Brasil Ex-ministro Delfim Netto afirma que desconhecia prática de tortura no País

Ex-ministro Delfim Netto afirma que desconhecia prática de tortura no País

Ele foi um dos signatários do Ato Institucional 5, que fortaleceu perseguições políticas

Ex-ministro Delfim Netto afirma que desconhecia prática de tortura no País

Delfim dirigiu o Ministério da Fazenda entre 1964 e 1967

Delfim dirigiu o Ministério da Fazenda entre 1964 e 1967

Valter Campanato/08.09.2008/ABr

O economista e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto negou, nesta terça-feira (26), ter conhecimento de qualquer esquema de financiamento dos órgãos da repressão por empresários, nos anos da ditadura militar. Em depoimento perante a Comissão da Verdade da Câmara de Vereadores de São Paulo, o ex-ministro também disse que não sabia que dissidentes políticos eram submetidos a torturas em instituições policiais e militares.

Delfim dirigiu o Ministério da Fazenda entre 1964 e 1967. Em dezembro de 1968 foi um dos signatários do Ato Institucional 5, que restringiu ainda mais as liberdades democráticas no País e causou o recrudescimento das perseguições políticas. Em seu depoimento, ele disse que, se a situação fosse a mesma, voltaria a assinar o ato.

Foi no período em que Delfim estava à frente do ministério que um grupo de empresários de São Paulo se reuniu para coletar fundos destinados a financiar a Operação Bandeirantes, organização paramilitar, que mais tarde desaguaria no DOI-Codi. Segundo relato do jornalista Elio Gaspari, autor de livros sobre o período, citado pelos vereadores da comissão, Delfim Netto sabia dessa articulação e chegou a participar de reuniões com os empresários.

Veja as mortes suspeitas do período da ditadura que ainda estão sem esclarecimento

Leia mais notícias de Brasil

Delfim negou insistentemente qualquer conhecimento da ação do grupo e chegou a manifestar dúvidas quanto à sua existência.

— Eu não sei de nada disso. Vocês deveriam perguntar ao Elio Gaspari, que é um grande jornalista.

O economista afirmou que a área de administração civil no governo era isolada da área militar.

— A administração econômica sempre foi de civis. Nunca tive nada a ver com os militares [...] O processo militar era totalmente à parte. Nunca ouvi nada dentro do governo sobre casos de tortura.

Diante de informações de torturas que estariam ocorrendo em instituições do Exército, Delfim, segundo seu depoimento, foi até o presidente da República, Emílio Garrastazu Médici e pediu esclarecimentos.

— Ele me disse que não havia nada.

Os integrantes da comissão criticaram o depoimento do ex-ministro.O vereador Gilberto Natalini (PV), presidente da comissão, questionou as declarações.

— Como é que um homem com a capacidade intelectual dele, o poder e as ligações que tinha, pode dizer que não sabia do que ocorria nos porões da ditadura? Qualquer pessoa mais antenada sabia disso.

O vereador Ricardo Young (PPS) também contestou o ex-ministro.

— O senhor era extremamente bem relacionado com os militares e os civis [...] Se tomarmos como verdade o que disse, vamos obscurecer a história. Eu acho que sua biografia merecia um depoimento melhor do que este que o senhor deu aqui.

Protestos

Na saída, o ex-ministro disse que considera positivas as manifestações de protesto que estão ocorrendo no País. Mas ressaltou que elas não têm relação com as que ocorriam em 1968, quando, para aumentar o poder da repressão, a ditadura recorreu ao AI-5.

— Naquela época o objetivo era destruir o País.