Record TV acha o pior e o melhor do brasileiro na fronteira com Uruguai

Repórteres enfrentaram jornada de 1.500 quilômetros para mostrar a única fronteira do Brasil com países vizinhos que ainda estava aberta 

Tensão e boa vontade marcam viagem até o Uruguai

Tensão e boa vontade marcam viagem até o Uruguai

Thiago Samora/Record TV

Esta não é uma história de heróis ou de loucos, mas de dois jornalistas que em meio à crise do coronavírus saíram em uma jornada de 1.500 quilômetros para mostrar a única fronteira do Brasil com países vizinhos que ainda estava aberta. No meio do caminho, tudo mudou e a fronteira com o Uruguai foi fechada. Testemunhamos o melhor e o pior do ser humano nestes tempos de crise, tempos de epidemia, de incertezas, de coronavírus.

Decidimos na sexta-feira à tarde que iríamos seguir de São Paulo até Santana do Livramento, na divisa do Brasil com o Uruguai. Era uma tarde nublada de sábado, quando saímos de carro em direção ao Sul do país. No caminho, notamos um clima triste, silencioso por todas as cidades por onde passamos. Na estrada, apenas caminhoneiros resignados com seu destino, preocupados com a família, mas firmes em seguir seu caminho. Pernoitamos em um hotel no Centro de Curitiba. Bar e restaurantes do hotel fechados. Jantar impossível.

No dia seguinte, funcionários do hotel, inseguros, nos serviram café da manhã. Mãos tremulas e rostos cobertos por máscaras trouxeram a comida. Estavam preocupados se teriam emprego dali a uma semana. Caímos na estrada até Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. No caminho, começamos a perceber que alguma coisa havia mudado no país. Em um trajeto de quase 500 quilômetros observamos postos de combustível e restaurantes fechados. Normalmente, animados com os barulhentos caminhoneiros, estavam desertos e silenciosos.

Onde comer? Onde abastecer? A viagem ganhou contornos de filme de suspense. No interior do Paraná, encontramos um caminhoneiro com a mulher e dois filhos pequenos. A escola fechou e a boleia virou o refúgio para a família. Por sorte, ele encontrou um empresário que foi obrigado a fechar o negócio da família – um pequeno hotel, um restaurante e o posto de combustível que atende os caminhoneiros que trafegam entre o Sul e Sudeste.

Conversamos com ele, desolado, preocupado com os clientes e funcionários, disse que por solidariedade deixou os banheiros do posto abertos para quem quisesse usar. Está com medo do futuro. Mesmo sentimento do caminhoneiro que só queria chegar em segurança em casa. Prosseguimos viagem e encontramos uma cidade fechada. Isso mesmo, como na idade média, bloquearam as entradas com montes de terra e pedra. Ninguém entra era a mensagem.

Em Passo Fundo, começamos a sentir na pele o que é ser rejeitado dentro de seu próprio país. Como párias, fomos recebidos no hotel por funcionários contrariados. Café da manhã no quarto e caras amarradas que demonstravam uma mistura de ódio e desprezo pelos forasteiros. Ficou claro que não erámos bem-vindos e que queriam ver a gente longe dali.

Saímos na segunda-feira de manhã em direção à fronteira. A viagem foi ficando mais dura. Não havia lugar para almoçar. Achamos um mercado em uma pequena cidade. Novamente, funcionários simpáticos, mas com a tensão disfarçada nas máscaras brancas, nos atenderam quase que implorando para irmos embora logo.

Depois de quase sete horas de viagem chegamos a Santana do Livramento, cidade irmã de Rivera, no Uruguai, separadas apenas por uma rua. Nossa recepção em um hotel do Centro foi a cara de um Brasil sem empatia, onde o pior aflorou nestes tempos sombrios. Primeiro, um segurança e, depois, funcionários do hotel se aproximaram, mas mantendo distância como se nós fossemos perigosos inimigos. Em seguida, agressivamente disseram que nossa reserva havia sido cancelada durante nossa jornada e que não iriam nos receber.

“Aqui vocês não vão entrar. Não é problema nosso, onde vocês vão dormir. Avisamos quem tinha reserva que tudo estava cancelado”, disse.

Depois de protestarmos, fomos convidados a entrar enquanto procuraram um superior que pudesse resolver o impasse. Trêmulo, acovardado atrás de uma máscara, disse que era ordem da prefeita, que não queria ser multado, que tudo estava tenso com os funcionários e não havia jeito de nos receber. Tentamos explicar que nossa missão jornalística era mostrar o que estava acontecendo na fronteira do Brasil. 

Na direção contrária, demonstrando enorme empatia e solidariedade fomos abrigados em um outro hotel, ciente de que não estávamos ali a passeio. Funcionários e gestores nos receberam de forma gentil. Éramos nós e outros três hóspedes em um hotel com capacidade para umas trezentas pessoas. Em tempos normais, estaria cheio de turistas em busca de diversão, cassinos, vinhos e a hospitalidade da fronteira Sul.

O clima de tensão na cidade está em todos os lugares. Como não há restaurantes abertos, só restam os serviços de entrega. Pedimos uma pizza. Na hora de pagar, paramentado com máscara e luvas, o motoqueiro tremia ao pegar meu cartão como se eu estivesse com Ebola ou alguma doença contagiosa mortal. E eu apenas, era um jornalista de São Paulo, longe de casa tentando jantar.

Também encontramos muita gente boa pelo caminho. O oficial do Exército que nos recebeu à noite no quartel, entendeu nossa missão e nos ajudou. Também os jovens militares que abordaram um casal de brasileiros idosos, simples agricultores que estavam sem documentos e foram liberados e orientados a andar com os papéis. A prefeita de Santana do Livramento que nos atendeu e explicou os desafios da crise na fronteira.

Mas também mostrou que em meio à crise tem gente que se preocupa com o outro, que com pequenos gestos tenta tornar a vida menos dura, sofrida, sabendo que uma hora isso tudo vai passar.

PS.: Enquanto terminava este texto, recebemos e-mail do gerente de um hotel de Curitiba informando que nossa reserva havia sido cancelada. E que nos virássemos para encontrar um lugar para dormir.

Assista ao vídeo abaixo: