Temer diz que gravações são fraude e ataca Joesley Batista em pronunciamento

Presidente irá pedir suspensão de inquérito acatado pelo ministro do STF Edson Fachin

Temer falou novamente após a divulgação de gravações e delações

Temer falou novamente após a divulgação de gravações e delações

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Em pronunciamento realizado na tarde deste sábado (20) no Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer afirmou que entrará com pedido no STF (Supremo Tribunal Federal) para suspender o inquérito contra ele até que seja verificada a autenticidade dos áudios gravados pelo delator Joesley Batista em conversa com o presidente no dia 7 de março. O inquérito foi solicitado pela PGR (Procuradoria Geral da República) e acatado pelo ministro do STF Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo.

Na fala de de 12 minutos e meio desta tarde, Temer citou reportagem do jornal Folha de S.Paulo sobre a perícia realizada nas gravações e na qual o perito Ricardo Caires dos Santos, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, afirma haver mais de 50 edições.

— Esta gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos.

O presidente aproveitou para atacar Joesley Batista, proprietário do frigorífico JBS e autor das gravações.

"Devo dizer que não acreditei na narrativa do empresário de que teria assegurado juízes, etc. Ele é um conhecido falastrão exagerado", comentou, falando ainda que o autor do grampo não foi punido pelo cometeu que o Temer chamou de "o crime perfeito".

— Não passou nem um dia na cadeia, não foi fulgado, não foi preso. E pelo jeito nem será.

Temer disse que as falas da gravação não são coerentes com o que foi comentado pelo empresários aos procuradores da república em delação premiada feita após o registro dos diálogos.

Contra o delator, Temer citou ainda a investigação feita pela Comissão de Valores Mobiliários, segundo a qual Joesley Batista teria lucrado U$ 1 bilhão ao especular em dólares e ações horas antes da divulgação das conversas. O presidente falou que o empresário cometou "um crime perfeito" e fugiu para os EUA.

Segundo a investigação, os irmãos Batista compraram dólares e venderam ações da própria empresa na bolsa de valores, sabendo que a divulgação das gravações elevaria o valor da moeda americana e derrubaria a bolsa no dia seguinte. No dia 18 de maio a Bovespa teve sua maior queda em nove anos, chegando a interromper o pregão por 30 minutos.

— Ele prejudicou o Brasil, enganou os brasileiros, e agora mora nos Estados Unidos.

Temer também aproveitou para defender seu governo e as reformas defendidas por ele. Segundo ele, o país voltou aos trilhos e não sairá deles por causa das delações divulgadas nesta semana, apesar de reconhecer que "vive agora dias de incerteza".

Quem é o empresário protagonista das delações da JBS?

JBS ajudou a financiar campanhas de 1.829 candidatos de 28 partidos

Defesas públicas

Este foi o segundo pronunciamento do presidente nos últimos três dias. Na última quinta-feira (18) Temer veio a público anunciar que não renunciaria ao cargo, possibilidade levantada após as denuncias feitas pelo jornal O Globo na noite anterior, baseadas nos diálogos de Joesley Batista, dono do frigorífico JBS, com o presidente, gravados em 7 de março.

As gravações levaram ao pedido de abertura de inquérito, acatado pelo STF, por suspeita de três crimes: corrupção passiva, obstrução à investigação de organização criminosa e participação em organização criminosa. Os detalhes do pedido feito pela PGR e autorizado pelo ministro Edson Fachin contra Michel Temer, o senador Aécio Neves (PSDB) e o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) foram divulgados na última sexta-feira (19).

Veja o pronunciamento na íntegra:

Entenda a crise deflagrada por Joesley Batista

Na quarta-feira (17) a noite, através de sua página na internet de internet, o jornal O Globo denunciou que diálogos gravados em 7 de março deste ano pelo empresário Joesley Batista com Michel Temer mostrariam que o presidente deu aval a uma suposta compra de silêncio do deputado cassado e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Com a divulgação dos áudios o episódio não fica claro.

Ao lado do irmão Wesley, Batista é proprietário do frigorífico JBS, dono da marca Friboi e maior doador de campanhas em 2014, repassando ao todo R$ 391 milhões que apoiaram a vitória da chapa formada por Dilma Rousseff e Michel Temer, além de seis governadores e 164 deputados federais naquele ano.


As gravações levaram ao pedido de abertura de inquérito, acatado pelo STF, contra Michel Temer, o senador Aécio Neves (PSDB) e o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) por suspeita de três crimes: corrupção passiva, obstrução à investigação de organização criminosa e participação em organização criminosa. O pedido de inquérito foi feito pela PGR (Procuradoria-Geral da República) e autorizado pelo ministro do STF Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo.

Nos diálogos com o empresário,  em 24 de março, Aécio menciona barrar a Operação Lava Jato e anistiar o caixa dois no Congresso. O tucano ainda menciona matar o responsável por receber a propina “antes de fazer delação”.

Após as gravações de Temer e Aécio, os irmãos Batista acordaram uma delação premiada e entregaram aos investigadores os áudios produzidos. Eles são investigados, no entanto, por enriquecimento de U$ 1 bilhão ao especular na bolsa de valores e com dólares horas antes da divulgação das conversas.

Michel Temer se pronunciou duas vezes desde a divulgação das gravações. Na primeira oportunidade, em em 18 de maio, anunciou que não renunciaria ao cargo. No sábado, 20 de maio, afirma que irá entrar com suspensão do inquérito no STF até que sejam verificados os diálogos registrados.