Operação Lava Jato
Brasil Quem é o empresário protagonista das delações da JBS?

Quem é o empresário protagonista das delações da JBS?

Relação próxima de políticos e poder público alçou o império de Joesley Batista

Quem é Joesley Batista, o empresário por trás das delações da JBS?

Joesley Batista é o rosto por trás das denúncias da Lava Jato desta última semana

Joesley Batista é o rosto por trás das denúncias da Lava Jato desta última semana

Danilo Verpa/Folhapress

Desde a última quarta-feira, o Brasil quer saber quem é de verdade o empresário que colocou fogo no País e foi gozar sua delação premiada em um apartamento luxuoso de Nova York. Joesley Batista e seu irmão Wesley são donos da JBS, proprietária da marca Friboi, e faturaram no ano passado R$ 170 bilhões.

Os irmãos transformaram um pequeno frigorífico de Goiás na maior empresa de proteína animal do mundo. Nessa ascensão carregaram pelo caminho diversas denúncias de corrupção ativa, sobretudo, durante os governos petistas. Eles são acusados de receberem bilhões de reais em recursos públicos em troca de um monstruoso propinoduto que irrigava todas as instâncias da República. 

O diretor da JBS Ricardo Saud listou, em delação premiada, doações que somam quase R$ 600 milhões para 1.829 candidatos de 28 partidos. Segundo o executivo, com este investimento a empresa conseguiu eleger 179 deputados federais de 19 siglas, bancou 28 senadores e empossou 16 governadores.

Goiano de Formosa, Joesley assistiu à revelação de diálogos com o senador Aécio Neves e com o presidente Michel Temer gravados antes da assinatura de um acordo de delação premiada através dos quais ambos políticos são acusados de tentar obstruir a operação.

Os irmãos Joesley e Wesley Batista fecharam o acordo após a realização de uma série de operações da PF (Polícia Federal) que tinham a J&F, holding controlada pelos dois, como um dos alvos - envolvendo, inclusive, denúncias de irregularidades na aprovação de empréstimos do BNDES. A pressão foi feita também por parte do MPF (Ministério Público Federal), que pediu à Justiça o bloqueio de R$ 3,8 bilhões das empresas.

Pelo acordo de delação premiada firmada com o MPF, Joesley e Wesley não seriam presos ou usariam tornozeleira eletrônica, preservando a si mesmos e suas empresas. A Joesley inclusive foi permitido continuar morando nos EUA, longe dos holofotes que apontam para ele após o escândalo desta cena que forçou Temer a se pronunciar em público que não renunciaria. A única penalidade que sofreriam seria o pagamento de uma multa de R$ 225 milhões.

No entanto, estima-se que através de especulação cambial jogando com o impacto das suas próprias revelações, eles lucraram cerca de quatro vezes este valor. Sem identificar as fontes, o jornal Valor Econômico disse que a Comissão de Valores Mobiliários identificou um lucro superior a US$ 1 bilhão horas antes do vazamento da notícia sobre o acordo de delação.

Sob o cerco das autoridades

Os irmãos Joesley e Wesley Batista são alvos de ao menos cinco operações da PF nos últimos 12 meses. Na última delas, a Operação Bullish, deflagrada no dia 12 de maio, Wesley foi levado coercitivamente a depor na PF. Joesley também foi chamado, mas já havia fugido para os EUA. Segundo as investigações prévias do TCU (Tribunal de Contas da União) que motivaram a operação, a J&F teria recebido repasses de R$ 8,1 bilhões sem a apresentação de garantias e com a dispensa indevida de prêmio contratualmente previsto. Por conta dessa operação, a fraude teria gerado um prejuízo de R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos.

Em abril, o TCU já havia julgado irregular a compra da americana Swift Foods pela JBS, em 2007, em uma das operações feitas pelo BNDES com o frigorífico.

Na Lava Jato, Joesley é investigado nas operações Sépsis, Greenfield e Cui Bono. As investigações apuram se ele teria realizado o pagamento de propina para liberar recursos do FGTS e investimentos de fundos de pensão de estatais em suas empresas.

A JBS também esteve envolvida nos escândalos do setor alimentício reveladas pela operação Carne Fraca, revelada no início de 2017. Ao lado de outras gigantes do setor, como Seara, Sadia, Perdigão e Vigor, a JBS foi acusada de tentar mudar a data de validade de seus produtos, além de ser apontada em um esquema de corrupção entre frigoríficos e fiscais para acelerar a liberação de produtos.

Afinal, quem é o protagonista de um dos maiores episódios da operação comandada pelo juiz federal Sérgio Moro?

À frente do frigorífico JBS e da holding J&F, Joesley Batista, 44, e o irmão, Wesley, levaram o açougue criado pelo pai nos anos 50 para abastecer os refeitórios das empreiteiras que construíram Brasília ao status de maior empresa privada do Brasil em termos de receita, em 2015, e maior processadora de carne bovina do mundo.  Este caminho foi percorrido com uma estratégia agressiva de aquisições aliada a intensa participação no cenário político do país.

Em 2014 a dona da marca Friboi foi a maior doadora para as campanhas eleitorais à presidência, congresso e governos estaduais, desembolsando R$ 391 milhões que apoiaram a vitória da chapa formada por Dilma Rousseff e Michel Temer, além de seis governadores e 164 deputados federais. A empresa também doou para a campanha de Aécio Neves (PSDB-MG), senador que ficou em segundo lugar na disputa presidencial e que hoje é um dos principais alvos da operação Patmos, desdobramento da Lava Jato deflagrada nesta quinta-feira (18) em desdobramento das acusações dos irmãos Batista.

Naquele ano, o valor doado correspondeu a quase 40% de todo o seu lucro líquido registrado em 2013, e quase um quinto do dinheiro que tomou emprestado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) entre 2005 e 2014. O período de doações generosas coincide com a data inicial de liberação dos recursos do banco estatal e com a ocupação de Joesley da presidência executiva da JBS, que ocupou até 2011, passando o bastão ao irmão.

Em 2006, um ano após o início dos empréstimos, foram R$ 12 milhões em doações. Quatro anos depois, foram R$ 63 milhões, e, em 2014, R$ 366,8 milhões, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os empréstimos da empresa junto ao BNDES e as doações aos partidos políticos são legais. As doações foram declaradas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), como manda a lei. Fato é que de A empresa terminou 2016 com um faturamento de R$ 170 bilhões, quase 50 vezes o os R$ 3,5 bi registrados 13 anos antes.

Os irmãos sempre negaram que tivessem cometido irregularidades na obtenção de recursos públicos.

Formação de um império

Na gestão de Joesley, a JBS se internacionalizou. Sua atuação na presidência executiva, entre 2006 e 2011, consolidou a empresa como a maior processadora de carne bovina do mundo, por meio de uma série de aquisições - boa parte com a ajuda do BNDES. Depois disso, passou o controle ao irmão, Wesley.

A JBS faz parte um conglomerado que controla empresas muito além do ramo da pecuária. Entre suas atividades estão a JBS (dona das marcas Friboi e Seara), a Alpargatas (proprietário das Havaianas), os produtos de limpeza Minuano, o banco Original e até uma empresa do ramo de celulose.

As Alpargatas, por exemplo, foram uma das maiores aquisições da holding, em 2015, por R$ 2,67 bilhões. Contando ainda com o frigorífico Swift sob seu leque, o conglomerado soma fábricas em 20 países, incluindo os EUA e clientes em todos os continentes.

Hoje, 80% da operação da JBS está fora do Brasil, o que é também motivo de crítica dos analistas. Eles questionam o fato do banco ter despejado tanto dinheiro em um grupo cujos negócios estavam sendo desenvolvidos no exterior, o que não geraria nem empregos nem renda no Brasil.