Amazonas vê alta de casos, mas mantém reabertura em Manaus

Da segunda (25) até esta sexta (29) a quantidade de infectados passou de 30,2 mil para 38,9 mil, com 2,7 mil confirmados somente da quinta para sexta

Prefeitura pede que abertura seja revista

Prefeitura pede que abertura seja revista

Bruno Kelly / Reuters - 21.5.2020

O anúncio pelo governo do Amazonas da reabertura do comércio na capital Manaus ocorreu numa semana em que o número de novos casos de coronavírus continuou crescendo no Estado.

Da segunda-feira (25) até esta sexta-feira (29) a quantidade de infectados passou de 30,2 mil para 38,9 mil, sendo que 2,7 mil diagnósticos foram confirmados somente da quinta para sexta. O governo diz que a alta se deve a uma melhoria na capacidade de diagnóstico, mas a prefeitura da capital ainda pede que a decisão de abertura seja revista.

Mesmo com divergências em relação ao governador, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, propôs uma união de poderes para o enfrentamento da pandemia. Em março deste ano, o prefeito gravou um vídeo direcionado ao governador Wilson Lima afirmando que era "hora de esquecer as diferenças" e que a crise estava "acima de tudo, acima de qualquer questão pessoal".

Apesar de manterem um diálogo constante, o prefeito se posicionou contrário a decisão do governo em reabrir o comércio. Em entrevista ao Estadão, Virgílio Neto afirmou que o governador sofreu muita pressão empresarial para reabertura do comércio, mas que a decisão é prematura e pode trazer consequências trágicas para capital.

"A (reincidência) é sempre pior que a doença inicial, mas eu disse (ao governador) 'se o senhor está determinado a fazer, faça. O senhor está muito pressionado. Faça, eu vou torcer, vou ajudar no que eu puder. Vou torcer para estar errado e vou torcer para o senhor estar certo. Se o senhor estiver certo e eu errado, eu vou comemorar. Se eu estiver certo e o senhor errado, eu vou lamentar muito, mas muito profundamente", declarou.

Para o prefeito, a oscilação no número de casos confirmados e óbitos são fatores trazem um cenário inseguro para reabertura do comércio. Ele defendeu o isolamento social completo em Manaus.

"Eu não sinto que seja clima para abertura e eu tenho uma proposta a fazer. A minha proposta é muito clara: nós juntamos todas as forças do governo do Estado, da prefeitura de Manaus e em esforço sobrehumano, prontos para contrariar interesses, contrariar pessoas, nós impormos pelo menos três semanas, ou seja 21 dias, de efetivo isolamento social. Porque esse é o principal remédio, depois vem o resto", disse.

"Eu torço para o plano dá certo, vou aplaudir, vou dar o braço a torcer. Mas eu entendo que não é o momento e pode puxar um desastre maior, mais grave. Esse desastre pode significar a perda de mais vidas, o atraso de libertação de Manaus", acrescentou.

Para abertura gradual do comércio em meio à pandemia, o Governo do montou um planejamento com quatro ciclos que serão cumpridos no período de 1.º de junho a 1.º de setembro. Além de lojas, as igrejas voltarão a reabrir.

No primeiro ciclo, que inicia no dia 1º de junho, retomam as atividades: lojas de artigos variados (como cama, mesa e banho, além de roupas e calçados); joalherias, serviços de publicidades e afins, petshops, agências de turismo, concessionárias, óticas, floriculturas e bancas de revistas em locais públicos.

Igrejas e templos também irão reabrir com condições específicas: apenas 30% de ocupação com eventos de 01 hora de duração e intervalo de, no mínimo, 05 horas entre um evento e outro. Apesar da liberação, a Arquidiocese de Manaus prorrogou a suspensão por mais 30 dias afirmando que com "este cuidado a Igreja contribuiu para a diminuição do índice de propagação do vírus", declarou em comunicado oficial.

Grupos de risco permanecem em casa nesta primeira fase e não retornam às atividades normais. Caso não haja uma nova crescente de casos de infecções pelo novo coronavírus, o ciclo 2 entra em vigor a partir do dia 15 de junho. Lima já havia antecipado, no domingo, 24, a retomada do comércio porque a "a vida precisa voltar à normalidade", como o Estadão mostrou. Mas em coletiva à imprensa na terça-feira, 26, esclareceu que a suspensão das medidas restritivas iria depender da curva de casos do novo coronavírus, caso contrário, o Estado iria retroceder com a decisão.

Há possibilidades de novas ondas, alerta especialista

Segundo o infectologista André Patrício, ainda que seja importante a reabertura do comércio para retomada da economia, a chance de uma segunda onda de casos de covid-19 é relativamente alta, como aconteceu em países da Europa. Para o especialista, enquanto não houver medidas definitivas contra o coronavírus sempre haverá o risco de novos picos de casos.

"Tem um grande número de pessoas que não foram infectadas ou são assintomáticas. O retorno da circulação dessas pessoas pode causar um novo aumento no número de casos levando aí, consequentemente, a uma segunda onda - como costuma acontecer em várias pandemias quando não existem medidas mais efetivas contra a doença, além do distanciamento social, principalmente por essas doenças transmitidas por vias respiratórias. Então até que se tenha uma vacina que se mostre eficaz, a reabertura do comércio e de atividades não essenciais pode significar um risco de novas ondas de casos e de óbitos, consequentemente", declarou.