Para reitor da Zumbi dos Palmares, cursos de elite excluem negros

José Vicente comenta que evasão escolar é maior nesse grupo, os professores são brancos e a situação é ainda pior no mercado de trabalho 

José Barbosa não vê avanço recente no combate ao racismo

José Barbosa não vê avanço recente no combate ao racismo

Divulgação

O reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente Barbosa, comemora com ressalvas o dado de que os negros pela primeira vez são maioria entre os estudantes de faculdades públicas (50,3% em 2018). A informação foi dada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele também acha que, nesse 20 de novembro, dia da Consciência Negra, faltam razões para se concluir que o país avançou nos último anos no combate ao racismo.

Barbosa argumenta que uma análise mais atenta do levantamento do IBGE mostra que, sim, os negros ocupam mais cadeiras nas faculdades públicas, mas "elas representam apenas 20% do ensino superior do país, sem contar que ficam com esses estudantes na maior parte das vezes os cursos menos elitizados". "Você só vai ver branco cursando Medicina", exemplifica. 

O reitor da faculdade criada em 2003 com o objetivo de estimular a inclusão dos negros no ensino superior acredita que vai demorar um bom tempo até que a realidade realmente comece a mudar e possa se falar em igualdade de condições no Brasil. "Hoje são menos de 5% de professores da cor negra no ensino superior. Isso em uma ponta. Na outra, no ensino médio, a gente vê que 60% desse grupo abandona a escola antes da conclusão", lamenta.

O caminho até a universidade é mais difícil e mesmo aos que conseguem atravessá-lo, a vitória segue distante. Barbosa acredita que há poucos avanços na área de educação e menos ainda no mercado de trabalho. "O ambiente corporativo privado agora está acordando um pouco para esse tema, mas ainda há muito a ser feito."

A batalha é longa e José Vicente Barbosa acredita que não cabe aos governos fazerem muita coisa. "É uma luta da sociedade civil e dos grupos privados. Atualmente é comum você ouvir falar em inclusão nas empresas, mas em inúmeros casos é uma ação feita apenas pelo marketing corporativo, para aquela companhia ficar bem com a opinião pública. No fundo, não há continuidade e perenidade nessas políticas."

É comum, diz o reitor, que determinada empresa bata no peito para dizer que conta com "cinco, seis negros" ou que ela estimula a contratação de jovens com esse perfil. "Mas bons salários e planos de carreira são coisas inimagináveis. O que mostra que a medida não visa a igualdade ou que pelo menos não atinge esse objetivo."

Barbosa nega, no entanto, que esteja pessimista com a situação do país. "Há uma energia nova vindo aí, uma mudança de consciência que acredito que seja muito positiva", afirmou.

Para evitar o tom enigmático, ele explicou que estava emocionado com o evento  que ocorria naquele momento – terça-feira (19), às 15h) – na faculdade Zumbi dos Palmares. "Nós estamos entregando a premiação dos jovens do estado de São Paulo que fizeram textos contando a histórias dos negros. E ver esses meninos e meninas falando em direitos comuns e contra o racismo é uma coisa que não consigo nem explicar."

O concurso Afrominuto, desenvolvido pela Zumbi dos Palmaires, pediu a alunos da rede pública e privada vídeos com no máximo um minuto de duração que valorizassem a diversidade étnico racial brasileira. As imagens podiam ser captadas por telefones celulares ou câmeras domésticas.

Barbosa acha que, ao contrário de outras políticas de conscientização, a luta contra o racismo precisa de um único estalo, de um gatilho que mostre o quanto é absurdo discriminar alguém pela cor da pele. "E as crianças podem ser a saída para o Brasil incorporar isso como um valor", comenta, otimista. "É um olhar para o outro que depois de ser adotado tem grande capacidade de colocar nossa sociedade num voo de cruzeiro e introduzir transformações significativas no país."