PF vai investigar possibilidade de locaute em greve de caminhoneiros

Locaute é caracterizado quando empresários de um setor contribuem, incentivam ou orientam a paralisação de seus empregados

Caminhoneiros fecham trecho da Régis Bittencourt, na altura de Embu das Artes (SP)

Caminhoneiros fecham trecho da Régis Bittencourt, na altura de Embu das Artes (SP)

FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDO - 25.05.2018

A Polícia Federal vai investigar a possibilidade de locaute na paralisação dos caminhoneiros, que entrou nesta sexta-feira (25) no quinto dia, apesar do acordo firmado na noite de quinta-feira.

Mesmo com a câmara de compensação proposta pelo governo, que manterá, por meio de subvenções bancadas pelo Tesouro, o preço do diesel estável para os distribuidores, o que se constata nesta sexta é a ampliação dos pontos de retenção das estradas e não a redução do movimento, como esperava o governo.

Locaute é caracterizado quando empresários de um setor contribuem, incentivam ou orientam a paralisação de seus empregados. Ou seja, é uma greve liderada pelos patrões, com o intuito de obter benefícios para o setor, o que é proibido por lei.

Segundo o jornal "O Estado de S. Paulo" apurou, a avaliação do próprio governo é de que o Planalto subestimou a proporção que a mobilização poderia tomar, um erro do sistema de inteligência, que é comandado pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

Interlocutores diretos do presidente comentaram que, como esta não era a primeira greve de caminhoneiros nos últimos tempos — e em todas elas, o movimento arrefecia ao final de alguns dias —, a avaliação era de que não haveria dificuldade em chegar a um acordo rapidamente.

A possibilidade de locaute começou a ser pensada na terça-feira (22), quando a paralisação ganhou dimensão nacional. O quadro foi agravado a partir da quarta-feira (23).

Embora o governo reconheça que há, sim, uma mobilização fortíssima dos caminhoneiros autônomos, que representam mais da metade dos trabalhadores da área, acredita também que a paralisação só chegou ao ponto em que está por ter apoio do empresariado.

O governo reconhece que a gravidade da situação subiu alguns andares neste momento e a tensão aumenta no Planalto. No domingo passado, quando foram realizadas as primeiras reuniões com o presidente Michel Temer, no Palácio do Jaburu, nem ele nem seus ministros imaginavam que a situação pudesse chegar onde chegou, com tendência de agravamento ainda maior, sem precedentes no País.

Por enquanto, todos no governo estão cautelosos e falam apenas em "indícios", "possibilidades" e não querem fazer acusações diretas. Sabem que também é grande a mobilização dos caminhoneiros autônomos. E já há outros segmentos aderindo aos protestos, por conta do preço da gasolina.

Mas, segundo apurou o jornal O Estado de S. Paulo, o governo está convencido de que o dedo dos patrões levou o movimento a este ponto e isso mudou o perfil da greve, que começa a dar sinais de que pode ficar fora de controle. É crescente o problema de desabastecimento no País.

O fato de os pontos de paralisação terem aumentado após o anúncio do acordo na noite de quinta, sinaliza, segundo fontes do Planalto, que o movimento acredita continuar contando com apoio da população e que conta com a adesão de outras categorias nos protestos, como taxistas, motoristas de aplicativo e motoboys.

Por isso também aumenta a preocupação, no interior do governo. O temor é que o problema saia do controle se houver adesão explícita de outro segmento da população, já que também há uma insatisfação enorme com os reajustes diários dos demais combustíveis. 

Por enquanto, embora todos estejam assustados com a persistência e crescimento dos problemas com a manutenção e aumento da paralisação, o governo evita falar em outras medidas para desobstrução de pistas porque não tem como obrigar os motoristas a trafegarem nas estradas e abastecerem supermercados e postos de gasolina, por exemplo, que já sofrem com a falta de produtos.

Arte/R7