Operação Lava Jato
Brasil Empresa usada por delator para pagar propina investiu 1 milhão de dólares em filme com atores de Hollywood

Empresa usada por delator para pagar propina investiu 1 milhão de dólares em filme com atores de Hollywood

Relações Criminosas é estrelado por Ray Liotta, Cristian Slater e a brasileira Gisele Fraga

Empresa usada por delator para pagar propina investiu 1 milhão de dólares em filme com atores de Hollywood

"The River Murders" chegou ao Brasil como "Relações Criminosas"

"The River Murders" chegou ao Brasil como "Relações Criminosas"

Reprodução

O empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, sócio da Toyo Setal e delator da Operação Lava Jato, investiu 1,1 milhão de dólares em uma produção cinematográfica nos Estados Unidos em 2010 — o equivalente a R$ 1,9 milhão na época, ou R$ 3 milhões corrigidos atualmente. Para financiar a produção, que contou com atores como Ray Liotta e Cristian Slater, Mendonça utilizou recursos de uma empresa sua sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. Um ano depois, essa mesma empresa foi usada para pagar R$ 3 milhões em propinas a Renato Duque, ex-diretor de Serviços e Engenharia da Petrobras, conforme o próprio empresário relatou em seu acordo de delação premiada com o MPF (Ministério Público Federal).

O filme The River Murders estreou no festival de Cannes em 2011, chegando ao Brasil no ano seguinte com o título Relações Criminosas. O thriller conta a história do detetive Jack Verdon (Ray Liotta), que se vê em meio a uma investigação policial quando um assassino mata mulheres com quem ele se relacionou no passado.

A mulher de Mendonça à época da produção, a atriz brasileira Gisele Fraga, faz o papel de esposa de Liotta. 

Ela foi fundamental para a entrada de Mendonça no negócio. Em 2008, quando participava de um curso de atuação em Los Angeles, Gisele foi apresentada a Richard Salvatore, produtor executivo do filme, que a convidou para conhecer o projeto.

Ela convenceu o marido a viajar para Spokane, no Estado de Washington, sede da produtora North by Northwest, interessada na gravação. Após dois anos de tratativas, o negócio foi fechado em 20 de agosto de 2010.

O contrato de produção aponta a empresa de Mendonça, a Stowaway Enterprises Ltd., como principal financiadora, com 51,3% do negócio (1 milhão e 110 mil dólares).

No contrato do filme, inclusive, uma cláusula indica que, “se solicitado”, “Augusto Mendonça” poderia aparecer nos créditos como “produtor executivo”, ao lado dos outros produtores. Isso acabou não acontecendo, recebendo crédito de produção apenas a Stowaway.

Stowaway Enterprises Ltd., empresa de Mendonça e Fraga, nos créditos do filme

Stowaway Enterprises Ltd., empresa de Mendonça e Fraga, nos créditos do filme

Reprodução/North by Northwest

Duas outras companhias também investiram no filme: a Howieco - Inc, que colocou US$ 360 mil (15,4%), e a North by Northwest Euro/Arts LLC, que investiu US$ 650 mil (33,3%). O custo total foi de US$ 1,950 milhão, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood.

Quando o contrato foi fechado, em 2010, Gisele era sócia de Mendonça na Stowaway.

“[Os produtores] me entregaram o roteiro do filme, e ele [Salvatore] achou que eu poderia fazer parte. Ele também contou que estavam buscando investidores para esse filme. Aí eu perguntei para o Augusto se nós poderíamos participar desse pool de investidores”, conta a atriz ao R7.

— Isso não envolveria só um filme, a priori seriam três. Ele [Augusto] foi [a Spokane], acompanhou [as negociações], temos tudo registrado. (...) Fui aprovada [no teste de elenco], e nós entramos como produtores também.

Por sua atuação, ela recebeu o prêmio de melhor atriz no festival internacional de cinema de Hoboken, em 2012.

No final de 2011, quando Mendonça e Gisele se divorciaram, e o filme ainda nem havia chegado ao Brasil, a atriz abriu mão de sua parte na sociedade.

Gisele contracena com Ray Liotta no filme "Relações Criminosas"

Gisele contracena com Ray Liotta no filme "Relações Criminosas"

Reprodução/IMDB

Stowaway e a propina

Sócio da Toyo Setal, Mendonça foi um dos primeiros empresários envolvidos nos desvios de recursos da Petrobras a fechar um acordo de delação premiada, em outubro de 2014 — o que evitou que ele fosse preso pela Lava Jato.

Mendonça detalhou o pagamento de propinas, que passam dos R$ 100 milhões, aos ex-diretores da Petrobras Renato Duque e Paulo Roberto Costa e ao ex-deputado federal José Janene, morto em 2010 — os pagamentos eram feitos por intermédio do doleiro Alberto Yousseff.

O dinheiro era pago em forma de “comissões”, sobretudo, mas também como doações oficiais de campanha aos partidos PP e PT. Os milhões vieram de cinco empreendimentos conquistados por consórcios da Setal junto à Petrobras: Terminal de Cabiúnas 2, Revap (Refinaria Henrique Lage), Replan (Refinaria de Paulínea), Repar (Refinaria Presidente Getúlio Vargas) e Terminal Cabiúnas 3.

A delação de Mendonça expôs o funcionamento do chamado “Clube”, grupo de empresas que definiam, junto a Duque e Costa, quais empresas participariam e venceriam os contratos da Petrobras. Em setembro passado, o executivo foi condenado a 16 anos e oito meses de prisão por corrupção ativa e lavagem de dinheiro (veja a sentença completa).

A Stowaway é citada na delação de Mendonça por duas vezes. Ela foi utilizada para o pagamento de propina a Duque no âmbito das obras do Terminal Cabiúnas 3, em Macaé (RJ). Avaliada em torno de R$ 1 bilhão, essa obra foi vencida pelo consórcio SPS (das companhias Skanska, Promon e SOG – Setal Óleo e Gás).

O contrato foi finalizado em 2011, quando o investimento no filme já havia sido feito. Mas diferentemente da construção das refinarias Replan e Repar, que foram negociadas dentro do “Clube”, Mendonça acredita que não houve uma “combinação efetiva” nas obras de Cabiúnas 3, pois “em tal oportunidade já não havia mais efetividade no âmbito do Clube”, informa sua delação.

Mesmo assim, Duque “exigiu” o pagamento de propina, estimado inicialmente entre R$ 10 e R$ 20 milhões. A exigência pegou Mendonça de surpresa, já que a Promon e a Skanska “se negaram a fazer qualquer tipo de acerto”. Mas como Mendonça já havia se comprometido com Duque nos contratos anteriores, ele mesmo resolveu arcar com os pagamentos, totalizados em R$ 3 milhões.

Esse montante saiu, em dólares, da conta da Stowaway, que é mantida no banco Safra Panamá. A “comissão” foi creditada na conta “Marinelo”, que era usada por Duque para receber propinas foram do Brasil. Essa foi a única movimentação da conta da Stowaway para o pagamento de propina, segundo o delator.

O executivo contou ainda aos procuradores da Lava Jato que, apesar de as outras empresas não concordarem inicialmente com o pagamento da “comissão”, o consórcio SPS acabou lhe ressarcindo o valor, firmando contratos fictícios com uma de suas empresas, a Energex.

O que não ficou explicado, contudo, é a origem dos recursos que abasteciam a Stowaway. A empresa aparece na lista de offshores e contas secretas reveladas pelo The Panama Papers.

O caso, que virou um escândalo internacional, foi revelado a partir de uma investigação feita por mais de 370 jornalistas de 76 países ligados ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês).

O ICIJ teve acesso a 11,5 milhões de documentos ligados ao escritório de advocacia panamenho Mossack Fonseca, um dos maiores criadores de empresas de fachada do mundo.

Offshores são empresas abertas no exterior e não são obrigatoriamente ilegais. Quando declaradas legalmente no Imposto de Renda, são uma forma de investimento em bens e ativos no exterior. Esse tipo de empresa, no entanto, é ilegal quando não é devidamente declarada, servindo para burlar a fiscalização, evadir impostos ou esconder o real dono do dinheiro. Offshores ilegais geralmente são abertas em paraísos fiscais, países com pouco ou nenhum imposto.

A Stowaway é vinculada ao Memphis Trust, ambos com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.

Esse truste (um tipo de negócio em que terceiros, uma entidade de “trusting”, administram os bens do contratante) foi criado em 28 de janeiro de 2009, quando o “Clube” de empreiteiras ainda estava atuante nas negociações com a Petrobras. Os beneficiários do truste Memphis são Mendonça, sua ex-mulher, Gisele Fraga, além de duas filhas do executivo, Carolina e Karin. Diferentemente da Stowaway, o truste Memphis não aparece nas revelações de Mendonça ao Ministério Público Federal.

O R7 procurou os advogados que representam Mendonça para saber mais detalhes sobre a Stowaway, mas não recebeu uma resposta até a publicação desta reportagem.

Stoaway, empresa de Augusto Mendonça e Gisele Fraga, foi o principal investidor do filme

Stoaway, empresa de Augusto Mendonça e Gisele Fraga, foi o principal investidor do filme

Reprodução
Trecho do contrato de produção revela que o executivo Augusto Mendonça poderia receber crédito de "produtor executivo"

Trecho do contrato de produção revela que o executivo Augusto Mendonça poderia receber crédito de "produtor executivo"

Reprodução

A atriz e o engenheiro

Em entrevista ao R7, Gisele diz que nunca soube do truste. Ela diz que foi pega de surpresa quando seu nome “apareceu na lista do HSBC”.

Gisele conta que, para ela, a Stowaway havia sido criada para financiar o filme nos Estados Unidos.

— Eu assinava papeis deliberadamente, porque eu confiava no meu marido, eu era sócia dele nas empresas. Como é que eu podia imaginar que ele estava fazendo besteira, ou que ele estava fazendo coisas ilícitas? Eu casei [em maio de 2005] para mil pessoas, com um homem que todo mundo respeitava. De repente ele está envolvido nisso? Isso não é culpa minha.

Gisele conta que tinha uma “vida dos sonhos” com o marido, principalmente nos três primeiros anos de casamento.

Relações Criminosas não foi a única incursão do engenheiro no mundo das artes. Antes de se casarem, Gisele o convenceu a participar de uma peça de teatro que ficou em cartaz em São Paulo chamada “Jeitinho Brasileiro”.

É a história de uma atriz que tenta emplacar sua carreira na Broadway, em Nova York. Mendonça faz “a voz” do zelador do prédio onde a personagem mora, um “vilão” que tenta expulsar dos Estados Unidos o irmão da sonhadora atriz.

“Ele era sinônimo de uma pessoa boa. Lutava pelo país, era respeitado, chamado para dar palestra em tudo quanto é canto no mundo, por que eu ia duvidar dessa pessoa?”, se pergunta ela sobre o ex-marido.

Gisele Fraga, Augusto Mendonça e Richard Salvatore, em Spokane (WA), em 2010, durante comemoração pela assinatura do negócio

Gisele Fraga, Augusto Mendonça e Richard Salvatore, em Spokane (WA), em 2010, durante comemoração pela assinatura do negócio

Arquivo Pessoal

Questionada sobre quando a Stowaway foi criada e sobre a origem dos recursos, Gisele diz que nunca soube essas respostas.

— Aí é que moram as perguntas que ainda ele não responde, ele não aparece para responder. Ou ele recebeu [o dinheiro], ou ele passou, ou ele doou. Eu não sei exatamente. O que está disponível publicamente é a delação dele. Ele cita empresas das quais eu era sócia e eu tive que abrir mão da sociedade durante o divórcio. Se ele já sabia ou não que isso tudo ia explodir eu não tenho a menor ideia, porque nem eu entendi muito bem o meu divórcio.

Ela está atualmente coletando provas para entrar com um processo por danos materiais e não materiais, contra Mendonça, na Justiça do Brasil e também nos Estados Unidos. Além disso, vai pedir também a revisão do divórcio porque quer recuperar os direitos que alegar ter sobre o filme.

— Eu me vi completamente lesada, eu me vi completamente envolvida num escândalo de massa, eu vi meu nome sendo jogado na internet de forma totalmente errônea, perante 35 anos de profissão e carreira artística que eu tenho de respeito. Eu quero respeito com o meu nome, eu quero meu nome limpo. E que fique bem registrado: eu não fui mais contratada para realizar nenhum trabalho depois de tudo isso.

    Access log