Brasil Braço direito de 12 presidentes da Câmara dos Deputados deixará Casa em 2015     

Braço direito de 12 presidentes da Câmara dos Deputados deixará Casa em 2015     

Após 20 anos como Secretário-Geral da Casa, Mozart Vianna se despede do cargo 

  • Brasil | Bruno Lima, do R7, em Brasília

Mozart Vianna em seu gabinete na Secretaria-Geral da Câmara dos Deputados

Mozart Vianna em seu gabinete na Secretaria-Geral da Câmara dos Deputados

Bruno Lima/R7

— Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco. Piazza, Dirceu Lopes, Tostão, Natal, Evaldo, Hilton Oliveira.  

Eu gravei o time de tanta raiva que ele me fez. Foi um timaço. Durou 10 anos esse time do Cruzeiro.

Torcedor do Atlético Mineiro, Mozart Vianna, 63, não foge ao estereótipo de mineiro-come-quieto com fala mansa, tímido e que faz de tudo para não chamar a atenção. Nascido em Corinto (MG), o ex-seminarista franciscano está se despedindo da Câmara dos Deputados após quase 40 anos de dedicação ao serviço público.

— É muito corrido. É a hora de me dedicar a família. Foram mais de 20 anos só na Secretaria e a família ficou um pouco de lado.

Durante a entrevista que concedeu ao R7, recebeu quatro ligações de sua casa, duas de um parlamentar e outra de um assessor. Além disso, os servidores de seu gabinete o procuram a cada minuto para tirar dúvidas referentes ao trabalho desenvolvido pela Secretaria-Geral da Câmara dos Deputados.

— Aqui na Secretaria-Geral o ritmo do trabalho, o envolvimento, a carga horária, a demanda simultânea, as dificuldades, as tensões são intensas. Aqui você trabalha com absoluta imparcialidade. Tem que estar atento a tudo.

Mozart entrou na Câmara em 1975 por meio de um concurso para datilógrafo e fez diversos processos seletivos até chegar ao cargo de secretário-geral da Câmara dos Deputados. Apesar de ser conhecido como doutor Mozart por jornalistas e funcionários, em seu gabinete é comum ouvir suas secretárias o chamarem de “chefe”.

— Elas me chamam de chefe, mas eu não faço absoluta questão. Eu não me considero superior a ninguém. Cada um tem sua função, sua tarefa diferenciada. É tão importante um trabalho de um mensageiro, de um digitador, quanto o meu. É assim que enxergo o trabalho de equipe.

Ao longo de sua carreira esteve sentado por 20 anos ao lado esquerdo de 12 presidentes da Câmara dos Deputados durante as sessões da Casa. Não necessariamente sentado. Só ganhou uma cadeira em 2005 durante a gestão do deputado Severino Cavalcanti.

— A esposa do Severino perguntou pra ele quem era aquele deputado que sempre ficava em pé do lado dele lhe falando ao ouvido. Quando ele explicou que eu era um funcionário ela perguntou “como você deixa o coitado de pé”?

Durante todo esse tempo presenciou momento históricos da nossa Democracia. Mas para ele nenhum se compara à Constituinte. Durante o período que antecedeu a votação da atual Constituição Federal de 1988, Mozart comandou uma equipe de suporte à Constituinte. 

 — Trabalhamos como nunca. Foi um trabalho histórico, interessante. Uma carga de trabalho descomunal. Foram fins de semanas incontáveis trabalhando direto. Teve uma semana em abril de 87 que eu trabalhei sábado e domingo, cheguei segunda de manhã e só fui dormir na quarta à noite.

Trabalho que, segundo Mozart, nem sempre fica conhecido pela população. Ele lembra com bom humor de um caso que aconteceu durante a elaboração de um texto delicado e de grande repercussão política.

— Ficamos aqui resolvendo uma questão até tarde. Ligamos 1h, 2h da manhã para o presidente Ullysses Guimarães e ele estava jantando no Piantella (restaurante de Brasília famoso pela presença de parlamentares). Aí nós fomos lá levar o despacho para ele assinar e pedimos um carro da Câmara, aquela caminhonete que tem escrito “Câmara dos Deputados”. Quando saímos de lá nós ouvimos uma senhora falando assim “olha que absurdo, um carro oficial da Câmara saindo do restaurante 2 horas da manhã”. E a gente estava trabalhando.

Ele também defende o trabalho desenvolvido pelos parlamentares. De acordo com o ex-seminarista, muitas pessoas não conhecem o trabalho desenvolvido pelo Congresso Nacional, o que gera uma “falsa impressão” de que a atividade legislativa pode ser morosa. 

— O parlamento tem seus problemas, mas ele funciona. Uma coisa para mim é clara. Sem parlamento não há democracia, estando ele funcionando bem ou mal.

Em 2011, foi convidado pelo senador Aécio Neves para montar seu gabinete e depois de um ano partiu para o setor privado. Mas retornou à Câmara em 2013 a convite do atual presidente da Casa, Henrique Alves.

A falta de burocracia adotada por Mozart foge aos padrões do serviço público. Em seu gabinete o acesso é livre para todos. Mesmo durante reuniões, ele sempre faz questão de atender repórteres que tenham algum dúvida sobre os trabalhos da Casa.

— A minha porta não é fechada para ninguém.

Na parede de sua sala está um quadro da igreja de São Francisco Del Rey. Estudou em um seminário que ficava ao lado da igreja. Durante as festas de final de ano retornava à casa dos pais e encontrava sempre muita fartura na mesa. No entanto, descobriu que na verdade a família passava dificuldade enquanto ele se preparava para ser padre.

Quando o seminário em que estudava pegou fogo, ele teve que voltar para casa antes do Natal e percebeu que seu pai fazia um esforço maior para comprar comida nas férias de dezembro, quando o filho seminarista voltava para casa. Foi quando decidiu largar a batina para procurar emprego.

— Hoje eu seria padre com certeza. Eu não saí por falta de vocação. Eu sai porque meu pai tinha uma pequena venda e as coisas ficaram complicadas financeiramente.

No seminário começou a gostar de rock. Entre as bandas preferidas estão Legião Urbana, Rolling Stones e Beatles. Ele lamenta ter perdido o show do ex-beatle Paul McCartey em Brasília, há um mês.

— Estava louco pra ir mas acabou que não fui. Na época do seminário eu acompanhava muito de perto.

Além da música, é uma apaixonado por literatura. Formado em Letras, pela UnB (Universidade de Brasília), a leitura sempre fez parte de sua vida. Quando questionado qual sua obra preferida dispara a falar com a voz ligeira engolindo metade das sílabas pronunciadas.

— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores, no baixo do córrego. Todo dia isso faço, gosto. Desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro. Um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser.

Os versos são os primeiros do livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, o qual já leu diversas vezes. Sabe a primeira página quase toda de cor. Também tem gravado diversos trechos do Regimento Interno da Câmara dos Deputados. A boa memória é reforçada pela leitura diária do código onde passa os dedos de unhas roídas, mania que ele desenvolveu depois de começar a trabalhar na Câmara.

— A gente não vê quando rói as unhas. Eu me propus N vezes a parar de fazer isso mas...

Talvez agora ele consiga.

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