Santos Cruz deixa ministério do governo Bolsonaro; conheça a trajetória do militar

General que deixará ​o comando da Secretaria Geral da Presidência da República era responsável por áreas estratégicas no Planalto

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Santos Cruz comandou mais de 23 mil capacetes azuis da ONU no Congo

Santos Cruz comandou mais de 23 mil capacetes azuis da ONU no Congo

UN Photo/Sylvain Liechti/BBC Brasil

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz deixará ​o comando da Segov (Secretaria Geral da Presidência da República), um dos cargos-chave no governo de Jair Bolsonaro.

A informação foi confirmada à BBC News Brasil pelo porta-voz da Presidência da República, general Otávio Rêgo Barros.

Na Segov, Santos Cruz controlava áreas estratégicas do governo, como a comunicação do Planalto e o PPI (Programa de Parcerias de Investimentos), que atrai dinheiro da iniciativa privada para projetos de infraestrutura.

A área da comunicação é especialmente sensível — e alvo de interesses do filho do presidente Carlos Bolsonaro e de seus aliados, alguns dos maiores críticos à atuação do general.

No mês passado, Santos Cruz virou o alvo mais recente de ataques de olavistas a militares do governo, capitaneados pelo escritor Olavo de Carvalho.

Fogo cruzado

Santos Cruz recebeu xingamentos em série do "guru" de Bolsonaro nas redes sociais, foi publicamente criticado pelo filho de Bolsonaro, Carlos, e sofreu uma onda de ataques no Twitter que disseminou a hashtag #ForaSantosCruz.

O general, que já sobrevivera a uma aterrissagem de emergência depois de ter seu helicóptero alvejado por rebeldes no Congo, aparentemente havia passado sem grandes danos pelos ataques virtuais. Em maio, o governo foi a público negar especulações de que seria demitido.

As críticas à sua atuação vêm da ala ideológica do governo, também ligada a Carvalho. O grupo diverge do perfil de Santos Cruz que, assim como os outros militares do governo, é visto como parte de uma ala mais "moderada" do bolsonarismo.

Questionando as credenciais de Santos Cruz, os olavistas tentaram manobrar para que Bolsonaro reduzisse o seu poder, e tirasse a Secretaria de Comunicação (Secom) de seu controle e até o exonerasse.

Santos Cruz se nega a falar sobre as acusações de Olavo de Carvalho

Santos Cruz se nega a falar sobre as acusações de Olavo de Carvalho

Adriano Machado/Reuters

Discreto, conhecido pela expressão sisuda que gerou até memes na internet, Santos Cruz se negava a falar sobre as agressões de Olavo de Carvalho - que chegou a chamá-lo de "seu merda" e "bosta engomada" nas redes sociais.

Dias depois das críticas, Carvalho foi agraciado pelo governo com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, o mais alto grau de condecoração oficial.

"Você vê pelo nível das coisas que não vale a pena nem responder", falou Santos Cruz à BBC News Brasil no começo de junho.

"Eu exerço minha função", disse. "Não tem muita consideração a fazer a não ser trabalhar. Para isso que a gente é pago, e é isso que a sociedade espera da gente. Não é ficar discutindo fofoca."

Os embates explicitam as divergências entre os dois grupos do governo que mais influenciam Bolsonaro: Carvalho, um "ícone" que trabalha "contra a ideologia insana" de esquerda; e os militares, a quem o presidente deve sua "formação e admiração".

Essas foram as palavras usadas pelo presidente ao considerar as desavenças uma "página virada".

Conheça abaixo a história do general de 67 anos que decidiu deixar a reserva para se aventurar na política.

Santos Cruz já tinha tido passagens pelo governo antes de integrar a cúpula de Bolsonaro. Durante o mandato de Dilma Rousseff, ocupou brevemente uma assessoria na Secretaria de Assuntos Estratégicos, à época nas mãos de Moreira Franco.

No governo de Michel Temer, chefiou a Secretaria Nacional Segurança Pública (Senasp), entre abril de 2017 e junho de 2018.

Quando a equipe de Bolsonaro estava se compondo, o general chegou a ser anunciado para voltar ao cargo na Senasp, ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado por Sérgio Moro. Dias depois, entretanto, o presidente anunciou seu nome para a Secretaria de Governo.

A secretaria foi criada no fim do governo Dilma, à época chefiada pelo petista Ricardo Berzoini, e no governo Temer foi controlada por Geddel Vieira Lima (MDB), Antônio Imbassahy (PSDB) e Carlos Marun (também do MDB). Nessa época, prevalecia a atribuição de fazer a articulação política com o Congresso.

Santos Cruz, no entanto, recebeu a pasta com outra configuração. A missão de fazer a articulação com o Legislativo passou prioritariamente à Casa Civil, sob Onyx Lorenzoni (DEM), com a Segov dando apoio à função, fiscalizando a liberação das emendas parlamentares impositivas e recebendo deputados e senadores.

Mas a Segov de Bolsonaro ganhou dois setores de peso: a Secom, responsável por toda a comunicação e verba publicitária do Planalto, atualmente com orçamento de R$ 109 milhões; e a Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos, que coordena o programa de parcerias com o setor privado em projetos de infraestrutura, criada no governo Temer.

As novas atribuições se somaram a outras responsabilidades da pasta, que controla as secretarias de Articulação Social, Assuntos Federativos e Relações Institucionais, entre outras.

Olavo de Carvalho acusou Santos Cruz de tentar "controlar a internet"

Olavo de Carvalho acusou Santos Cruz de tentar "controlar a internet"

Joshua Roberts/Reuters

Na disputa de influência entre militares e olavistas no governo, a ala ideológica questiona o poder de Santos Cruz sobre tantas áreas.

Batalha na Apex

As divergências ficaram explícitas com o episódio envolvendo a campanha publicitária do Banco do Brasil, por exemplo, e com a dança de cadeiras na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex).

A agência já está no terceiro presidente neste ano, o contra-almirante Sergio Segovia, aliado de Santos Cruz, que assumiu em maio e exonerou dois diretores "olavistas" ligados ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Já a propaganda do BB, que explorava o tema da diversidade e foi retirada do ar por determinação do Planalto, expôs uma discordância de Santos Cruz com o próprio presidente.

Embora Bolsonaro tenha vetado a campanha afirmando que "a massa quer respeito à família", Santos Cruz afirmou que a Secom não poderia interferir na publicidade de estatais. A Lei das Estatais veda esse tipo de interferência.

O episódio motivou críticas explícitas de Carlos Bolsonaro a Santos Cruz - afirmando nas redes sociais que havia "uma comunicação falha há meses da equipe do presidente", e que ele tinha "literalmente se matado" para tentar melhorá-la.

Atualmente, os gastos do governo federal em publicidade, incluindo as estatais, não são divulgados de forma transparente. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica divulgam, por exemplo, que veículos de mídia foram pagos pelas instituições, mas não discriminam valores.

Militares  descrevem a trajetória de Santos Cruz no Exército como "exemplar"

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Sylvain Liechti/UN Photo