ser aperfeiçoada, mas dentro do espírito de fazer uma avaliação global do ensino, e não simplesmente de alguns segmentos.
R7 – Então o sr. é a favor das avaliações do Ministério da Educação, como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e o Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes)?
Rodas – Aí entra um grande problema que é um tabu – que, em última análise, é da autonomia universitária.
Em princípio, não vejo problema nenhum [no vestibular paulista unificado], mas a questão é se acostumar a fazer isso em parceria, embora a gente saiba que regulamentar os alunos que se recebe é uma coisa importantíssima para a universidade.
Não é a minha pessoa que vai ditar nada, mas acho que é algo que precisa ser discutido para que se possa vir a fazer esse vestibular unificado.
R7 – E em relação a cursos novos, vagas, há projetos para o primeiro ano da sua gestão?
Rodas – Na graduação, dobraram as vagas nos últimos oito anos. Existem muitas carências em muitos cursos. Veja, por exemplo: há quatro anos, houve uma greve grande de professores na filosofia. Neste ano, na tomada [da reitoria, ocorrida em 2007], entre outras coisas, falaram bastante que os prédios não são suficientes [para os cursos].
Não é algo razoável no momento que acabou de dobrar as vagas, que você continue dobrando e fazendo com que essas carências aumentem.
Agora é o momento, acho, de fazer com que essas carências sejam eliminadas, que esses cursos tenham professores, funcionários, laboratórios, computação moderna, biblioteca digitalizada, antes de se pensar no aumento [de alunos]. Porque, senão, estamos fazendo uma bomba.
Rodas – Está proposto [no programa da gestão] a atitude pró-ativa da reitoria na busca de fundos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], na parte da infraestrutura, que é muito necessária.
A infraestrutura do campus de São Paulo [a Cidade Universitária, no Butantã] está precária, alguns laboratórios têm geladeiras nos corredores, entre outras coisas, e isso não se coaduna àquela ideia que se vende de a USP ser um centro de excelência.
A saída não é só confiar nas verbas orçamentárias, mas buscar receitas nesses âmbitos, em bancos nacionais e internacionais, também.
R7 – Isso envolveria, também, PPP (Parceria Público-Privada)? Há grande resistência dentro da universidade de parcerias com a iniciativa privada.
Rodas – Mas a USP precisa disso, de parcerias, senão vai ficar para trás da FGV [Fundação Getulio Vargas], de todas as outras universidades.
Existe, sim, essa resistência, mas o que tem de se pensar, acho, é se isso não é um mal menor, mesmo para aqueles que acham que é um mal, do que a continuar na Idade Média. Isso é questão de cada um resolver.
Mas essas questões de PPP e fundações serão colocadas no primeiro dia e têm um ano para serem discutidas na USP. Ou seja, haverá um tempo para se fazer regras básicas sobre isso.
Mas, por exemplo, se a FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas] não quiser usar, tudo bem, não use, mas se a Politécnica quiser, pode usar, mas dentro daquelas regras, seguindo o regimento interno.
R7 – O Pasusp (Programa de Avaliação Seriada da USP) tem tido grande abstenção de alunos. Em 2008, a taxa foi de 84%. Este ano, mesmo com mudanças no sistema de inscrição, foi de 58%. Como resolver isso? Como aproximar a USP dos alunos da rede pública?
Rodas – Precisa haver uma maior disseminação de conhecimento, como há em certos programas, como o da professora Mayana [Zatz, pró-reitora de pesquisa da USP], dos estágios dentro da universidade de alunos secudaristas.
É preciso haver um maior conhecimento através de visitas, de intercâmbio maior, para que o aluno não pense que a USP seja tão inacessível.
Eu lembro, por exemplo, que, quando estava no colegial e resolvi prestar direito, queria entrar aqui, mas, ao mesmo tempo, ficava com receio de não passar na USP.
E a minha escola não era pública, tinha um ensino muito rigoroso, tanto que entrei aqui e na filosofia sem cursinho, na época. Mas se pensei isso, imagina os alunos que estão na periferia, em escolas públicas? Eles têm certeza que não vão passar e nem tentam mais.
R7 – O sr. acredita em terminar o vestibular e incluir a avaliação seriada?
Rodas – Seria o ideal, mas isso está muito longe de acontecer no Brasil.Não é bem da nossa cultura fazer essa troca, ter uma avaliação seriada como acontece nos Estados Unidos.
Se bem que, realmente, o vestibular, tal como ele é, tal como vem sendo, é um trauma que precisaria ser evitado.
R7 – O sr. chegou a receber uma ligação do governador José Serra na sexta-feira, dia da nomeação?
Rodas – Não, eu recebi um convite para ir ao Palácio do Governo, na quinta-feira à noite e fui lá. Ele me disse que prezava muito as universidades, que ele próprio tinha sido aluno da Poli-USP e professor da Unicamp e que havia decidido pelo meu nome para a nomeação [para reitor]. E foi isso. Assinou a nomeação e me desejou boa sorte.