CPI da Covid

Brasília Médico diz que Prevent privilegiava redução de custos

Médico diz que Prevent privilegiava redução de custos

Segundo Walter Correa de Souza Neto, política da operadora era de coerção a seus funcionários

  • Brasília | Isabella Macedo, do R7, em Brasília

Walter Correa de Souza Neto é um dos 12 médicos que colaboraram para dossiê de denúncias contra a Prevent Senior

Walter Correa de Souza Neto é um dos 12 médicos que colaboraram para dossiê de denúncias contra a Prevent Senior

Pedro França/Agência Senado - 07.10.2021

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, o médico Walter Correa de Souza Neto afirmou que a Prevent Senior privilegiava a gestão de recursos e os custos dispensados em tratamentos em relação ao bem-estar dos pacientes. Souza Neto é um dos médicos que apresentaram um dossiê com denúncias contra a Prevent. 

Segundo o médico, que era plantonista do pronto atendimento da empresa, durante os oito anos que passou na empresa, sempre teve “inadequações” com a política da empresa. Souza Neto afirmou que tentou se manter como plantonista do pronto-socorro para evitar comprometimento com a ética médica e, quanto mais os funcionários avançavam na hierarquia da empresa, “maior a sua responsabilidade, maior o envolvimento com a política da empresa”, com a qual não concordava na maioria das vezes.

“Essa inadequação crônica eu tinha com a Prevent Senior por um modelo que era basicamente voltado para os custos e não, muitas vezes, para o bem-estar e para o que o paciente precisava”, disse o médico ao ser questionado sobre sua saída da empresa.

O depoente disse que é um hábito da empresa tratar pacientes como terminais.. “Acho que é claro, que fique bem claro, assim, que a Prevent não é Auschwitz, não vão levar todo mundo que vai entrar ali, eles vão paliar, mas, às vezes, pela gerência de recursos, que é extremamente, extremamente rígida, e com essa hierarquia rígida, isso muitas vezes induz o médico ao erro”, disse.

“Não estou dizendo também que não deva haver gestão de recursos e que isso pode ser até louvável em diversos contextos. Se você consegue gerir melhor os recursos, você atende um número maior de pacientes, entrega um serviço a um custo menor, isso é louvável, mas isso, na Prevent, muitas vezes passava do ponto”, completou o médico.

Apesar de a empresa se referir a cuidados paliativos como um tratamento para pacientes terminais, o conceito correto definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) abrange o tratamento de maneira ampla, com oferecimento de uma equipe multidisciplinar de profissionais para oferecer maior qualidade de vida de pacientes com doenças que ameacem sua vida, mas não necessariamente em situação terminal.

Coerção

Durante seu depoimento, o médico afirmou que a Prevent atua com uma política de coerção, ou seja, de repressão aos funcionários para que ajam de acordo com as diretrizes da empresa sem manifestar discordâncias. Souza Neto disse que o lema de “lealdade e obediência” que a Prevent anteriormente usava como guia para seus funcionários deixou de ser usado após processos contra a empresa começarem a chegar.

“Isso já não era usado há algum tempo, até porque eles começaram a receber processos com isso, porque ficava muito evidente a questão da subordinação com isso, e eles tomaram um pouco mais de cuidado. Essas coisas começaram a ficar veladas. Mas a política de coerção persistiu”, afirmou.

O médico chegou a disponibilizar à CPI a gravação que fez de uma ligação entre ele e o diretor-executivo da Prevent, Paulo Batista Júnior, em que o diretor da operadora pedia para que Souza Neto voltasse atrás em entrevistas que deu à imprensa ainda sob sigilo. Para ele, a política de repressão da empresa se mantinha mesmo após o desligamento, para proteger a imagem da operadora.

“A política de coerção da Prevent persiste até depois que você deixa a empresa. Eu tentei denunciar algumas irregularidades e fui ameaçado. Eles persistem até agora procurando um alvo de quem são os supostos, os médicos denunciantes, querendo colocar um alvo nas nossas costas”, afirmou.

A definição já tinha sido exposta à CPI pela advogada dos médicos denunciantes, Bruna Morato, que depôs à comissão na semana passada. Ela afirmou que a política ficou demonstrada pela obrigação de que os médicos prescrevessem o chamado “kit covid”, composto por medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

“A Prevent Senior tem uma política de coerção, que ficou bem evidente após a denúncia, na verdade; mais evidente ainda com o vazamento de alguns áudios. Todos os clientes que resistiam foram demitidos da operadora. Então, existiam aqueles que já tinham sido demitidos e que achavam aquela situação repugnante. Outros que ainda estavam na operadora ainda lutam pelo bem-estar dos pacientes”, afirmou a advogada no dia 28 de setembro à CPI.

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