Óleo no Nordeste

Brasil Manchas de óleo: três suspeitos, duas hipóteses e zero certeza

Manchas de óleo: três suspeitos, duas hipóteses e zero certeza

Marinha entregou em 2020 relatório que aponta navios que poderiam ter causado desastre, mas inquérito da PF segue aberto

  • Brasil | Marcos Rogério Lopes, do R7

Navio Bouboulina, principal suspeito

Navio Bouboulina, principal suspeito

Reprodução

O responsável pelo vazamento de óleo que há dois anos foi culpado por espalhar manchas em mais de mil praias de 11 estados do país segue livre de qualquer punição por um motivo simples: ninguém sabe quem é, com certeza. 

Uma investigação da Marinha concluída em 2020 apontou que o petróleo era certamente venezuelano, mas até sobre isso há pesquisas que dão informação diferente. Professor da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), Humberto Barbosa acredita que a origem é africana (veja abaixo).  

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A Marinha apontou três navios suspeitos do vazamento e encaminhou o relatório à PF (Polícia Federal), que toca a investigação ainda não concluída e que corre sob segredo de Justiça.

Em seu relatório, a Marinha explica a dificuldade de se chegar a uma conclusão.

"O derramamento de óleo que afetou a costa brasileira do Nordeste e Sudeste, desde 30 de agosto de 2019, é inédito e sem precedentes na nossa história, por ter ocorrido sem que o responsável tenha se apresentado voluntariamente e, também, prestado apoio para conter o derramamento de óleo e informações importantes, tais como quantidade de óleo, tipo de óleo, local exato da origem da poluição e as condições meteorológicas reinantes no local do fato. Isto impossibilitou uma resposta rápida", justifica. 

A instituição diz ainda que a investigação contou com a colaboração de órgãos e laboratórios nacionais e internacionais e teve como resultado um relatório entregue à PF.

O trabalho dos peritos chegou a três navios suspeitos: o grego NT Bouboulina é o que mais parece ter relação com o deslocamento da mancha de petróleo e o que mais se enquadrou nos cálculos matemáticos feitos pela investigação, mas não está descartada a possibilidade de outras duas embarcações serem culpadas: NT VL Nichioh (atual NT City of Tokyo) e o NT Amore Mio (atual NT Godam).

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A Marinha, no entanto, sabe que não dá ainda para cravar que o Bouboulina foi o causador da tragédia ambiental.

"Faz-se necessário dar prosseguimento às investigações, com oitivas e levantamento de dados e documentação, em busca de provas para consolidá-las, considerando regimes jurídicos nacionais e internacionais", sugere o órgão, que pede em em seu relatório mudanças na legislação nacional e aprimoramento da tecnologia para monitorar navios que transitam em águas jurisdicionais brasileiras.

CPI e origem africana

Uma CPI no Congresso Nacional investigaria as reais causas das manchas de óleo no país, mas a ideia da comissão parlamentar de inquérito acabou sendo deixada de lado quando surgiu a pandemia de covid-19

Uma das hipóteses que seriam abordadas pelos senadores seria a defendida pelo professor da UFAL Humberto Barbosa. Ele acredita que o petróleo não veio dos navios citados pela Marinha, mas sim de um vazamento na África.

Ele cita que em julho de 2019 uma enorme mancha de óleo, com 433 quilômetros quadrados, foi identificada no golfo da Guiné, na parte ocidental do continente. Para ele, vem daí o montante gigantesco de petróleo que atravessou o Oceano Atlântico e terminou nas praias do Brasil. 

A pesquisa que ligou o derramamento africano ao drama brasileiro é desenvolvida pelo Lapis (Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites), coordenado por Barbosa.

De acordo com o docente, as correntes oceânicas podem ter trazido o produto poluente para o litoral brasileiro. Na África Ocidental, explica ele, ocorrem intensas atividades de exploração de óleo no mar e tráfego de navios. "As manchas observadas a cerca de 180 quilômetros da costa de Camarões estariam associadas a vazamentos de poços de exploração de petróleo."

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