CPI da Covid

Brasil Ciência não tem lado, diz infectologista Luana Araújo à CPI

Ciência não tem lado, diz infectologista Luana Araújo à CPI

Médica criticou politização e polarização entre os médicos ao defender ineficácia de remédios do kit covid contra o coronavírus

Reuters - Brasil
Araújo afirmou que cloroquina pode aumentar em 77% risco de morte por covid

Araújo afirmou que cloroquina pode aumentar em 77% risco de morte por covid

Jefferson Rudy/Agência Senado - 02.06.2021

A infectologista Luana Araújo afirmou nesta quarta-feira em depoimento à CPI da Covid no Senado que a ciência não tem lado, e que quando se politiza o ato médico "está tudo errado".

Graduada na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e mestre em saúde pública pela Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, Araújo disse tomar como base critérios científicos para afirmar com convicção que não existe tratamento precoce eficaz contra a covid 19, citando, inclusive, estudo que aponta aumento de mortalidade nos casos em que a cloroquina foi utilizada.

Ela também defendeu a vacinação em larga escala ao explicar que o coronavírus, por sua capacidade de rápida mutação, torna impossível o alcance da chamada imunidade de rebanho natural.

"Ciência não tem lado", disse a médica à CPI. "Ciência ou é bem feita ou é mal feita. Ciência bem feita é aquela que não busca o resultado que você quer, é aquela que faz a pergunta e espera para entender o que aconteceu."

"E, quando a gente coloca politização ou polarização no meio de um ato médico, a gente já está fazendo tudo errado", acrescentou.

Araújo foi escolhida para uma secretaria especial de combate à covid-19 do Ministério da Saúde pelo ministro Marcelo Queiroga, e contou aos senadores que chegou a trabalhar por 10 dias mesmo sem ser nomeada, até ser dispensada.

A médica relatou ter sido informada pelo próprio ministro que, apesar do convite, não poderia ser nomeada porque não tinha sido aprovada pelo Palácio do Planalto.

A infectologista evitou, no entanto, tecer qualquer comentário que comprometesse o ministro, a quem se referiu como "um homem da ciência" e bem intencionado.

Ela evitou também responder diretamente quando perguntada sobre declarações do presidente minimizando a proporção da pandemia, a importância das vacinas ou de medidas de prevenção como o uso de máscaras e o distanciamento físico.

"Eu não gostaria que a minha participação ou eu fossem utilizados de forma diferente da minha participação técnica", avisou, de início.

"Mas não é possível ouvir uma declaração ou um conjunto de declarações de quem quer que seja --não estou personalizando na figura do presidente--, de quem quer que seja, neste momento, sem sofrer um impacto quase que emocional, além do racional que a gente trabalha o dia inteiro, ao ver isso."

Sobre a cloroquina, tema que voltou a acirrar ânimos na CPI, afirmou que todos são favoráveis a qualquer terapia que se comprove eficaz -- o que não ocorreu com o medicamento para o enfrentamento à Covid-19.

"Quando ela não existe, ela não pode se tornar uma política de saúde pública", pontuou, citando revisão sistemática internacional com medida estatística de aumento de risco de 1,77 para o uso da cloroquina, o equivalente, segundo ela, a um aumento de mortalidade de 77%.

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