'Presidente queria alguém na PF com quem pudesse colher informações': dez frases cruciais de Moro em seu anúncio de demissão

Agora ex-ministro da Justiça diz que interferência política pretendida por Bolsonaro atrapalharia funcionamento da Polícia Federal

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Agora ex-ministro da Justiça diz que interferência política pretendida por Bolsonaro atrapalharia funcionamento da Polícia Federal.

Agora ex-ministro da Justiça diz que interferência política pretendida por Bolsonaro atrapalharia funcionamento da Polícia Federal.

Marcelo Camargo /Ag Brasil

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, anunciou seu pedido de demissão do governo Jair Bolsonaro nesta sexta-feira (24), admitindo publicamente as divergências com o presidente em torno da troca de comando na cúpula da Polícia Federal.

A demissão ocorre após Bolsonaro exonerar Maurício Valeixo, diretor-geral da PF que havia sido indicado por Moro.

A seguir, selecionamos as 10 frases mais importantes do pronunciamento público feito por Moro:

1. "Passou a haver uma insistência (do presidente Jair Bolsonaro) pela troca do comando da PF. (...) Não é aceitável que se façam indicações políticas. E quando se começa a preencher cargos por questões político-partidárias, o resultado não é bom para a corporação."

2. "Disse ao presidente que não tenho problema em trocar o diretor-geral da Polícia Federal, mas preciso de uma causa - seja insuficiente desempenho ou (o cometimento de) um erro grave. E o trabalho (de Valeixo) estava sendo bem feito. Não é uma questão de nome, porque temos outros bons nomes, de delegados competentes. O problema é a violação da promessa que eu tive, de ter carta branca."

3. "Estaria claro que haveria uma interferência política na Polícia Federal, que gera um abalo à credibilidade minha, mas também do governo. Ia gerar uma desorganização na Polícia Federal."

4. "Isso (interferência política sobre a PF) não aconteceu durante a Lava Jato, apesar de todos os problemas de corrupção dos governos anteriores."

5. "Busquei postergar essa decisão (de deixar o governo), sinalizando que poderia concordar (com a troca na PF). Mas cada vez mais me veio a sinalização de que isso seria um grande equívoco. Ontem, falei para o presidente que isso seria uma interferência política. 'Seria mesmo', ele falou."

6. "Mais de uma vez o presidente me disse mais de uma vez que ele queria (no comando da PF) alguém do contato pessoal dele, com quem ele pudesse colher informações e relatórios de inteligência, e não o papel da PF prestar esse tipo de informação. As investigações têm que ser preservadas. A autonomia da PF é um valor fundamental que temos que preservar. (...) Então quem (entra nessas condições), eu fico na dúvida se vai conseguir dizer não (a pedidos de interferência do presidente)."

7. "A exoneração (de Valeixo) eu fiquei sabendo pelo Diário Oficial. Não assinei esse decreto. Em nenhum momento isso me foi trazido, em nenhum momento ele (Valeixo) apresentou um pedido formal de exoneração. Sinceramente fui surpreendido."

8. "Eu não tinha como aceitar essa substituição, pela minha biografia como juiz em respeito à lei, ao Estado de Direito e à impessoalidade no trato das coisas com o governo. Não me senti confortável."

9. "Tenho que preservar minha biografia, mas acima de tudo tenho que preservar o compromisso que assumi inicialmente pelo próprio presidente, de que seríamos firmes no combate à corrupção, ao crime organizado e à criminalidade violenta. E o pressuposto necessário para isso é garantir a autonomia da PF contra interferências políticas."

10. "Vou providenciar minha carta de demissão. Não tenho como persistir no compromisso que assumi sem ter condições de trabalho, sendo forçado a concordar com uma interferência na PF cujos resultados são imprevisíveis. (...) O meu futuro pessoal: abandonei 22 anos de magistratura, o que infelizmente é um caminho sem volta. Mas eu sabia os riscos. Vou descansar um pouco. (...) Vou procurar mais adiante um emprego, no serviço público. Onde quer que esteja, sempre vou estar à disposição do país."