Brasília 40 pré-candidatos lançam vaquinha on-line para campanhas no DF

40 pré-candidatos lançam vaquinha on-line para campanhas no DF

Tribunal Superior Eleitoral autorizou arrecadação virtual de recursos há apenas 2 semanas; postulantes da direita são maioria

  • Brasília | Jéssica Moura, do R7, em Brasília

Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

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Duas semanas depois que a Justiça Eleitoral liberou os pré-candidatos a promoverem vaquinhas on-line, pelo menos 40 já lançaram as campanhas de arrecadação de recursos e outros 35 preparam as campanhas. Ao todo, 15 plataformas estão autorizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a prestar o serviço aos postulantes a cargo público. Em 2018, 215 candidatos fizeram o financiamento coletivo. 

Até agora, a maior parte dos que estão passando o chapéu virtual pretendem disputar uma vaga na Câmara Legislativa do DF (34), como Pedro Ivo (União-Brasil), que chegou a R$ 29.602,50, ou à Câmara dos Deputados (5). Considerando o espectro político, no DF, os filiados a partidos a direita predominam sobre os de esquerda, o que vai na contramão da tendência nacional.

"Esses movimentos conservadores vêm crescendo no Brasil desde 2014, nasceram no digital pedindo que as pessoas contribuíssem. Eles têm um sentimento de participação de que têm que sustentar o movimento, com olhar mais forte para arrecadação virtual", analisa o consultor em mobilização política de rua Fabrício Moser.

Com os dados levantados a partir das últimas duas eleições, é possível constatar que o perfil de eleitores jovens, entre 22 e 30 anos, familiarizados com o uso de ferramentas digitais, predominam entre os doadores. "Eleitores que costumam ter uma vida digital ativa, usuários de bancos digitais, redes sociais, entre outras. Já o público maior de 60 anos é praticamente inexistente nas doações coletivas", destaca o cientista político do Ceub Alessandro Costa.

Pré-candidaturas

Essa é a segunda vez no DF em que os pré-candidatos podem utilizar essa estratégia de arrecadação, regulamentada na reforma eleitoral de 2017. Dois anos antes, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu as contribuições de empresas às campanhas políticas. Por isso, o crowdfunding (nome dado às vaquinhas virtuais) é uma alternativa para financiar os gastos. Os depósitos recebidos pelas plataformas são limitados a R$ 1.064,10 por vez. Os doadores, que têm de ser pessoas físicas, podem repassar até 10% da renda bruta recebida no ano anterior.

"A gente não tem noção do quanto vai vir do partido e quanto vai ser destinado para Brasília e depois para os distritais. A gente optou pela vaquinha para ter recurso. Hoje, o recurso é zero, estamos tentando nos antecipar", explica Wagner Castro, coordenador de marketing da pré-campanha do irmão, Daniel de Castro, ex-administrador de Vicente Pires, à CLDF.

Na eleição passada, eles também usaram a estratégia. "Foi terrível, entrou muito pouco", disse. Desta vez, Castro não estabeleceu uma meta, e as arrecadações não têm limite na plataforma. "Vai para mão de obra e também campanha digital com links patrocinados no Google Ads."

Por ora, entre os oito pré-candidatos ao governo local, apenas Leandro Grass (PV) adotou o financiamento coletivo. Para ele, a desigualdade na distribuição de recursos públicos dos fundos partidário e eleitoral desfavorece os partidos menores.

"Sou professor e não conto com nenhuma outra renda a não ser meu salário. A gente quer que o financiamento coletivo seja nossa principal fonte", ressaltou. "[A plataforma] Não é só para doar dinheiro, é uma forma de expressar nosso projeto político." Isso porque as páginas pessoais permitem a inserção de conteúdos, como textos e contatos.

Relevância das vaquinhas

Mesmo começando a arrecadação antecipadamente em 15 de maio, o dinheiro reunido com doações de pessoas físicas só pode ser movimentado depois do registro da candidatura na Justiça Eleitoral, cujo prazo termina em 16 de agosto. Sem o registro, ou se o postulante desistir da eleição, os recursos são devolvidos aos doadores. As contribuições podem ser feitas até 2 de outubro, data do pleito.

Para Fabrício Moser, a vaquinha on-line é equiparada a um "jantar de adesão". "Deveria ser um 'plus', a cereja do bolo. Não acredito que tenha poder ainda, no Brasil, de combater a desigualdade na distribuição da verba. Tem muitos candidatos pequenos que não são cabeças de chapa, o dinheiro não é distribuído de maneira igualitária", avalia. "A maioria das campanhas que tendem a vencer não vão contar com esse financiamento, continuarão com o tradicional. Não dá para confiar só nisso".

A reforma eleitoral ainda definiu limite de custos para as campanhas e aprovou a criação do fundo eleitoral, que substituiu o dinheiro que antes vinha das doações de empresas. Neste ano, R$ 4,9 bilhões serão distribuídos aos partidos, conforme o tamanho das bancadas na Câmara e no Senado. Além disso, cada legenda define como será a divisão interna desse dinheiro.

"Esse ainda baixo uso do financiamento coletivo pode ser, em parte, explicado pelo aumento expressivo dos fundos eleitoral e partidário nos anos de 2018, 2020 e se repetindo agora em 2022, o que acaba reduzindo o peso proporcional das demais fontes de financiamento", assinala Alessandro Costa.

Por isso, legendas com menos representantes incentivam os candidatos a promoverem as vaquinhas. "É uma forma de mobilizar a base de apoio e traz ajuda financeira para as campanhas", diz o presidente do PSB-DF, Rodrigo Dias. A mesma posição tem o partido Novo no DF, em que boa parte dos pré-candidatos lançaram vaquinhas. "Tendo em vista que o Novo não utiliza o Fundo Partidário, nem o Fundo Eleitoral, orienta e assessora juridicamente seus pré-candidatos a fazerem arrecadação", diz Nelio Domingues, presidente regional da sigla.

Demanda crescente

Os gerentes das plataformas que oferecem o serviço de financiamento coletivo avaliam que a demanda por parte dos pré-candidatos pelas vaquinhas aumentou se comparado com o pleito anterior. "Nas eleições passadas tive que correr bastante atrás de candidatos, nessa agora estou sendo mais procurado por eles", diz Valmir Peixoto, proprietário da Cédula Real, plataforma de financiamento coletivo autorizada pelo TSE. "O fato de terem deputados federais na disputa aumenta o interesse nessa arrecadação."

"A arrecadação já é bem expressiva para apenas duas semanas", complementa o CEO da Democratize, Bernardo Curic. Segundo ele, considerando todos os pré-candidatos cadastrados, em apenas 10 dias, já alcançaram cerca de R$ 200 mil, 10% dos R$ 2 milhões reunidos ao longo de toda a campanha em 2018. Curic argumenta que a novidade de pagamentos via Pix facilitou as doações. Esses depósitos representam 71,9% das arrecadações da Democratize.

Já o representante da Elegis, Dionattan Coutrin, diz que quem opta por lançar a candidatura, em geral, já tem bandeiras bem definidas, que são divulgadas nas páginas. "Esse pré-candidato com atuação mais forte segmentada tem mais adesão nas doações", ressalta.

Apesar da maior procura por parte dos pré-candidatos, há menos empresas oferecendo o serviço. Em 2020, 50 tiveram os pedidos deferidos e, neste ano, são 15. "O que pode ter ocorrido é que não deu o retorno desejado nas eleições municipais", sugere Valmir Peixoto. Ele mesmo avalia se vale a pena financeiramente liberar a plataforma diante da concorrência.

Cultura de doação

Para os especialistas, ainda que o financiamento coletivo seja marginal nas campanhas, a tendência é que ganhe protagonismo nas próximas eleições. "Está se criando a cultura no Brasil de que, o eleitor que é contra o 'fundão' vai ter que fazer como nos Estados Unidos e financiar as campanhas", argumenta Fabrício Moser.

"Em 2022 devemos ter o uso dessa ferramenta consolidada a partir das experiências de 2018 e 2020, aliando o instrumento a uma campanha publicitária que leve aos eventuais eleitores e colaboradores informações claras sobre como ajudar", acrescenta Alessandro Costa.

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