Coronavírus: shoppings manterão emprego e salário na quarentena?

Centros de compras devem fechar as portas a partir do dia 23 para tentar conter pandemia no país. Associações pedem ajuda econômica ao governo

Shoppings devem fechar as portas a partir de segunda-feira (23)

Shoppings devem fechar as portas a partir de segunda-feira (23)

Imagem de Arquivo/Agência Brasil

Os shoppings centers de São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Alegre (RS) devem fechar as portas a partir da próxima segunda-feira (23), como tentativa de conter a pandemia do coronavírus.

A dúvida que vem afetando patrões e empregados é como fica a saúde financeira desses estabelecimentos comerciais e a manutenção do salário e emprego dos trabalhadores.

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O presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), Ricardo Patah, iniciou uma série de videoconferências nesta quarta-feira (18) com representantes dos sindicatos patronais dos lojistas de shopping, varejo, supermercados e materiais de construção.

“O fechamento dos shoppings centers é necessário por estarem mais suscetíveis à circulação do vírus, já que concentram um grande número de lojas e recebem um fluxo intenso de pessoas diariamente. O que queremos saber é como ficará a manutenção de emprego e o pagamento dos salários”, questiona o sindicalista.

Patah reconhece que as pessoas merecem e precisam cuidar da saúde, mas também quer a garantia de emprego para esses trabalhadores ao retornarem da quarentena, além do pagamento do salário durante o período que estiverem compulsoriamente afastados.

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O sindicalista destaca que a posição do governo, de recomendar o fechamento das lojas e empresas, é fácil porque “o dinheiro não sai do seu bolso”. Por isso, busca conseguir uma solução que atenda trabalhadores e patrões.

“Estou conversando com representantes de sindicatos patronais para propor uma convenção coletiva para todos sobreviverem a este período de crise. A maioria tem sinalizado que pretende reduzir a jornada de trabalho e o salário das equipes ou dar férias coletivas, mas não falou em demissões”, comenta Patah.

Supermercados, farmácias e bancos devem ficar abertos

Luis Augusto Ildefonso, diretor institucional da Alshop, diz que a situação dos lojistas de shoppings ficará bem crítica com as medidas anunciadas para conter a proliferação do coronavírus.

Segundo ele, a entidade já fez uma série de pedidos para o governo federal como tentativa de amenizar os efeitos da estagnação econômica.

Entre as solicitações feitas pelo setor, estão:

• Concessão de empréstimos subsidiados;
• Adiamento do pagamento de FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço);
• Adiamento do recolhimento do Simples Nacional por 90 dias; e
• Redução das alíquotas do Simples Nacional temporariamente.

“Algumas medidas já foram anunciadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, mas ainda precisam ser aprovadas pelo Congresso Nacional”, pontua Ildefonso.

Segundo o diretor da Alshop, os lojistas também estão avaliando a concessão de férias coletivas ou para os funcionários que têm férias vencidas.

“É um equacionamento racional, considerando que o colaborador estará parado neste período”, conclui.

Em nota, a Ablos (Associação Brasileira dos Lojistas Satélites) diz que teme por "um grande colapso no comércio varejista, com prejuízos que possam causar a quebra de muitas empresas".

A Ablos afirma que a entidade e "seus associados prezam pelos seus funcionários e principalmente por aqueles que estão nos shoppings centers, para possam preservar o emprego dos trabalhadores durante e após o fim desta crise".

A nota também destaca que "ainda não se sabe quantos e quais estabelecimentos comerciais irão fechar durante o período recomentado por João Doria, mas a associação já se organiza para pedir moratória aos empreendimentos, além da isenção do aluguel ou cobrança equivalente ao percentual de vendas, isenção do fundo de promoção (despesa obrigatória relativa à publicidade) e flexibilização no pagamento da taxa de condomínio, com novos prazos e sem multa, além da ajuda dos bancos e governo com linhas de créditos e isenção de imposto".

40% das lojas de shopping são franquias

André Friedheim, presidente da ABF (Associação Brasileira de Franchising), diz que 40% das lojas que atuam nos shoppings centers do país são franquias e que o fechamento desses estabelecimentos vai impactar diretamente nas operações das redes.

A entidade, assim como a Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping) e a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), já enviou proposta aos governos federal e estadual pedindo incentivo aos empresários para manterem suas empresas.

Entre as propostas, estão:

• Redução e isenção de impostos;
• Redução de cotas condominiais; e
• Revisão do pagamento de aluguel.

Friedheim afirma que o momento é de cautela, mas muitas redes podem buscar alternativas para manter suas operações.

“Claro que não vamos conseguir compensar as perdas com os fechamentos das lojas em sua totalidade, mas, por trabalharem com escala, as franquias são mais capitalizadas do que pequenos negócios próprios e, nos últimos anos, vêm desenvolvendo novos canais de venda.”

O presidente da ABF cita como exemplo as franquias de alimentação que, segundo ele, são maioria nos shoppings.

“O delivery vem crescendo nessas operações e devem se intensificar nesse período de crise. É uma alternativa para continuar produzindo e vendendo. ”

Outro exemplo, segundo ele, são as redes de supermercados e farmácias. “Se os shoppings tiverem entradas independentes para esses estabelecimentos, eles poderão continuar em operação. ”

A venda pela internet também é apontada como alternativa para comercialização de produtos e serviços para as franquias.

“Obviamente não vai compensar as vendas do varejo fixo, mas conseguirá reduzir um pouco as perdas. ”

Micro e pequeno será o mais afetado com crise

Wilson Poit, diretor superintendente do Sebrae-SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo), afirma que nesse momento não há como dizer que não haverá perdas tanto para os empresários, quanto para os trabalhadores.

“O micro e pequeno empreendedor de São Paulo já está sofrendo. Todos vão ter perdas, precisamos criar uma margem de manobra para conseguir minimizar os prejuízos que virão”, diz.

Poit ressalta que cada empresário tem de analisar sua real situação, fazer as contas e tentar fazer um plano de redução de gastos. “A ideia é negociar com o locador do imóvel, com fornecedores, buscar a prorrogação para o pagamento de aluguel ou financiamento para manter oxigênio e sobreviver nos próximos meses.”

Atualmente, 98% das empresas que atuam no Brasil são micro e pequenas empresas. Elas são responsáveis por 55% de todos os empregos criados no país.

“O momento é de reavaliar o seu negócio e buscar alternativas. O mecânico pode ligar para seus clientes e sugerir que ele faça aquela revisão que vem sendo adiada, aproveitando que está em casa, o pedreiro pode investir naquela proposta de reforma. O negócio é não parar de ter boas ideias”, diz Poit.