Novo Coronavírus

Brasil Governador do Amazonas admite subnotificação em casos de covid-19

Governador do Amazonas admite subnotificação em casos de covid-19

Wilson Lima (PSC) diz estar preocupado com populações indígenas e fala em dificuldade de obter testes rápidos para acompanhar situação

Wilson Lima concedeu entrevista pela internet

Wilson Lima concedeu entrevista pela internet

Alex Mirkhan / EFE-EPA - 9.5.2020

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), afirmou em entrevista à Agência Efe que há uma subnotificação de casos de infecção pelo novo coronavírus no estado — como apontou um estudo divulgado na sexta-feira (8) pelo Imperial College London, universidade do Reino Unido que é uma das referências mundiais em ciência e medicina — e também mostrou preocupação com o efeito da pandemia entre a população indígena.

De acordo com o estudo britânico, 10,6% da população do Amazonas já teria sido infectada, mais do que a de qualquer outro dos 16 estados brasileiros analisados.

Além disso, o Amazonas aparece em terceiro na classificação de maiores taxas de reprodução do vírus, com média de 1,58 contaminação por indivíduo, atrás apenas de Pará (1,90) e Ceará (1,61). Quando o número é maior do que 1, indica que a pandemia não está controlada e continuará a crescer.

"Pode sim haver casos subnotificados, porque temos uma demanda muito grande por exames", afirmou o governador, que já pediu ajuda à ONU para combater a pandemia na floresta amazônica e proteger a população indígena e ribeirinha.

"É um grupo que nos preocupa muito por estar numa situação de vulnerabilidade", ressaltou.

Atualmente, o Amazonas, que tem cerca de 4 milhões de habitantes, contabiliza 962 mortes por covid-19 e 11.925 casos do novo coronavírus.

Confira a entrevista:

Agência Efe: O registro oficial de casos de Covid-19 é menor do que o real?

Há, de fato, uma subnotificação. É algo que a gente vem falando há algum tempo. Hoje (sexta-feira, 8), nós tivemos 68 novos casos de óbitos, agora são 874 óbitos por covid-19 no estado e são 10.727 casos no total. Estamos acompanhando estes números e a subida dos casos de óbitos.

Estamos também acompanhando atentamente o número de enterros, e essa tem sido a nossa grande referência para entender o comportamento da doença. Se considerarmos os últimos 10 dias deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, em 2019 tínhamos 30 enterros por dia, e hoje temos 120. A gente acredita que 60% destes enterros tem relação com covid-19, porque não encontramos nenhuma outra explicação plausível.

Temos uma demanda muito grande por exames e, muitas vezes, uma pessoa que veio a óbito, fazemos o exame nessa pessoa e ela entra numa fila para que o resultado saia daqui a seis dias. Então, durante esses dias, houve aquele óbito e aquele enterro, mas sem ser confirmado. Há outros casos de pessoas que falecem em casa e o Estado não tem tempo hábil de fazer os exames. Esses são alguns fatores que contribuem para a subnotificação, e não tenho a menor dúvida que os números são muito maiores.

Um estudo do Imperial College aponta que pelo menos 10% da população do Amazonas esteja infectada. O senhor corrobora esse dado? E a população indígena está isolada?

Imagino que temos mais de 10% (da população infectada) no estado. Ainda temos dificuldade de conseguir os testes rápidos, apesar dos insumos que temos recebido e do apoio do governo federal. No Amazonas, já tenho 43% dos casos confirmados de Covid-19 no interior, ou seja, só não tenho registros da doença em sete municípios. Os outros 54, além de Manaus, já tenho esses registros, e a população indígena é um grupo que nos preocupa muito por estar numa situação de vulnerabilidade. Tínhamos confirmado 5 óbitos entre indígenas, e claro que isso pode variar. A questão indígena é primeiramente preocupação do governo federal, ao menos na atenção primária, mas nós estamos trabalhando em parceria com as prefeituras para que haja o isolamento das aldeias e que só uma pessoa indígena por aldeia possa fazer compras ou o que for necessário nas cidades, para evitar que a doença chegue. É claro que a gente tem muita dificuldade, o governo federal tem muita dificuldade em relação aos indígenas, porque eles não querem sair sozinhos da aldeia e, geralmente, saem acompanhados.

Como o vírus chegou às aldeias?

Há uma série de fatores. Em Santo Antônio do Içá (município da microrregião do Alto Solimões) tivemos um caso de um médico que foi atender numa aldeia e, dias antes, estava numa área onde houve uma incidência muito grande da doença. Na lancha que o transportou, ele infectou todas as pessoas e, depois, foi atender numa aldeia indígena. Então, quem contribuiu para que a covid-19 pudesse chegar lá foi ele. Há também a questão dos garimpeiros, a questão dos madeireiros em contato com os indígenas, e é muito complicado você fazer o rastreamento da doença.

Carregamento de caixões chega a Manaus durante a crise da covid-19

Carregamento de caixões chega a Manaus durante a crise da covid-19

Raphael Alves / EFE - 8.5.2020

O renomado fotógrafo Sebastião Salgado alertou que pode haver um extermínio de indígenas como o do período colonial se não for impedido o avanço da covid-19. O senhor acredita que pode chegar a esse ponto?

Não sei. Há muito desconhecimento sobre esse vírus. Os indígenas estão sofrendo como qualquer população mundo afora, na China, na Espanha, na Itália. Está acontecendo em Nova York e na Inglaterra. É uma doença que não respeita etnia, classe social, não faz diferenciação entre quem é autoridade e quem não é. O fato é que é preocupante, mata e não mata só idosos ou pessoas com comorbidades, como diabetes ou pressão alta. Ninguém sabe como o vírus vai se comportar se for infectado. Eu não sei, por exemplo, como o vírus se comportar em mim. Há casos de idosos que tiveram sintomas leves e tenho o caso de um amigo de 46 anos de idade que sempre foi atleta e teve que ser entubado. Isso é muito relativo.

Infelizmente, Manaus teve situações muito complicadas, com saturação de hospitais, problemas com enterros. A situação agora está controlada?

Essa é uma situação que atingiu o mundo todo. Em Nova York, capital do mundo, estavam fazendo valas comuns para enterros, e isso se repetiu no Amazonas, levando em consideração o sistema de saúde e atenção básica muito deficientes.

O Governo Federal está administrando a crise da maneira certa?

Não vou entrar especificamente em como o presidente (Jair Bolsonaro) está gerindo a crise. Mas, junto com o Ministério da Saúde, estamos tentando entrar em um consenso para gerir a vida das pessoas, mantendo ou garantindo o mínimo de circulação de dinheiro para que a gente possa garantir o sustento das pessoas e não deixar as pessoas perderem a esperança ou ficarem desalentadas, como tem acontecido com alguns que perderam o emprego ou deixaram de receber salário no final do mês, que estava na atividade informal. Nós precisamos que continuem funcionando supermercados, farmácias e indústrias, que têm produzido equipamentos importantes para o combate à covid-19 aqui, por exemplo. Não baixei nenhum decreto para parar a indústria. E por que não fiz isso? Não só para a indústria que está produzindo insumos, mas também para que algumas empresas, a maioria delas no distrito industrial, funcionem.

O Governo Federal tem ajudado o suficiente?

Já recebemos 90 respiradores, e chegaram aqui 280 profissionais, entre médicos e enfermeiros de outras unidades, e recebemos também um montante de R$ 60 milhões para investimentos nessa área.

A região amazônica precisa de ajuda internacional?

Neste ano sou presidente do GCF Task Force (Força-Tarefa de Governadores para o Clima e Florestas), que reúne 38 governadores de áreas de florestas (de países como Espanha, Colômbia, Equador e México, entre outros). Enviei uma carta à ONU pedindo todos os esforços de empresas, instituições, órgãos e todas as pessoas ligadas à ONU e que tratam de questões ambientais para que se voltem ao combate à covid-19 em regiões onde vivem pessoas que ajudam a proteger a floresta amazônica, como os indígenas e ribeirinhos.

Qual foi a resposta?

Não tive nenhuma resposta concreta, mas já recebi retorno da impressão que eles tiveram. Acharam muito positiva a manifestação e já estão se mobilizando de alguma maneira a disponibilizar ajuda para o Amazonas com respiradores, álcool gel, profissionais da área de saúde, cestas básicas. Tivemos uma ajuda muito significativa do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), de uma sobra de um contrato que nós tivemos de R$ 30 milhões para reforma de alguns hospitais, e vamos usar esse recurso para reformar a parte elétrica de um dos hospitais que mais está combatendo a covid-19 aqui.

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