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publicado em 16/11/2009 às 16h33: atualizado em: 17/11/2009 às 14h39

USP precisa de verba do BNDES e de parcerias com a iniciativa privada, diz novo reitor

João Grandino Rodas diz que teve medo de não ser aprovado no vestibular quando jovem

Amanda Polato e Ingrid Tavares, do R7

 Para o novo reitor da USP, João Grandino Rodas, 64, as parcerias com a iniciativa privada são importantes para transformar a USP em centro de excelência. 

Uma das primeiras medidas da sua gestão, que começa no dia 26, será propor uma discussão sobre as PPP (Parcerias Público-Privadas), tema que enfrenta resistência na universidade.

Outra alternativa pensada por Rodas para melhorar a infraestrutura da universidade é buscar o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e outros órgãos para obter financiamento.

O novo reitor conversou com o R7 na sexta-feira (13), um dia após ter sido escolhido para o cargo pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB), a partir de uma lista com três candidatos.

Rodas disse para a reportagem que assinou a nomeação no Palácio dos Bandeirantes na noite de quinta-feira (12), diante de Serra. O decreto foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo na sexta-feira (13).

O governador afirmou que prezava muito as universidades estaduais paulistas, que estudou na Poli-USP e desejou boa sorte ao novo reitor.

No dia seguinte à escolha, mais de 30 pessoas – do ministro da Educação, Fernando Haddad, à atual reitora da USP, Suely Vilela  – ligaram para a direção da Faculdade de Direito para dar os parabéns a Rodas pela nova função. 


Gigantismo

O novo reitor será responsável por administrar uma área de 76 milhões de metros quadrados, contando todos os campi da USP.

Segundo o último anuário estatístico da universidade, são mais de 86 mil alunos matriculados em quase 250 cursos oferecidos em unidades espalhadas por sete cidades paulistas.  Também estarão sob suas mãos cerca de 5.400 professores e 15.200 funcionários.

Sob os olhos de Rui Barbosa, pintados no quadro que fica acima da sua mesa na Faculdade de Direito, Rodas revelou que teve medo de não ser aprovado no vestibular da USP, apesar de ter quatro graduações. 

Ele fez críticas ao atual modelo de vestibular e defendeu mais autonomia às faculdades e unidades da universidade.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista com Rodas:

R7
- Quais são os primeiros projetos da sua gestão a entrar em pauta?

João Grandino Rodas
- As minhas primeiras medidas dizem respeito à transparência da universidade, à abertura e também à valorização das unidades, a partir da desconcentração do poder, fazendo com que se estabeleça ou se fortifique – porque muitas já existem – regras que seriam centrais e feitas por todos.

De certa forma, elas pautarão a ação das unidades, que cada uma poderá andar a seu próprio passo, sem que todas [ações] tenham de passar pela reitoria – nem que sejam iguais. 

Você não pode querer que uma Escola Politécnica ande no mesmo passo que uma escola que começou no ano passado, com 15 professores, por exemplo. Essa medida da valorização das unidades será imediata.

R7 – Isso significará mais autonomia para as unidades? Elas poderão tomar decisões sozinhas?


Rodas - Sim, elas poderão. Por exemplo, se o orçamento delas tiver, além do gasto de água e luz, uma parcela de investimento, elas já poderão decidir sobre isso.

Não que será tudo distribuído no momento, mas terá que ter uma latitude – e a gente vai fazendo aos poucos, obviamente. 

A desconcentração gera descentralização. E, por outro lado, uma racionalização, principalmente dos serviços jurídicos, como está no programa, e no serviço de pessoal.

Então, se você somar a desconcentração com a racionalização você vai ter uma descentralização. Só descentralização sem isso que expliquei não funcionou.


R7
– O seu projeto de aumentar os salários dos professores ainda está barrado na Justiça?


Rodas
- Essa progressão horizontal de salários já não está mais barrada, está liberada. Os funcionários tinham progressão horizontal e vertical, mas os professores tinham só a vertical. Esse projeto dá aos professores doutores e associados certos graus – dois nos doutores e três nos associados. 

Mas não é só para aumentar salário, é também para fazer com que outras coisas aconteçam. Por exemplo, o professor associado de nível 3 pode se candidatar a diretor da [Faculdade de Direito] antes de ser titular.

Esse projeto foi aprovado, mas a Adusp [Associação dos Docentes da USP] não aceitou, por muitas razões, disse ter tido poucos votos a favor (76 votos) e entrou na Justiça à toa – é lógico que esse pedido não foi aceito, não passaria. 

O projeto não significa que a carreira tenha terminado. Significa, pura e simplesmente, um passo de isonomia comparativamente aos funcionários e, ao mesmo tempo, um desafogo salarial que, potencialmente, dos 5.700 mil [docentes] alcançaria mais de 3.500 mil, em tese. 

R7 – E como seria essa progressão de salários, seria por tempo de carreira?

Rodas – Ela é feita com tempo de carreira e com várias coisas, como produção científica. A discussão que falta agora é regulamentar, como fazer isso. A Adusp é radicalmente contra [a proposta], não entendo o porquê, já que isso não atrapalha o plano de carreira. 

Quando você arruma o bolso de um vestido, não significa que, amanhã, você não poderá mais reformá-lo inteiro.

R7 – E o sr. pretende implementar esse projeto na USP?

Rodas – Quem é relator dessa questão é o professor Glaucius [Oliva, diretor da Faculdade de Física de São Carlos, derrotado nas eleições para reitor]. Então, é óbvio, se aprovou alguma coisa, é para se implantar. Certamente, vai ser verificado primeiro como isso será regulamentado.

R7 – O sr. chega a cogitar avaliações dos professores para entrar nesse plano de remuneração?

Rodas – A universidade já tem várias avaliações. O que a gente tem de fazer é aperfeiçoar os métodos, e não cada um que chega inventar um modo diferente.

O que se pretende é justamente fazer com que essa avaliação possa ser continuada e melhorada, mas que a avaliação seja mais global. Não avaliar separadamente só aluno, só professor, só infra-estrutura, quando o ensino é tudo – ou depende de tudo isso.

Eu acho a avaliação importantíssima na universidade, ela deve ser aperfeiçoada, mas dentro do espírito de fazer uma avaliação global do ensino, e não simplesmente de alguns segmentos.

R7 – Então o sr. é a favor das avaliações do Ministério da Educação, como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e o Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes)?

Rodas – A USP é muito específica para esse assunto; tem muitos cursos, tem muita gente. Sobre o Enem, como está hoje, ele não é passível de ser usado 100% pela USP. Entretanto, a universidade deve, em princípio, usar os métodos de avaliação nacional. 

A USP, além disso, deveria desenvolver métodos próprios, junto com outras universidades de pesquisa, como é a nossa, para que ela possa se medir, também, por outras regras.  Para fazer sugestões de melhorias nas avaliações nacionais de qualidade, como o Enade.

Algumas universidades estão ali só para atingir um mínimo de qualidade e ponto final – e elas estão certas. Acho que um diálogo iria possibilitar uma melhora dessas avaliações.

R7 – Há muitas críticas ao fato de que cada universidade estadual paulista faz um vestibular em separado, apesar de a USP, Unesp, Unicamp terem listas de aprovados muito parecidas, com os mesmos nomes. Porque não fazer uma prova única?


Rodas – Aí entra um grande problema que é um tabu – que, em última análise, é da autonomia universitária.

Em princípio, não vejo problema nenhum [no vestibular paulista unificado], mas a questão é se acostumar a fazer isso em parceria, embora a gente saiba que regulamentar os alunos que se recebe é uma coisa importantíssima para a universidade. 

Não é a minha pessoa que vai ditar nada, mas acho que é algo que precisa ser discutido para que se possa vir a fazer esse vestibular unificado.

R7 – E em relação a cursos novos, vagas, há projetos para o primeiro ano da sua gestão?

Rodas – Na graduação, dobraram as vagas nos últimos oito anos. Existem muitas carências em muitos cursos. Veja, por exemplo: há quatro anos, houve uma greve grande de professores na filosofia. Neste ano, na tomada [da reitoria, ocorrida em 2007], entre outras coisas, falaram bastante que os prédios não são suficientes [para os cursos]. 

Não é algo razoável no momento que acabou de dobrar as vagas, que você continue dobrando e fazendo com que essas carências aumentem.

Agora é o momento, acho, de fazer com que essas carências sejam eliminadas, que esses cursos tenham professores, funcionários, laboratórios, computação moderna, biblioteca digitalizada, antes de se pensar no aumento [de alunos].  Porque, senão, estamos fazendo uma bomba. 

Quando se cria vagas, você tem de ter espaço, tem de ter professor, mas não só isso. Você tem de ter dinheiro para a manutenção estudantil também, que é ampla e necessária, mas que custa.

Assim que essas carências estiverem resolvidas, é claro que a universidade pode pensar em outro ciclo de evolução.

R7 – E como fazer isso com o orçamento da USP, que é alto, mas já bastante comprometido?


Rodas – Está proposto [no programa da gestão] a atitude pró-ativa da reitoria na busca de fundos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], na parte da infraestrutura, que é muito necessária.

A infraestrutura do campus de São Paulo [a Cidade Universitária, no Butantã] está precária, alguns laboratórios têm geladeiras nos corredores, entre outras coisas, e isso não se coaduna àquela ideia que se vende de a USP ser um centro de excelência. 

A saída não é só confiar nas verbas orçamentárias, mas buscar receitas nesses âmbitos, em bancos nacionais e internacionais, também.

R7 – Isso envolveria, também, PPP (Parceria Público-Privada)? Há grande resistência dentro da universidade de parcerias com a iniciativa privada.

Rodas – Mas a USP precisa disso, de parcerias, senão vai ficar para trás da FGV [Fundação Getulio Vargas], de todas as outras universidades.

Existe, sim, essa resistência, mas o que tem de se pensar, acho, é se isso não é um mal menor, mesmo para aqueles que acham que é um mal, do que a continuar na Idade Média. Isso é questão de cada um resolver. 

Mas essas questões de PPP e fundações serão colocadas no primeiro dia e têm um ano para serem discutidas na USP. Ou seja, haverá um tempo para se fazer regras básicas sobre isso.

Mas, por exemplo, se a FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas] não quiser usar, tudo bem, não use, mas se a Politécnica quiser, pode usar, mas dentro daquelas regras, seguindo o regimento interno. 

R7 – O Pasusp (Programa de Avaliação Seriada da USP) tem tido grande abstenção de alunos. Em 2008, a taxa foi de 84%. Este ano, mesmo com mudanças no sistema de inscrição, foi de 58%. Como resolver isso? Como aproximar a USP dos alunos da rede pública? 

Rodas – Precisa haver uma maior disseminação de conhecimento, como há em certos programas, como o da professora Mayana [Zatz, pró-reitora de pesquisa da USP], dos estágios dentro da universidade de alunos secudaristas.

É preciso haver um maior conhecimento através de visitas, de intercâmbio maior, para que o aluno não pense que a USP seja tão inacessível. 

Eu lembro, por exemplo, que, quando estava no colegial e resolvi prestar direito, queria entrar aqui, mas, ao mesmo tempo, ficava com receio de não passar na USP.

E a minha escola não era pública, tinha um ensino muito rigoroso, tanto que entrei aqui e na filosofia sem cursinho, na época. Mas se pensei isso, imagina os alunos que estão na periferia, em escolas públicas? Eles têm certeza que não vão passar e nem tentam mais.

R7 – O sr. acredita em terminar o vestibular e incluir a avaliação seriada?

Rodas – Seria o ideal, mas isso está muito longe de acontecer no Brasil.Não é bem da nossa cultura fazer essa troca, ter uma avaliação seriada como acontece nos Estados Unidos.

Se bem que, realmente, o vestibular, tal como ele é, tal como vem sendo, é um trauma que precisaria ser evitado.

R7 – O sr. chegou a receber uma ligação do governador José Serra na sexta-feira, dia da nomeação?

Rodas – Não, eu recebi um convite para ir ao Palácio do Governo, na quinta-feira à noite e fui lá. Ele me disse que prezava muito as universidades, que ele próprio tinha sido aluno da Poli-USP e professor da Unicamp e que havia decidido pelo meu nome para a nomeação [para reitor]. E foi isso. Assinou a nomeação e me desejou boa sorte.

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