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Brasil Carta à Pfizer expõe gestão ineficiente, dizem especialistas

Carta à Pfizer expõe gestão ineficiente, dizem especialistas

Saúde teria menosprezado dois milhões de doses da indústria americana, mas feito festa com mesma quantidade de Oxford

Agência Estado
Pazuello acusou Pfizer de fazer marketing com vacina

Pazuello acusou Pfizer de fazer marketing com vacina

Carla Carniel/Reuters - 18.01.2021

As críticas públicas da gestão Jair Bolsonaro à proposta da Pfizer para venda de vacinas contra covid-19 foram vistas por especialistas como atestado da inabilidade em pôr de pé um plano amplo e eficiente de imunização. O temor agora é que a guerra de narrativas afaste outras farmacêuticas com quem o Ministério da Saúde ainda poderia obter mais doses, num momento de alta de casos e óbitos.

A pasta de Eduardo Pazuello divulgou no sábado (23) nota acusando a Pfizer de buscar "marketing" na negociação e indicou pontos que, na visão do governo, pesaram contra o acordo com a farmacêutica americana. Esses obstáculos são contestados por especialistas. A Pfizer não comenta. A sucessão de trapalhadas do governo na pandemia levou partidos a discutirem o impeachment do presidente da República.

Uma das razões citadas pela pasta é o fato de a Pfizer só ter acenado com dois milhões de doses no 1º trimestre. "Para o Brasil, causaria frustração", disse a Saúde, "pois teríamos, com poucas doses, que escolher, num país continental com mais de 212 milhões de habitantes, quem seriam os eleitos a receberem a vacina", prosseguiu.

Mas Pazuello foi na última sexta-feira ao Aeroporto de Guarulhos para recepcionar a mesma quantidade de doses da vacina Oxford/AstraZeneca que o ministério importou da Índia para acelerar a imunização, após o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), sair na frente com a Coronavac.

Em 2020, o governo chegou a negociar com a Pfizer 70 milhões de doses para 2021, mas a compra não avançou e o Brasil perdeu lugar na fila, apesar de alertas da farmacêutica para a alta demanda. "Dois milhões de doses (da Pfizer) eram pouco em setembro, (mas) sexta-feira recriaram uma 'fonte luminosa' e um 'coreto' para receber a mesma dosagem (da Oxford", criticou o epidemiologista Paulo Lotufo, da USP, no Twitter.

"Foi tomada decisão consciente. Não negociaram, mas não previram que isso ia gerar muitas críticas", diz o professor do Insper e doutor em Economia Thomas Conti. "Minha maior preocupação é que desviar a responsabilidade para o laboratório pode afastar outros fornecedores. O governo politizou a relação com a Pfizer."

A vacina da Pfizer tem logística complexa, pois precisa ser armazenada entre 70°C a 80°C negativos. Lotufo, porém, listou medidas que permitiriam aproveitar as doses, como enviar lotes de vacina a capitais do Norte e fazer aplicações em hangares e salas de aeroporto, esvaziados na pandemia. Para ele, esse plano dispensaria "superfreezers", pois as doses sairiam da caixa térmica diretamente para o braço das pessoas. "Se (o envio das doses) ocorresse em dezembro, hoje a catástrofe estaria minimizada no Norte", escreveu.

Carla Domingues, epidemiologista e chefe do Programa Nacional de Imunização (PNI) de 2011 a 2019, diz ser difícil avaliar o contrato, pois a íntegra não foi divulgada, para ver se há "cláusulas leoninas e abusivas", como diz a Saúde. Mas questiona o fato de sermos o único país a ter problema para negociar com a Pfizer, enquanto americanos e europeus compraram. "A dificuldade é porque o Brasil não se planejou para essa vacina, de enorme complexidade."

Conti ainda vê inconsistências na fala do governo: entraves como a ausência do diluente (que seria soro fisiológico comum) e de reposição do gelo seco para manter frascos na temperatura correta seriam resolvidos com planejamento. Sobre eximir a fabricante de responsabilização civil em caso de efeitos adversos, ele diz que essa cláusula já existe há décadas em países desenvolvidos, inclusive para outras vacinas, e é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Fundo

Nos Estados Unidos, o Programa Nacional de Compensação por Danos de Vacinas existe desde 1988 e indeniza quem eventualmente sofra efeitos colaterais após tomar vacinas cobertas pelo fundo (como as de difteria, tétano e hepatite A e B). De 2006 a 2018, foram aplicadas 3,7 bilhões de doses, e só 5.317 compensações pagas.

O fundo, diz Conti, foi criado após uma onda antivacina ter aumentado ações contra farmacêuticas, desestimulando a fabricação e reduzindo a oferta de imunizantes.

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