Jornalista investigativa diz não acreditar em naufrágio de brasileiros desaparecidos nas Bahamas

Repórter foi ouvida por deputados em audiência pública na Câmara dos Deputados

Eulália Moreno em audiência na Câmara dos Deputados

Eulália Moreno em audiência na Câmara dos Deputados

Mariana Londres/R7

A jornalista investigativa Eulália Moreno disse em audiência pública na Câmara dos Deputados que não acredita que os 12 brasileiros desaparecidos nas Bahamas tenham sido vítimas de um naufrágio, tese defendida pelo Itamaratytambém na Câmara no início do mês.  

— Não acredito que seja naufrágio não. Acho que o naufrágio é uma manobra de diversão. Está servindo para encobrir coisas mais graves que aconteceram. Não há possibilidade de ter havido um naufrágio. Não há vestígios, não há corpos, não há registros sequer. Tenho um relatório de uma ONG inglesa dizendo que não há registros de brasileiros mortos nas Bahamas em 2016. Em outros países esse assunto já deveria ter chegado às cortes internacionais, pois é um absurdo.

Questionada sobre acreditar se os desaparecidos estão vivos ela disse: 

— Não posso assumir que eles estão mortos. Ainda penso que possam estar presos nas cadeias das Bahamas, porque conheço um caso de um rapaz da República Dominicana que ficou preso 9 meses, sem conseguir falar com a família, que achava que ele tinha morrido. Não temos até agora declaração do governo das Bahamas dizendo que eles não estão nas cadeias [portanto é possível que estejam]. 

Os 12 brasileiros desapareceram no dia 6 de novembro, data em que embarcariam ao lado de cinco dominicanos e dois cubanos (supostamente a tripulação) em um barco partindo de Nassau, Bahamas para a Flórida, nos Estados Unidos, em um trajeto que demora de oito a doze horas. O Itamaraty recebeu a primeira consulta dos parentes brasileiros no dia 15 de novembro. Desde então, o governo brasileiro, em parceria com autoridades migratórias e marítimas dos Estados Unidos e das Bahamas, segue nas investigações do que pode ter ocorrido com os desaparecidos. 143 dias depois do desaparecimento, no entanto, ainda não há vestígios do grupo e as informações são desencontradas. 

Eulália Moreno trabalha para uma agência de notícias voltada para a comunidade brasileira nos Estados Unidos, a Leia aqui Brasil, de Boston (MA). Durante a sua exposição na audiência na Câmara, ela apresentou fatos apurados por ela com autoridades e principalmente com as famílias, que deixam dúvidas se o embarque dos brasileiros no barco efetivamente ocorreu. 

De acordo com Eulália, desde que chegaram nas Bahamas, em datas diversas, entre 27 de outubro e 5 de novembro, os brasileiros, que não se conheciam e são de várias partes do País, estavam em contato constante com as famílias no Brasil por meio de mensagens de whatsApp e ligações telefônicas. No dia 5 de novembro, vários deles relatam que estavam prestes a embarcar, mas dizem que o embarque estava confuso e que haviam sido levados para a praia de onde sairiam várias vezes e de volta para a casa onde estavam hospedados.

Há relatos de terem sido flagrados por um homem na praia, e depois da última comunicação, às 4h41 da manhã de 6 de novembro, não há mais nenhum contato. Na última ligação para a mãe, a brasileira Regiane fala que iria novamente à praia para tentar embarcar e que havia se perdido do marido (Lucirley) na confusão da tentativa de embarque anterior. 

As últimas comunicações dos brasileiros com as famílias, segundo material coletado por Eulália, são as seguintes: 

5. novembro: pela manhã, um dos brasileiros, Lucirley (casado com Regiane, também desaparecida), telefona para a mãe e diz que o embarque será breve e que a travessia irá durar cerca de três dias, pois o trajeto havia sido alterado, assim como o desembarque, que seria em Jacksonville, na Flórida e não mais em Miami. 

5 de novembro: a partir de 11h30 brasileiros relatam que foram levados três vezes para o local do embarque, mas que voltavam porque o barco não estaria pronto. 

6 de novembro, 00h41: Márcio, de Sarduá (MG) manda whatsApp para família dizendo que está uma grande confusão para o embarque, e que o barco estaria cheio. Diz que há uma guerra para o embarque. 

6 de novembro, 00h46: Regiane telefona para a mãe e fala que estava prestes a embarcar.

6 de novembro, 4h41: Regiane volta a telefonar para a mãe e diz que tinha voltado para a casa e mais uma vez o barco não estava pronto e que na pressa de voltar ela se perdeu do marido e que ele estava com a bolsa com joias, dólares, pedras preciosas. Diz que pensou que ele estava dentro da van e depois não o viu. Ela conta para a mãe que às 2 horas da manhã chegou uma dominicana [possivelmente coiote] e um grupo de homens dominicanos [possivelmente os cinco que também estão desaparecidos] e que todos ficaram escondidos na praia à espera do barco. Mas relata que chegou um homem na praia e que quando os viu escondidos, saiu correndo. Regiane contou para a mãe que o grupo achou que o homem chamaria a polícia. Logo depois ela diz para a mãe que o 'coiote' Ernani disse que eles deveriam voltar à praia pela quarta vez e diz que desligaria o celular. 

Além de defender que é possível que os brasileiros não tenham embarcado, Eulalia sustenta que o mar, na madrugada de 6 de novembro, estava calmo, o que não explicaria um naufrágio. Também argumenta que o único barco que se encontra desaparecido é um barco pequeno, de um cubano (também desaparecido) apontado como o capitão da viagem. 

— Se eles embarcaram teria que ser em dois barcos, já que o barco desaparecido tem capacidade para até sete pessoas, não mais do que isso. E acho improvável que tenham ocorrido dois naufrágios. 

Há ainda outras duas informações que deixam dúvidas sobre o embarque. Antoniel, um mineiro de Governador Valadares fez a mesma rota dos brasileiros desaparecidos uma semana depois, pelas Bahamas. Ainda no Brasil, quando almoçava com o coiote Altair para tratar da travessia, ouviu de outro coiote que encontraram por acaso: 

— Vocês souberam o que aconteceu com o grupo de brasileiros? Eles estavam na praia, apareceu um bando de homens armados e os levaram todos.

Ao chegar nas Bahamas, Antoniel perguntou aos coiotes locais o que realmente tinha acontecido com os brasileiros, e a resposta foi que "ou naufragaram ou foram deixados em alguma ilha".

Durante uma reportagem investigativa nas Bahamas, o repórter Fabiano Maisonnave, da Folha de S. Paulo, ouviu de um coiote que a história do naufrágio dos brasileiros era mentira, e que o barco deles havia sido pego com cocaína e por isso estavam todos presos e incomunicáveis. A tese é descartada pelo Itamaraty. 

Comissão na Câmara 

A Comissão Externa sobre o Desaparecimento de Brasileiros nas Bahamas ainda pretende ouvir as famílias dos brasileiros desaparecidos, e autoridades brasileiras que participam das investigações, além de ir até a República Dominicana, Bahamas e Miami para tentar coletar informações. O presidente da comissão, deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) explica 

— Essa investigação parece angu de caroço, já que a Polícia Federal e o Itamaraty me parece que perderam o chamado princípio da oportunidade. Há várias notícias e não houve investigação aprofundada. Acho que o Estado brasileiro não se comportou da maneira devida, que é saber e proteger os cidadãos brasileiros (...). As famílias reclamam de total abandono. Eles não são informados de nada.

Em janeiro, a polícia federal prendeu três suspeitos na Operação Piratas do Caribe, que tinha o objetivo de desarticular uma organização criminosa de ‘coiotes’ responsável por levar brasileiros ilegalmente para os Estados Unidos.