Eleições 2018
Brasil Discurso de candidatos acirra eleição mais violenta em 30 anos

Discurso de candidatos acirra eleição mais violenta em 30 anos

Cientistas políticos e juristas afirmam que os candidatos e seus partidos precisam mudar o tom para conter a radicalização da política brasileira

Discurso de candidatos acirra eleição mais violenta em 30 anos

"Evoluindo", diz filho de Jair Bolsonaro (PSL) na internet

"Evoluindo", diz filho de Jair Bolsonaro (PSL) na internet

Reprodução/Twitter - 08.09.2018

O ataque a faca contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL/RJ) e o atentado a tiros contra a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em março, fazem das eleições presidenciais de 2018 a mais violenta desde a primeira eleição após o fim do regime militar, em 1989. Para analistas políticos e juristas entrevistados pelo R7, o tom usado pelos candidatos na campanha tem contribuído para esquentar de forma perigosa a polarização que tomou conta da política brasileira.

“Este é o ano eleitoral mais violento que eu já vi’, diz o jurista Gilson Dipp, ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que também cita o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) para a lista de atentados políticos de 2018.

— O Brasil vive um clima de acirramento de posições e ideias. Isso reflete no aspecto eleitoral. Esse descontentamento popular com a corrupção, em relação ao governo Temer, ao Congresso totalmente inerte, um Judiciário que muitas vezes acionado extrapola suas funções, cria-se um clima desfavorável.

Já era esperado que as eleições presidenciais deste ano fossem mais tensas em razão do cenário eleitoral incerto, sem favoritos e com pelo menos cinco candidatos com chances de ir ao segundo turno. No entanto, o clima de violência e agressividade adotado pelos candidatos e suas campanhas elevam ainda mais a temperatura da eleição, avalia o cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC do Rio de Janeiro.

Exemplos recentes são a declaração do próprio Jair Bolsonaro, cinco dias antes de ser esfaqueado em Juiz de Fora (MG), que conclamou seus apoiadores no Acre a "fuzilar a petralhada" no Estado. Ou ainda a fala do presidente do PSL, Gustavo Bebianno, logo após o ataque ao candidato, que disse "agora é guerra" em declaração ao jornal "Folha de S.Paulo".

"É uma figura retórica inapropriada para esse momento. Tem guerra sim para ganhar a eleição, já que há uma disputa muito acirrada. Mas tem que evitar essa linguagem militar e buscar uma linguagem mais apropriada para a campanha eleitoral", diz Ismael.

Dois dias após ser esfaqueado, perder mais de dois litros de sangue e passar por uma cirurgia delicada na Santa Casa de Juiz de Fora, Bolsonaro posou para foto pela primeira vez fora da maca e simulou com as mãos duas armas de fogo.

"Nada justifica a tentativa de homicídio, mas o próprio discurso político do candidato atingido contribuiu para isso [o clima de radicalização política]", afirma o professor de direito constitucional Flávio de Leão Bastos Pereira, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Observatório Constitucional Latino-Americano.

"Quero lembrar que há discursos e atitudes políticas extremas de lado a lado. Mesmo esse rapaz [Adélio Bispo de Oliveira], que fez isso isoladamente, ele vem de uma outra visão política que o levou a uma atitude extrema. A caravana do ex-presidente Lula também foi alvo de tiros. Então isso não começa agora, é um processo que está em curso", continua Bastos Pereira.

A família do deputado federal discorda das críticas.

"Quem fala que Bolsonaro incita a violência porque fez sinalzinho de arma com as mãos é tão canalha quanto quem fala que mulher que sai de saia curta na rua está incentivando o estupro", argumenta Flavio Bolsonaro, filho do candidato do PSL, em entrevista na frente do hospital onde o pai se recupera, após seu gesto receber críticas na internet. 

Disparos de arma atingiram caravana de Lula em março

Disparos de arma atingiram caravana de Lula em março

Eduardo Teixeira/Raw Image/Estadão Conteúdo - 27.03.2018

4 anos de polarização 

Bolsonaro não inaugurou a radicalização do discurso político, diz Ismael. Até mesmo a retórica pró-armamento da população é uma velha conhecida da política nacional. Mas o candidato do PSL fez subir a temperatura de uma polarização que divide o país há quatro anos. 

"Há uma polarização que começa no segundo turno de 2014, que resultou no impeachment [da presidente Dilma Rousseff], o que aumentou a tensão entre as duas partes", afirma Ismael, da PUC-Rio. Ele lembra da "campanha agressiva da Dilma contra a Marina [Silva]" no primeiro turno de 2014, além dos ataques no segundo turno entre a então presidente pelo PT e o candidato do PSDB, o senador Aécio Neves. 

"Essa animosidade vem até hoje. Tinha a divisão entre os petistas e os antipetistas. Agora tem um terceiro polo, o Bolsonaro, que fez surgir o antibolsonaro", continua o professor.

"Todos eles [candidatos] contribuem para o clima de violência", diz o filósofo Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

— Você liga o programa de um e ele ataca violentamente o outro. A ideia [das campanhas eleitorais] é vender um salvador da pátria, aquele que vai resolver com uma penada todos os problemas, o que é um engodo. Notoriamente fazem uma manipulação propagandística, e não um programa de sociedade.

Em meio ao clima de radicalização, as tensões políticas podem se transformar em atos de violência, afirma Dipp, como os atentados a Bolsonaro e à caravana do ex-presidente Lula.

— O problema é que a radicalização atrai aqueles que, digamos, não têm uma saúde psicológica adequada. Pessoas que não têm uma boa sanidade mental se identificam mais com aqueles que se portam de maneira mais agressiva.

Romano: '60% dos municípios não têm sistema de água e esgoto digno do nome'

Romano: '60% dos municípios não têm sistema de água e esgoto digno do nome'

Agência Brasil

A culpa do Estado

Além desse processo de radicalização iniciado há quatro anos, o clima de violência também ganha espaço com o que os analistas chamam  de "omissão" do Estado brasileiro, que é a sua incapacidade de prestar serviços públicos de qualidade à população. E aí se propagam mais facilmente as ideias populistas e antidemocráticas, diz Bastos Pereira, do Mackenzie. 

— Já passaram vários governos que não conseguiram resolver o problema na saúde, na segurança, na educação, o que tende a fazer com que a população passe para as propostas antipolíticas, com a política sendo demonizada.

Adélio Bispo de Oliveira, o servente de pedreiro desempregado que atentou contra Bolsonaro, costumava usar suas redes sociais para publicar mensagens de raiva contra políticos e imagens em manifestações contra a corrupção.

Com o sistema político tão desacreditado, os três poderes da democracia perdem força e confiança, afirma Romano, o que abre espaço para atos de desobediência da população.

— Não se confia no Executivo, o parlamento está desmoralizado e a Justiça cada vez mais politizada. Hoje nós temos vários STFs dentro do tribunal. Não pode ter esses pequenos partidos dentro de um colegiado tão importante. Um estado sem autoridade, que é diferente de autoritarismo, não é obedecido. 

Hordas virtuais de ódio

Por último, e seguramente não menos importante, as redes sociais se tornaram o espaço de intensa troca virtual de ódio, onde a violência verbal é exercida sem limites, alimentada pelos discursos radicais das autoridades.

"Nas redes sociais há uma pauleira forte, muita gente trocando acusação, insulto, agressão", diz Ismael. "Você tem a exacerbação dessa animosidade na internet, e às vezes pode desaguar também em manifestações na rua, com algum tipo de atrito", continua. 

"O que nós estamos vendo hoje é o resultado da violência normal da sociedade brasileira, uma das mais violentas do planeta. A sociedade brasileria mata mais na vida cotidiana do que muitas guerras. Somos violentos desde os bandeirantes", afirma o professor Romano.

"A crise na segurança não é apenas culpa das facções criminosas, mas sobretudo da violência do cotidiano, da violência do trânsito, do feminicídio, dos assassinatos de gays, uma violência que não recebe a sanção necessária, e as autoridades do estado ficam sem moral para impor à sociedade um comportamento respeitoso", continua. "Você é tão treinado de achar que ninguém te vê e que você não vai ser punido, que daí você se sente encorajado a fazer na rua atos como matar pessoas. A massa virtual vai alimentando a massa do ódio, com o costume de destruir o outro. Quando você chega num determinado limite, passa para o plano físico".

Em meio ao descrédito das instituições e do descontrole do ambiente virtual, o professor Ismael, da PUC-Rio, afirma que é responsabilidade do Estado e das campanhas políticas uma mudança de tom para acalmar os ânimos.

— O ataque ao Bolsonaro foi um atentado político, assim como os tiros à caravana do Lula, mas não significa que tenham tido apoio por trás, não há nenhum elemento que indique isso. Também não significa que a situação está fora de controle. Os candidatos precisam mandar uma mensagem para seus eleitores de que é uma disputa eleitoral, não é pra matar ninguém. Precisa desse tom para acalmar os ânimos.

Foi o que aconteceu logo após o ataque a Bolsonaro, quando os demais 12 presidenciáveis repudiaram o ataque ao candidato do PSL. A um mês das eleições, foi uma postura diferente do que aconteceu cinco meses atrás, quando o próprio Bolsonaro zombou do ataque à caravana de Lula e disse que o ex-presidente estava "colhendo ovos por onde passa". O ex-governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB, também chegou a culpar Lula pelos tiros sofridos, mas depois voltou atrás.