Brasil Ex-diretor da Dersa, Paulo Preto é preso em São Paulo pela Lava Jato

Ex-diretor da Dersa, Paulo Preto é preso em São Paulo pela Lava Jato

Ex-diretor da Dersa e denunciado pelo Ministério Público Federal) por desvios, Preto tem um passado cheio de polêmicas e envolvimento em corrupção

Paulo Preto

Paulo Preto é preso pela Lava Jato em SP

Paulo Preto é preso pela Lava Jato em SP

Mateus Bruxel/Folhapress - 31.10.2010

A PF (Polícia Federal) prendeu na manhã desta sexta-feira (6) Paulo Vieira de Souza, conhecido como "Paulo Preto". A ordem é da 5° Vara Federal de São Paulo após um pedido da força-tarefa da Lava Jato.

Paulo Preto foi detido em casa no bairro de alto padrão Vila Nova Conceição, em São Paulo.

No final do mês de março, a Lava Jato ofereceu denúncia contra Paulo Preto, José Geraldo Casas Vilela e outras três pessoas por terem desviado recursos, em espécie e em imóveis, entre os anos de 2009 e 2011, no total de R$ 7,7 milhões, destinados ao reassentamento de pessoas desalojadas pela Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) para a realização das obras do trecho sul do Rodoanel, o prolongamento da avenida Jacu Pêssego e a nova Marginal Tietê, na região metropolitana de São Paulo.

A denúncia foi aceita e os réus respondem pelos crimes de formação de quadrilha, peculato e inserção de dados falsos em sistema público de informação.

Procurado pela reportagem do R7, a defesa de Paulo Preto disse que a prisão não tem qualquer relação com a Lava Jato. "Foi decretada no âmbito de processo sobre supostas irregularidades ocorridas em desapropriações para construção do Rodoanel Sul", informam os advogados Daniel Bialski e José Roberto Santoro.

No entendimento da defesa, a ordem de prisão do ex-diretor da Dersa foi uma medida "arbitrária, sem fundamentos legais, além de desnecessária diante do perfil e da rotina do investigado, sempre à disposição da Justiça".

Paulo Preto

O ex-diretor da Dersa e denunciado pelo MPF (Ministério Público Federal) por desvios na estatal paulista, Paulo Preto tem um passado cheio de polêmicas e envolvimento em escândalos de corrupção. Homem forte de José Serra (PSDB), ele é apontado como operador de propinas do partido por sete delatores da Lava Jato.

Paulo Preto chegou à Dersa por meio de Geraldo Alckmin (PSDB), em 2005, pouco antes de o tucano se candidatar à presidência da República. Paulo Vieira de Souza foi diretor da empresa estatal entre os anos de 2005 e 2010. Primeiro, nas Relações Institucionais, e depois na engenharia, nomeado por Serra.

Em 2006, já com Serra à frente do governo, Paulo Preto chegou à diretoria de Engenharia. Nesse cargo, fez as obras da nova marginal do Tietê, a construção do eixo Sul do Rodoanel e de prolongamento da Avenida Jacu Pêssego.

As três obras realizadas no governo Serra são alvo da investigação do MPF. Segundo a denúncia, o esquema montado por Paulo Preto fraudava o cadastro de moradores desalojados pelas obras e que deveriam ser reassentados em outros locais.

Ao todo, o Ministério Público Federal suspeita que cerca de 1.800 pessoas foram inseridas indevidamente nos programas de reassentamento, incluindo seis famílias de empregadas da família de Paulo Preto. Os desvios chegam a R$ 7,7 milhões (em valores da época).

Homem forte de José Serra (PSDB), Paulo Preto foi preso em SP

Homem forte de José Serra (PSDB), Paulo Preto foi preso em SP

Alan Marques/Folhapress

Relações com a cúpula do PSDB

Preto também trabalhou no Palácio do Planalto durante os quatro anos do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso no programa Brasil Empreendedor Rural, ocupando o cargo de assessor especial da Presidência.

O responsável por levá-lo ao Planalto foi Aloysio Nunes (PSDB), que tinha acabado de se eleger como senador. Atualmente, Nunes é o ministro das Relações Exteriores e senador licenciado pelo Estado de São Paulo. Nunes foi chefe da Casa Civil no governo Serra.

Em 2007, a filha de Paulo Preto fez um empréstimo de R$ 300 mil para Nunes comprar um apartamento. O atual ministro, à época, declarou que pagou o empréstimo, mas sem juros.

Em 2010, mais polêmicas envolvendo Serra: Paulo Preto foi acusado por integrantes do PSDB de ter embolsado cerca de R$ 4 milhões da campanha do partido. O dinheiro foi doado por empreiteiras para a candidatura de José Serra para a presidência da República.

À época, integrantes tucanos ameaçaram abandoná-lo por causa das denúncias, mas Preto soltou declarações polêmicas, que soaram como ameaça velada e fizeram com que os tucanos recuassem.

Além disso, delatores da Operação Lava Jato afirmam ainda que Preto pediu dinheiro para caixa dois das campanhas Serra e Nunes.

Preto ainda é alvo de outros dois processos que estão no STF (Supremo Tribunal Federal), ambos pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os processos estão nas mãos do ministro Gilmar Mendes. A defesa de Preto pediu ao Supremo para que o caso tramite na Corte, pois, inicialmente, estavam relacionados a pessoas que têm direito a foro privilegiado.

As polêmicas que envolvem Preto vão além da política. Em junho de 2010, o engenheiro foi preso em flagrante na loja da Gucci do shopping Iguatemi, em São Paulo, ao tentar avaliar um bracelete de diamantes avaliado em R$ 20 mil à época. A joia havia sido furtada na própria loja de luxo em que o engenheiro tentou fazer a avaliação. Ele foi acusado de receptação de material ilícito.

Fortuna no exterior: R$ 113 milhões fora do país

Na denúncia do MPF, o engenheiro é acusado de desviar dinheiro em proveito próprio e de terceiros entre os anos de 2009 e 2011. De acordo com o MPF, Preto fraudava o cadastro de moradores das regiões afetadas pelas obras. Indenizações e desvios de apartamentos da CDHU estão entre os auxílios recebidos indevidamente pelas pessoas cadastradas nos programas por Preto.

Durante as investigações, o Ministério Público da Suíça informou que Preto é titular de contas de offshores que somam R$ 113 milhões. O valor do dinheiro em contas fora do Brasil é incompatível com os ganhos dele.

Segundo os documentos enviados pelo MP suíço, o dinheiro estava depositado em quatro contas bancárias, que foram abertas em 2007, por meio de uma offshore sediada no Panamá. Em fevereiro de 2017, o dinheiro — cujo beneficiário da conta é Paulo Vieira de Souza — foi transferido para um banco nas Bahamas.