Coronavírus

Brasil Embaixada nos EUA avisou governo sobre carta da Pfizer em setembro

Embaixada nos EUA avisou governo sobre carta da Pfizer em setembro

Telegrama mostra que Itamaraty foi comunicado oficialmente da oferta da farmacêutica de 70 milhões de doses em agosto de 2020

  • Brasil | Gabriel Croquer, do R7

Demora para governo responder ofertas foi confirmada por executivo da Pfizer

Demora para governo responder ofertas foi confirmada por executivo da Pfizer

Carlos Ortega/EFE - 07.05.2021

A embaixada do Brasil nos EUA comunicou oficialmente o Itamaraty ainda em setembro de 2020 sobre a carta enviada pela Pfizer, no dia 12 daquele mês,  pedindo por respostas do governo federal em relação à oferta da farmacêutica de 70 milhões de doses.

O telegrama, que está disponível em resposta a pedido ao Itamaraty por meio da Lei de Acesso à Informação, foi recebido pelo órgão no dia 15 daquele mês, três dias depois do envio da carta da Pfizer a autoridades da cúpula do governo federal.   

O documento se soma às revelações do ex-secretário Especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, e do gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, na CPI da Covid. Os dois convocados afirmaram que o governo não respondeu às ofertas da farmacêutica, enviadas desde agosto de 2020.

Com a falta de retorno, a Pfizer então enviou a carta para o presidente Jair Bolsonaro no dia 12 de setembro, pedindo por pressa na definição do negócio. Wajngarten ainda afirmou que o governo demorou quase dois meses para responder à carta e iniciar as negociações, o que teria acontecido somente após iniciativa individual dele de avisar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 

Só então, ainda de acordo com Wajngarten, que as tratativas teriam começado entre o governo e a farmacêutica. O telegrama, porém, mostra que além de ter sido informado da carta, o governo federal já havia tido contato com representantes da Pfizer para falar da vacina. 

"A empresa tem-se reunindo com representantes dos ministérios da Saúde e da Economia, bem como desta embaixada (vide tel 1618) para tratar da vacina. Disse que proposta de fornecimento da vacina foi compartilhada com o ministério da Saúde", escreveu o ministro-conselheiro da Embaixada Brasileira nos EUA, Bernardo Paranhos Velloso, em telegrama recebido em 15 de setembro.

No resto do documento, Velloso pontua trechos da carta onde a Pfizer fala que a rapidez do governo para fechar o contrato seria "crucial" para garantir as doses ainda em 2020, devido à alta demanda de outros países que já negociavam com a farmacêutica. 

Procurado pelo R7, o Itamaraty não respondeu se o então chanceler, Ernesto Araújo, e o presidente Jair Bolsonaro foram informados da carta. Araújo presta depoimento aos senadores nesta terça-feira (18), onde deve ser perguntado sobre as ações de sua gestão para obter vacinas contra a covid-19. 

Na época em que a carta da Pfizer foi revelada, em janeiro de 2021, o governo federal justificou a demora para comprar as doses pela exigência da empresa de não ser responsabilizada por possíveis eventos adversos da vacina, entre outras "cláusulas abusivas", como classificou o ministério da Saúde. 

Um dispositivo para destravar os contratos com a Janssen e a Pfizer foi inserido em minuta da medida provisória 1026/2021, com respaldo da Saúde, mas acabou excluído da versão final, publicada em janeiro. O contrato com a Pfizer acabou sendo fechado em março, após o Congresso aprovar uma lei para permitir que a União assuma riscos e custos de qualquer efeito da vacina.

Carta da Pfizer

Em seu depoimento a senadores na CPI que investiga possíveis omissões do governo federal no combate à pandemia de covid-19, Fabio Wajngarten confirmou a existência de uma carta da Pfizer ao governo federal cobrando por respostas à ofertas anteriores.  

A carta, escrita pelo presidente da Pfizer, Albert Bourla, foi endereçada ao presidente Jair Bolsonaro, com cópia para o vice-presidente, Hamilton Mourão, o então ministro da Casa Civil, Braga Netto, o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o embaixador do Brasil nos EUA, Nestor Foster.

Wajngarten porém, afirmou mais de uma vez no depoimento que o presidente Jair Bolsonaro não sabia da oferta. Ele ainda atribuiu a demora para fechar o negócio por "incompetência" e excesso de burocracia no ministério da Saúde, mas evitou culpar o ex-ministro Eduardo Pazuello pela falha. 

Já o depoimento de Carlos Murillo aos senadores confirmou que integrantes do ministério da Saúde se reuniram com a Pfizer antes mesmos das primeiras ofertas, em agosto do ano passado, mas que as ofertas da farmacêutica não foram respondidas até a entrada de Wajngarten nas tratativas. 

Cronologia

de acordo com depoimentos na CPI e documentos oficiais

Maio  e Junho de 2020 - Representantes da Pfizer e do governo Bolsonaro têm primeiros encontros 

Agosto de 2020 - Pfizer faz as três primeiras ofertas oficiais, nos dias 14, 18 e 26 de agosto, que não foram respondidas

Setembro de 2020 - Pfizer envia carta à cúpula do governo federal pedindo por respostas das ofertas 

Novembro de 2020 - Segundo Wajngarten, governo respondeu à oferta somente a partir de iniciativa dele, no dia 9.  

Últimas