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Brasil O que fazer quando familiares não cumprem isolamento? Veja dicas

O que fazer quando familiares não cumprem isolamento? Veja dicas

Alguns conflitos têm se tornado comuns nas famílias, quando parentes que moram em uma mesma casa desrespeitam a quarentena

  • Brasil | Eugenio Goussinsky, do R7

Situações geram estresse em quem segue orientação

Situações geram estresse em quem segue orientação

Doug Patrício/Agência Estado/27-03-20

Nem quarentena e nem família são fenômenos modernos. Já existem há milênios, moldando-se a cada época.

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Mas em muitos casos a junção de ambos é rara e provoca situações novas, dentro de uma convivência obrigatória. Em que, muitas vezes, a angústia e outras emoções dificultam a aceitação do isolamento e das exigências da realidade.

Alguns conflitos têm se tornado comuns nas famílias, quando, por exemplo, a esposa não vê problemas em ir ao cabeleireiro e depois dar uma passadinha na moça que faz doces para comprar uns quitutes. Ou na filha de 20 anos que vai à casa das amigas. Ou no filho adolescente que lava as mãos apenas de vez em quando. Ou no marido que considera necessário ir todo dia à casa dos pais para ver como estão as coisas.

Todas essas situações, em meio à disseminação do coronavírus, geram estresse em quem mora na casa e procura seguir com mais disciplina as orientações das autoridades em saúde, conforme afirma a psicanalista Alessandra Veiga, coordenadora do grupo de Mães Solo de Belo Horizonte. A partir daí, a discordância costuma provocar discussões e tensão, se não for bem trabalhada, segundo ela.

"Quando há algum membro da família que está tendo dificuldade de entendimento das necessidades atuais, não só emocional mas para botar em prática mesmo, a primeira coisa necessária é que a família faça circular a informação: 'então a gente tem de ficar em isolamento social sim, visando nossa saúde, essa é a nossa prioridade'", diz.

Diálogo essencial

Segundo a psicanalista, neste momento, junto com a preservação da saúde, o diálogo tem de estar presente. Trata-se, afinal, de uma nova forma de viver, que surgiu de maneira repentina.

"Estamos aprendendo e, como qualquer outra mudança de hábito na nossa vida, é necessário um tempo para assimilar e para as pessoas se adequarem a essa realidade. Somente através do diálogo, da informação e da tolerância com o outro é que conseguiremos minimizar o conflito nas relações", diz.

O psicólogo Leonardo Abrahão, presidente do Instituto Janeiro Branco (voltado à saúde mental) também considera o diálogo essencial. Ele ressalta que é necessário ainda o entendimento de quão fácil ou difícil será esse diálogo.

"O adulto principalmente tem de fazer uma autoavaliação sobre quanto investiu neste diálogo ao longo dos anos com seus filhos. Caso não tenha investido, não seria coerente exigir aceitação imediata agora. Saber isso vai ajudar a entender melhor as maneiras de enfrentar essas adversidades. Se não houve diálogo, é importante saber que agora será mais difícil e, com isso, redobrar alguns esforços e encontrar alternativas", lembra.

Nas conversas, Abrahão, destaca que o convencimento da necessidade de seguir a quarententa deve ser feito com base no conhecimento.

"A explicação tem de ser embasada, o adulto precisa buscar fontes de informação confiáveis, dados das autoridades de saúde e de publicações científicas para haver uma diretriz no comportamento da família."

Isolar-se por conta própria

E quando as discordâncias estão no casal, um elemento a mais pode entrar: o da autonomia, conforme afirma Abrahão.

"Se o diálogo sensato não conseguir convencer, a parte interessada tem de dizer: 'sou adulto, autônomo, tenho minha individualidade e se não consegui deixar meu parceiro atento a qualquer chamado de razoabilidade, vou partir para uma relação diferente. Vou me isolar em casa, usar máscara, fazer por mim mesmo", acrescenta.

Abrahão explica que essas situações emergenciais, como pandemias, terremotos, furacões, tsunamis, guerras ou revoluções, servem muitas vezes como uma lupa, a realçar conflitos que poderiam estar ocultos. A questão é, segundo ele, mesmo se isso acontecer, saber filtrar para evitar até uma ruptura no relacionamento e uma consequente separação.

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"Se o casal não está se entendendo neste momento, é bem provável que haja ruídos na relação, que estão vindo à tona por causa da pressão. Mas é preciso desta filtragem porque, mesmo se isso estiver ocorrendo, pode estar sendo potencializado por essa pressão, e a reação pode ser exagerada e provocar até uma separação desnecessária", completa.

Chamada telefônica e pontes

Para a psicóloga e palestrante Dione Nogueira, é fundamental entender o que leva uma pessoa a sair e muitas vezes colocar a vida dela e de outras pessoas em risco. No caso do companheiro e outras pessoas, que ficam em casa ou acompanham, o estresse natural da quarentena é ampliado, segundo ela.

"O ideal é que o casal entre em consenso, converse sobre seus medos, reparta o que está sentindo, que fiquem desnudas de suas emoções e sentimentos uns com os outros, se eu me sinto vulnerável é importante relatar, que entenda o que causa, o que afeta, quanto nossas ações afetam as outras pessoas", ressalta.

Ela acredita que, na atual circunstância, o pai e mãe devem falar do medo, falar e sensibilizar pelas suas angústias. É momento de conversar sobre tudo, inclusive sobre a morte. E aproveitar as informações vastas e acessíveis sobre essa questão de saúde.

"É importante sensibilizar os jovens para que eles usem criatividade, não é momento de fazer visitas, seria um pouco de egoísmo, tem de preservar a saúde e a vida das pessoas e para isso é importante interagir, conversar mais, fazer atividades em grupo, meditação, pilates, aproveitar recursos tecnológicos gratuitos, lives, profissionais fazendo atividades físicas, ter um momento de solidariedade", diz.

E, se por acaso houver mesmo a necessidade de saída, por questões médicas ou urgentes, a psicóloga ressalta que a pessoa precisa estar consciente de sua responsabilidade.

"No retorno, para tranqulizar a si e aos outros, é importante que ela saiba que precisa lavar as mãos, deixar os calçados na entrada, se higienizar corretamente. A hora é de proteção, de aconchego e de pensar também no outro", observa.

E se a situação permanecer fora do controle ela sugere que um responsável ligue para o número 136, onde é dada orientação do que fazer e agir em cada situação.

"Ou então, se o responsável não se sentir a melhor pessoa para conversar, que peça a um primo, um tio, um vizinho, uma pessoa da intimidade deste jovem para fazer a mediação, uma ponte, de forma virtual. Também um profissional da área de psicologia pode fazer a ponte, fazer um atendimento único, depois eventualmente uma psicoterapia", completa.

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