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Brasil João de Deus: 'Não quis estragar a fé', diz vítima que manteve segredo

João de Deus: 'Não quis estragar a fé', diz vítima que manteve segredo

Médium se entregou às autoridades na tarde deste domingo (16); mais de 300 mulheres fizeram denúncias de abuso sexual

Vítima diz que não queria estragar a fé

Vítima diz que não queria estragar a fé

Walterson Rosa/Folhapress – 16.12.2018

Em meio aos depoimentos de mulheres que contam ter sido abusadas pelo médium João de Deus está o da Flávia (nome fictício), de 24 anos. Ela afirma que deixou a violência sofrida guardada por anos por sentir culpa, medo e vergonha. A seguir, o relato:

"O abuso aconteceu quando eu tinha 20 anos. Mas, antes disso, eu já frequentava a CDI (Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia) por anos, desde meus 13. Eu tinha um carinho muito grande pelo médium João (de Deus), sempre fazia questão de cumprimentá-lo. Em uma viagem, se não me engano em janeiro de 2015, fui na sala dele após os atendimentos da manhã, provavelmente eu fui pelo fato da entidade me pedir para ir falar com ele, pois nessa época eu pedia ajuda pelo vestibular".

"Nessa parte, eu não lembro muito bem o que conversamos, mas o abuso foi quando ele me levou para um corredor na sala, e me pediu para ficar de costas, nisso me falou que iria passar energia. Muito rápido ele levou a minha mão para o pênis dele e pediu para que eu mexesse o quadril. E eu fui fazendo, mas sem entender nada, apenas pensando 'o que está acontecendo?'", relatou.

"Após isso, ele me levou para o banheiro, onde tem uma cadeira, e essa cena é forte na minha cabeça: eu estava praticamente masturbando ele, ele sentado e eu de joelhos, chorando, não entendendo nada. Não lembro se ele pediu para fazer sexo oral. Quando acabou o ato, essa outra cena também ficou marcada: eu lavando a mão na pia e chorando muito mesmo, e ele do lado falando que eu não precisava chorar".

"Foi apenas essa vez que aconteceu, porque em nenhuma outra vez eu estava sozinha com ele ou, quando entrava, era conversa muito rápida, pois havia mais pessoas para conversar com ele. Eu decidi não contar para ninguém, pois foi tempo até relacionar isso como um abuso".

"Eu guardei isso por anos. Primeiro porque você se sente culpada se questiona porque deixou que isso acontecesse. Vergonha, medo como eu iria denunciar uma pessoa que tem uma legião que o acompanha e que tem uma enorme força em todos os sentidos?", perguntou.

"Minha família frequentava a CDI também, houve curas em nossa família. Eu não queria estragar essa fé deles também, sabe? Então decidi que esse seria meu eterno segredo. Eu coloquei esse abuso como uma coisa para meus subconsciente esquecer, para evitar pensamentos, traumas e paranoias".

"Estou chocada pelo fato disso ter acontecido com centenas de outras mulheres. Eu voltei algumas vezes na CDI após ter acontecido o abuso, mas pelo fato de ter fé nos trabalhos das entidades, evitava ele e o meu carinho por ele deixou de existir", finalizou.

Entenda o caso

João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, está sendo acusado por diversas mulheres de abuso sexual durante os atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, interior de Goiás.

Após as primeiras denúncias contra o médium, o MP-Go (Ministério Público de Goiás) abriu uma força-tarefa, que conta com quatro promotores, seis delegados e duas psicólogas para atenderem o caso.

Na noite de quarta (12), a Promotoria de Justiça de Goiás solicitou a prisão preventiva do médium, cinco dias depois de as primeiras denúncias de abusos sexuais começarem a aparecer.

Em sua primeira aparição pública após as denúncias, na manhã de quarta-feira (12), João de Deus ficou cerca de 10 minutos na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, interior de Goiás. O médium e se disse inocente e declarou ainda que estava à disposição da Justiça.

Até a noite desta quinta-feira (13), a força-tarefa do MP-GO atendeu 330 mulheres.

Outro lado

O advogado criminalista Alberto Toron, que representa João de Deus, se posicionou sobre as acusações de abuso sexual contra o médium em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo. Ele afirmou que o médium “nega e recebe com indignação a existência dessas declarações”.

“O que eu quero esclarecer, que me parece importante que se esclareça ao grande público, é que ele tem um trabalho de mais de 40 anos naquela comunidade, atendendo a todos os brasileiros, atendendo gente de fora do país, sem nunca receber esse tipo de acusação”, disse o advogado.

Ainda segundo Toron, João de Deus vai se apresentar à Justiça nos próximos dias para colaborar no que for necessário.

O R7 tenta desde a segunda-feira (10) da semana passada ouvir o advogado, mas ainda não obteve resposta. Um novo contato foi realizado nesta quarta-feira (12), após o pedido de prisão. Uma entrevista com o médium também foi solicitada, também sem posicionamento do acusado.

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