Cidades “Aluno não perde só o ano, perde a própria vida”, diz vereadora sobre crise na educação do RN

“Aluno não perde só o ano, perde a própria vida”, diz vereadora sobre crise na educação do RN

Amanda Gurgel falou ao R7 sobre falta de professores e más condições das escolas no Estado

“Aluno não perde só o ano, perde a própria vida”, diz vereadora sobre crise na educação do RN

Amanda Gurgel defende investimento exclusivo na rede pública

Amanda Gurgel defende investimento exclusivo na rede pública

Divulgação

Em 2011, a então professora da rede pública do Rio Grande do Norte Amanda Gurgel participou de uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado. Na ocasião, ela queria falar sobre “as tantas angústias de quem está em sala de aula” e começou fornecendo um número: R$ 930. Esse era o salário base de um professor na época. “Queria perguntar a todos aqui se vocês conseguiram sobreviver ou manter o padrão de vida que vocês têm com esse salário”, questionou.

Desde então, a luta da professora por melhoria na educação se intensificou. Fora das salas de aula, Amanda foi eleita vereadora de Natal pelo PSTU e assumiu o cargo em 2013. No entanto, mesmo dedicada à vida pública, não renega sua vocação de professora.

— Optei pela educação pelo incentivo de alguns professores meus, os exemplos que eu observei e me inspirei e resolvi ser professora.

Amanda teve esse exemplo, mas lamenta que as gerações atuais não possam ter esse tipo de relação com seus professores. Nos últimos anos, o Estado tem sofrido com a falta de docentes em sala de aula. Para a vereadora, está claro quem acaba perdendo mais com essa situação.

— O aluno é o principal prejudicado porque ele não perde só o ano letivo de química, de biologia, de português ou de história. Não é só isso. Ele perde a própria vida.

A vereadora conversou com o R7 sobre a situação atual da educação no Estado, o déficit de professores e os desafios da área. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

R7 — Como você avalia esse problema de déficit de professores no Rio Grande do Norte?

Amanda Gurgel — É um problema estrutural. Não é só falta de professores, esse é apenas um aspecto, mas a precariedade que existe dentro das escolas no que se refere a estrutura física, tudo isso é parte de uma crise nacional da educação. Hoje, o governo admite um déficit de 1.325 (professores) na rede, para o ensino médio. No estudo que nós fizemos estimamos um déficit um pouco maior, de 1.700 professores porque consideramos ainda a superlotação das salas. Algumas salas estão superlotadas enquanto outras estão sendo fechadas dentro de um processo de privatização.

R7 — E o que é possível fazer para melhorar o problema? Todos esses alunos sem aula vão perder o ano letivo?

AG — O professor é prejudicado, o diretor também porque nós estamos dentro de uma estrutura deprimente e insalubre. Mas o aluno é o principal prejudicado porque ele não perde só o ano letivo de química, de biologia, de português ou de história. Ele perde a própria vida. Ninguém tem 18 anos mais de uma vez na vida. Quando passar essa fase, ele vai ter que sair para procurar emprego e, com a formação precária que ele recebeu, o que vai sobrar é o subemprego, infelizmente. Você constrói todo um mecanismo de exclusão da juventude, empurra esse jovem para a marginalidade e depois vai lá criminalizar.

R7 — Qual seria o número ideal de professores no Estado?

AG — Considerando desde a educação infantil até o ensino médio, em Natal, temos um déficit de 5.378 profissionais considerando tanto a ausência em sala de aula, a demanda que não é suprida, a superlotação das salas. Este seria o número ideal na relação entre professor e aluno. É um problema muito grave. É lamentável, mas é o que precisamos encarar e reconhecer como algo que precisa ser revertido.

R7 — A secretaria de educação admite que há um déficit de professores e responsabiliza, em parte, má administração de gestões anteriores. Qual foi o problema?

AG — O edital que foi lançado no governo anterior tinha muitas falhas. Ele colocava em um mesmo polo de atuação que o professor poderia escolher cidades que eram muito distantes, que não pertencem a uma mesma região, e colocaram como se pertencessem. Então, para alguns professores não valia a pena morar em uma cidade muito distante para trabalhar nas condições que são oferecidas e com o salário que é oferecido a um professor. Hoje é o piso nacional da educação é aproximadamente R$ 1.900.

Relembre o discurso que Amanda Gurgel fez em 2011:

R7 — A secretaria informou que vai contratar, em caráter emergencial, professores ainda neste mês. Isso vai resolver?

AG — Eles vão contratar alguns temporários e alguns concursados com tempo válido de concurso anterior. Vai suprir uma parte do déficit, mas não vai resolver totalmente e não resolve estruturalmente. Eles vão chamar 1.055 professores, mas que não vai ser suficiente porque tem muito professor aguardando aposentar e muitos adoecem. É muito problema. É muita crise.

R7 — Os professores estão dispostos a assumir salas de aula atualmente?

AG — Eu percebo que existe um ânimo por parte dos profissionais em assumir, mas quando se deparam com a realidade, veem que é uma realidade muito dura. Eles assumem porque é importante, representa para eles uma injeção de ânimo e de autoestima, mostra que você cumpriu uma etapa importante da sua vida, você estudou, se formou, estudou de novo, passou em um concurso e quando você chega lá é uma tragédia e muitas vezes o profissional não suporta.

R7 — Durante tempo em que você deu aula, foi possível observar alguma mudança positiva no cenário da educação estadual?

AG — Fiquei em sala de aula 11 anos, desde a rede privada onde eu comecei, até a rede municipal e estadual. Infelizmente mesmo, a minha experiência do que eu pude visualizar foi de piora. Não presenciei nenhuma mudança positiva. É lamentável, mas é verdade.

R7 — E você vê alguma esperança para a educação?

AG — Para ter uma esperança realmente é se nós aumentássemos o investimento na educação e que esse investimento fosse exclusivamente para a educação pública. O Plano Nacional da Educação que foi aprovado é muito ruim porque ele legaliza de fato a privatização da educação. Nós defendemos o investimento de 10% do PIB na educação, mas que seja imediatamente e não até 2024 como prevê o Plano Nacional, e que seja exclusivamente na educação pública. Cada centavo que se retira da educação pública isso significa sim a fragilização e o sucateamento que já estamos assistindo.

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