Operação Lava Jato
Brasil Lava Jato deu apoio a Moro em tensão com STF, diz mensagem

Lava Jato deu apoio a Moro em tensão com STF, diz mensagem

Força-tarefa da operação temia que o relator no Supremo, Teori Zavascki, retirasse os inquéritos de Curitiba por causa de políticos com foto privilegiado

Mensagens moro

PF publicou lista com políticos envolvidos em propina

PF publicou lista com políticos envolvidos em propina

Jefferson Rudy/Agência Senado - 19.06.2019

Novas mensagens do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo e pelo site The Intercept Brasil, mostram que procuradores da operação Lava Jato teriam se articulado para proteger Moro e evitar tensões entre ele e o STF (Supremo Tribunal Federal) em 2016. 

Segundo a reportagem, a PF (Polícia Federal) publicou por engano no dia 22 de março de 2016, uma lista com nomes de políticos envolvidos em esquema de propina da Odebrecht que possuiam foro privilegiado. Isto significa que a investigação é competência do STF e não da 13ª Vara Criminal de Curitiba. 

Moro havia determinado que a lista permanecesse em sigiloso. A lista foi publicada um dia depois do então juiz ser repreendido pelo STF por causa da divulgação de escutas telefônicas que envolviam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Depois da publicação pela PF, o então juiz escreveu ao procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa, para reclamar do acontecido. Eles temiam que o relator da operação na época, Teori Zavascki, pudesse desmembrar os inquéritos que estavam com Moro. 

Veja parte das mensagens: 

Moro (13:06:32) — Coloquei sigilo 4 no processo, embora ja tenha sido publicizado. Tremenda bola nas costas da Pf. Nao vejo alternativa senao remeter o processo do santana ao stf.

Moro (13:06:42) — E vai parecer afronta.

Deltan (13:47:56) — Falei com Pelella. Ele disse que se resolve com a remessa dos autos (ajustei mandar Odebrecht e disse que manteríamos Zwi e Santana, com o que ele concordou e disse que cindirão e devolverão) e confidenciou que na próxima semana a pressão se transferirá para lá e esquecerão isso. Quanto à decisão de ontem, ele disse que certamente as coisas se acalmarão.

Após a conversa com Moro, Dallagnol enviou uma mensagem ao delegado Márcio Anselmo, que chefiava as investigações sobre a Odebrecht, dizendo que Moro estava chateado. "Vai apanhar mais do STF, porque vai parecer afronta", acrescentou. 

O procurador sugeriu que o policial fizesse uma análise mais aprofundada da lista para verificar se os valores correspondiam a contribuições políticas feitas legalmente ou não e fez um apelo. "Por favor nos ajude a pensar o que podemos fazer em relação a isso", escreveu.

O delegado respondeu que não entendeu o motivo de "todo esse alvoroço", já que parte do material já tinha sido exibido a integrantes da força-tarefa. 

MBL

Depois da publicação da lista, integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) protestaram em frente a casa de Zavascki em Porto Alegre, onde estenderam faixas que o chamavam de "traidor" e "pelego do PT". Também pediam que o ministro deixasse "Moro trabalhar". 

Moro pediu a Dallagnol que ajudasse a conter as manifestações, porque elas "não ajudavam". "Nao.sei se vcs tem algum contato mas alguns tontos daquele movimento brasil livre foram fazer protesto na frente do condominio.do ministro. Isso nao ajuda evidentemente", escreveu. 

O procurador disse que talvez seria melhor não fazer nada "não sendo violento ou vandalizar, não acho que seja o caso de nos metermos nisso por um lado ou outro". Mais tarde, o procurador disse que a força-tarefa não tinha contato com o MBL, e Moro não insistiu mais no assunto.

Procurado pela reportagem da Folha, a assessoria de imprensa de Moro disse que "o ministro da Justiça e Segurança Pública não confirma a autenticidade de mensagens obtidas de forma criminosa e que podem ter sido editadas ou adulteradas total ou parcialmente".

A nota também diz que Moro "repudia ainda a divulgação de suposta mensagem com o intuito único de gerar animosidade com movimento político que sempre respeitou e que teve papel cívico importante no apoio ao combate à corrupção", em uma referência ao MBL, citado por Moro. 

"A invasão criminosa de celulares de autoridades públicas é objeto de investigação pela Polícia Federal", completa o Ministério da Justiça. Já a equipe de procuradores não se manifestou sobre o assunto. 

Moro no Senado 

Por causa dos vazamentos, Moro compareceu à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado Federal para prestar esclarecimentos sobre as mensagens e sua atuação como juiz da Lava Jato. 

Moro disse na sessão que ficou surpreso com a "vilania e baixeza" dos ataques a seu celular, disse que a divulgação das mensagens foi "sensacionalista" e detalhou o ataque hacker a seu celular

Embora tenha dito não reconhecer a autenticidade das mensagens, o ministro afirma que não vê nada ilícito nos conteúdos.