Assistência médica chega às terras indígenas isoladas do Vale do Javari

Localizado nas entranhas da Amazônia brasileira, o Vale do Javarí, território com o maior número de indígenas isolados do mundo, está cercado pela covid-19, o que forçou o governo brasileiro a mobilizar as Forças Armadas para conter o avanço da doença entre as tribos.

Carregado com toneladas de equipamentos médicos, um avião militar pousou esta semana nas margens do rio Javarí, na fronteira com o Peru, para reforçar os cuidados de saúde para a população da região remota no país e, assim, impedir a propagação do vírus entre os 7 mil índios, de seis grupos étnicos diferentes, que vivem isolados.

O vírusjá circula em pelo menos 4 das 63 aldeias que compõem essa reserva indígena, que se estende por cerca de 85.450 quilômetros quadrados e compreende grande parte do município de Atalaia do Norte.

Apesar de não ter registrado nenhuma morte pela doença entre comunidades isoladas, as autoridades de saúde mantêm 13 casos sob suspeita e já confirmaram 32 infecções.

"Atenderemos a população indígena e não indígena" do Vale do Javarí sem entrar em contato com os povos indígenas isolados, que se comunicam via rádio com os serviços de saúde, respeitando assim "a decisão dessas pessoas de não manter contato", explicou a Efe, o Secretário Especial de Saúde Indígena Robson Santos da Silva.

Para impedir a disseminação do vírus, a missão do governo enviou uma equipe de médicos e militares, além de toneladas de material para unir forças com o pessoal de saúde e os soldados dos batalhões do Exército da região de fronteira que já estão ajudando pessoas locais.

A equipe viajou para a remota cidade de Palmeiras do Javarí, uma humilde cidade na floresta amazônica, cercada por uma vegetação exuberante e rios, e sete dias de barco da cidade de Tabatinga, na fronteira com Letícia, na Colômbia.

Entre os pelotões da região está o jovem soldado indígena de Cabo Araújo, de 24 anos, cujo papel é fundamental para facilitar o contato entre as Forças Armadas e seus "parentes", como os povos indígenas se chamam.

"Apesar de pertencer à etnia Ticuna e estar em uma área predominantemente majoritária, Cabo Araújo era necessário para interpretar um diálogo com os parentes, abrindo caminhos para cumprirmos nossa missão", disse o capitão Pimentel à Efe, comandante da Companhia Especial de Fronteiras, recordando uma antiga operação no município de Tabatinga.

Ser capaz de "adicionar" nessa operação foi algo "gratificante" para Araújo, que garantiu que as tribos "sempre" são "curiosas" ao interagir com soldados indígenas como ele.

"Eles sempre perguntam se somos realmente indígenas e acabamos mostrando que realmente somos", comenta ele como uma piada.

Sob a responsabilidade do capitão Pimentel, existem 280 pessoas que servem dois pelotões na fronteira com a Colômbia e duas outras na fronteira com o Peru.

Pimentel explicou que oitenta por cento dos soldados são indígenas, algo de "grande valor" para o exército de fronteira por causa de seu "conhecimento local, habilidades particulares e inerentes às tribos indígenas".

O Mistério da Saúde, com o apoio logístico do Ministério da Defesa, iniciou essa missão de saúde em 17 de junho, quando o avião militar no qual 23 profissionais de saúde embarcavam decolou de Brasília em direção ao estado da Amazônia.

Antes de chegar ao Vale do Javarí, o avião parou em Manaus, capital do estado, para coletar 3,5 toneladas de equipamentos médicos, incluindo 70.000 equipamentos e suprimentos de proteção individual, incluindo 16 ventiladores de pulmão, máscaras, luvas, álcool testes rápidos e em gel para detectar o vírus.

Um olhar perspicaz podia ser lido nas caixas que o equipamento carregava, de origem chinesa, uma citação de uma das maiores penas da poesia brasileira, Carlos Drummond de Andrade: "O presente é tão grande que não nos afastamos muito. Não nos afastamos muito. Vamos de mãos dadas ", disse ele.

Além de cuidar de pessoas com sintomas de gripe e realizar testes de coronavírus, a operação também fortaleceu os cuidados de saúde nesta cidade de difícil acesso, que carece de pessoal e suprimentos médicos.

"Quando não temos cuidados ou remédios aqui, vamos para o Peru", disse a vizinha Aquila Dias Paxeco à Efe, explicando que o país vizinho fica a uma hora de canoa.

A mulher, acompanhada pelo filho de 9 meses, que recebeu tratamento para dores nas costas, também pediu um check-up médico geral para o menino, "que está começando a comer comida".

O avanço da covid-19 nos territórios do interior da Amazônia despertou esse imenso estado, que abriga a maior população indígena do Brasil e que já preocupava as autoridades por sua falta de assistência médica.

Atualmente, entre a população indígena do país, existem 3.740 casos confirmados de coronavírus e as mortes chegam a 111, segundo o último boletim da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) do Ministério da Saúde do Brasil.

O Brasil é o segundo país do mundo com mais casos da doença, que continua avançando e já deixa 47.748 mortes e quase um milhão de infecções.