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Brasil Abadiânia tenta se reerguer um ano após prisão de João de Deus

Abadiânia tenta se reerguer um ano após prisão de João de Deus

Das 70 pousadas locais, 65 foram fechadas, o que obrigou profissionais da área de turismo a procurar emprego nos municípios vizinhos 

  • Brasil | Marcos Rogério Lopes, do R7

Casa de religioso garantia turismo em Abadiânia

Casa de religioso garantia turismo em Abadiânia

Jornal de Brasília

A pacata Avenida Frontal ficava o ano inteiro lotada. Nas ruas próximas ao portão de entrada da Casa Dom Inácio de Loyola, carros e ônibus de excursão dividiam espaço com pessoas que iam ou voltavam a pé das mais de 70 pousadas que recebiam turistas do mundo inteiro. Todas tinham listas de espera e algumas, reservas marcadas para quatro anos depois.

Era assim até dezembro de 2018, quando um "tsunami" deixou às moscas quase toda a pequena Abadiânia, cidade na região leste de Goiás com cerca de 20 mil habitantes e que vivia em torno da devoção e das curas do médium João de Deus, preso no dia 16 daquele mês, há exatamente um ano. 

O estabelecimento recebia 2 mil pessoas por semana. Atualmente, são 100, 120 no máximo. A casa segue funcionando, mas ninguém fala com a imprensa. Também não há informações de que algum outro médium substituiu o titular, preso no Complexo Prisional Aparecida de Goiânia.

Contra João de Deus não faltam denúncias, mas ele permanece preso apenas preventivamente, porque, segundo o Ministério Público de Goiás (MP-GO), poderia coagir as testemunhas e por ser considerado um risco à sociedade, com a chance de fazer novas vítimas se mantivesse os atendimentos.

Das 13 denúncias apresentadas pelo MP, duas referem-se a porte ilegal de armas, encontradas em suas residências, e 11 a abusos de mulheres que frequentaram a casa espírita Dom Inácio de 1973 a 2018.

Os advogados de defesa de João Teixeira de Faria (seu nome original) foram procurados para dar entrevista diversas vezes, mas não retornaram as ligações.

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A morosidade da Justiça alimenta interpretações favoráveis ao médium na cidade. "Você não acha estranho que ele nunca tenha sido condenado? Falam que fez horrores, não para de aparecer história e, mesmo assim, não tem uma única punição!", diz um ex-taxista, hoje "fazedor de bico" de Abadiânia, que não quis ter seu nome revelado para não "desagradar ao João de Deus e ao povo da casa que ele mantinha".

Esta é uma reportagem em que várias pessoas preferiram o anonimato. 

"João de Deus colocou comida na mesa de muita gente aqui em Abadiânia, queria frisar isso", exclama o dono de uma das inúmeras pousadas fechadas este ano na cidade. "Ele andava pela cidade e tratava todo mundo bem, ninguém pode falar um A contra ele", acrescenta.

Apesar de ter passado janeiro no vermelho e se ver obrigado, "por uma questão de consciência", a devolver cerca de R$ 30 mil em dinheiro a turistas que haviam antecipado 10% do valor das reservas de 2019, o empresário goiano acredita que os jornalistas deveriam dar espaço também às benfeitorias feitas pela casa religiosa. Lá, diz ele, a população era bem recebida e tratada com respeito pelos funcionários. "Principalmente por João de Deus, um homem que olhava você no olho e só tinhas palavras boas." 

Outra dona de hospedagem que atingiu lotação máxima de 2006 a 2018 relatou ao R7 que tem usado o dinheiro acumulado nos anos de fartura para tocar uma loja em Anápolis, município vizinho. "Gente demais foi trabalhar longe daqui, é o jeito. De repente tudo desmoronou nas nossas vidas."

Um estudo da Prefeitura de Abadiânia divulgado em julho, desenvolvido por empresas do Sistema S., Sebrae Goiás e Universidade Salgado de Oliveira, mostrou que 39% das famílias do município foram afetadas com os acontecimentos. O setor de hospedagem teve uma redução de 85% no faturamento, as empresas da área de alimentação encolheram 53% e o artesanato passou a ganhar 83% menos. 

Denúncias

As 11 denúncias incluem o relato de 57 mulheres que detalharam abusos ocorridos a partir de 2008. Antes disso, os possíveis crimes já prescreveram e não serão sequer investigados. São 319 vítimas que entraram em contato com o MP, algumas via email, e que precisam formalizar a acusação para ela se tornar válida. 

"Um dos nossos trabalhos é convencer essas mulheres a dizer o que aconteceu. Elas ficam inibidas, com medo de serem desacreditadas. Há vários casos em que a própria família se coloca contra a formalização do depoimento", lamenta a promotora do MP-GO, Gabriella de Queiroz Clementino.

E o relatos continuam chegando. "A força-tarefa não fechou o canal de comunicação com essas mulheres. Estamos num processo de finalização das ações penais, mas ainda recebemos as denúncias", esclarece. 

Está em jogo nessa história uma série de crimes e também a forma como as mulheres são tratadas, essa tendência a usar o sexo feminino como um bem, como algo que possa ser explorado por pessoas que detêm o poder

Gabriella de Queiroz Clementino, promotora

Gabriella conta que, para ser oficializado, o depoimento não pode ser anônimo e é importante essa vítima ir ao MP de sua região. "Após o comparecimento, investiga-se se a denúncia se sustenta, confrontando detalhes do episódio com pessoas próximas a ela e por meio de comprovantes de viagem ou informações sobre a estadia na cidade. Isso fortalece o processo de acusação", explica a promotora, que garante que os nomes das mulheres nunca serão divulgados, a não ser que elas queiram.

O Distrito Federal e o estado de São Paulo, com 59 casos cada, são os locais com o maior número de vítimas. Em terceiro lugar aparece Goiás, com 37.

As 319 vítimas são ex-frequentadoras da casa em Abadiânia, surpreendidas com  toques inapropriados ou obrigadas a fazer sexo. Quinze delas tinham menos de 13 anos.

"Há relatos em outros estados e até no exterior, mas isso não compete ao MP-GO apurar", afirma a promotora. A reportagem não encontrou qualquer outra investigação contra o médium. Nem mesmo no Rio Grande do Sul, onde João de Deus mantém a casa Dom Inácio de Loyola Sul, no município de Canelas. 

"Há, sim, 18 casos de gaúchas que relataram abusos sexuais de João de Deus, mas ocorridos em Abadiânia, não aqui. Não há o registro de um único caso ocorrido no estado que tenha chegado ao conhecimento do Ministério Público do Rio Grande do Sul", disse a assessoria de imprensa do órgão.

Gabriella, do MP-GO, cita que além dos crimes sexuais, outras denúncias apareceram nesse um ano de prisão. "Algumas ativistas de grupos feministas divulgaram que ele seria responsável pelo tráfico internacional de crianças, mas como esse é um crime de competência federal, foi encaminhado ao Minstério Público Federal (MPF)."

Não há registro de qualquer investigação nesse sentido no MPF.

Em 1980, a morte de um taxista local chegou a ser investigada por contar com a possível participação de João de Deus, mas ele foi absolvido. O assassinato de uma turista alemã em 2006, em Abadiânia, logo após supostas denúncias feitas por ela contra o médium, também não avançou.

"Fazemos um trabalho técnico, jurídico e responsável", diz a promotora. "Não cabe a mim dizer se ele era ou não bom no seu trabalho espiritual. Muitas vítimas relatam que foram curadas pelo réu João Teixeira de Faria, o que não o autorizaria a passar de qualquer limite por causa disso."

Gabriella observa que a discussão deveria ser mais sobre machismo do que sobre religião. "Está em jogo nessa história uma série de crimes e também a forma como as mulheres são tratadas, essa tendência a usar o sexo feminino como um bem, como algo que possa ser explorado por pessoas que detêm o poder."

Abadiânia precisa continuar

O prefeito da cidade, José Diniz (PSD), diz que 20% da receita de Abadiânia vinha do turismo ligado à casa Dom Inácio de Loyola. "Tínhamos uma estrutura toda montada para atendimento ao público que visitava o local e isso praticamente desapareceu", admite.

Foram afetados hotéis, restaurantes, lanchonetes e centenas de moradores que trabalhavam no transporte, hospedagem e na recepção dos turistas. "Várias das pessoas que procuravam a casa eram doentes que precisavam de serviços próximos. Por isso a área em volta daquela estrutura foi a mais afetada."

Mil pessoas, segundo o prefeito, ficaram desempregadas após o escândalo. "Já conseguimos reempregar umas 700, com o estímulo ao turismo de nosso lago, o Corumbá, uma opção de visita bastante procurada por pescadores e por quem gosta de natureza. "É um local excepcional para pegar o tucunaré", vende o peixe, literalmente.

"Eu tenho fé em Deus que Abadiânia vai sair por cima disso tudo. Nunca fomos totalmente dependentes do João de Deus e não é agora que vamos ficar", complementa José Diniz. "Minha gestão está 100% voltada para isso."

O político conta que a população ficou chocada com os acontecimentos, mas não há vítimas na cidade. "A casa recebia gente de fora, de São Paulo, do exterior. O povo daqui não era atendido. Dos 20 mil habitantes, se 10 pessoas costumavam ir lá era muito."

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