Lava Jato no PR: 'É inconcebível' que presidente acesse investigações

Força-tarefa da operação no estado emitiu nota de repúdio ao que chamou de 'tentativas de interferência do presidente da República na Polícia Federal'

Deltan Dallagnol também se manifestou

Deltan Dallagnol também se manifestou

EDUARDO MATYSIAK/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 10.3.2020

A força-tarefa do Ministério Público Federal à frente da operação Lava Jato no Paraná repudiou o que classificou como "noticiadas tentativas de interferência do presidente da República na Polícia Federal em investigações e de acesso a informações sigilosas", em nota publicada após a exoneração do diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo.

A demissão de Valeixo, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, fez com que o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, também deixasse o cargo.

Ainda segundo a força-tarefa, "as investigações devem ser protegidas de qualquer tipo de ingerência político-partidária" e "é inconcebível" que o presidente tenha acesso a dados sigilosos.

Leia a íntegra da nota:

"Os procuradores da República integrantes da força-tarefa da operação Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná vêm a público manifestar repúdio às noticiadas tentativas de interferência do Presidente da República na Polícia Federal em investigações e de acesso a informações sigilosas.

1. A operação Lava Jato demonstra que o trabalho do Estado contra a corrupção exige instituições fortes, que trabalhem de modo técnico e livre de pressões externas nas investigações e processos.

2. Assim, a escolha de pessoas para cargos relevantes na estrutura do Ministério da Justiça e da Polícia Federal deve ser impessoal, guiada por princípios republicanos e jamais pode servir para interferência político-partidária nas investigações e processos.

3. Da mesma forma, as investigações devem ser protegidas de qualquer tipo de ingerência político-partidária. É inconcebível que o Presidente da República tenha acesso a informações sigilosas ou que interfira em investigações.

4. A tentativa de nomeação de autoridades para interferir em determinadas investigações é ato da mais elevada gravidade e abre espaço para a obstrução do trabalho contra a corrupção e outros crimes praticados por poderosos, colocando em risco todo o sistema anticorrupção brasileiro."

O coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, o procurador Deltan Dallagnol, também se manifestou sobre o epsiódio. 

Em uma publicação no Twitter, ele afirmou que "é gravíssima a denúncia de tentativa de escolha pelo presidente da República de dirigentes da Polícia para interferir em investigações e ter acesso a informações sigilosas. O combate à corrupção exige investigações técnicas, que possam ser conduzidas sem pressões externas."