Um Pantaneiro sob fogo!

“Nós estávamos trazendo, por mês e tanto, uma boiada, no alto Pantanal. Tropa de trezentas reses. Nenhum de nós conhecia caminho por lá, só o “prático” que vinha conosco. O capim estava tão crescido, que batia no peito do meu cavalo. Com dias de marcha a mão do cavalo vai pelando, pelando, até cortar. Um […] O post Um Pantaneiro sob fogo! apareceu primeiro em Diário Digital.

“Nós estávamos trazendo, por mês e tanto, uma boiada, no alto Pantanal. Tropa de trezentas reses. Nenhum de nós conhecia caminho por lá, só o “prático” que vinha conosco. O capim estava tão crescido, que batia no peito do meu cavalo. Com dias de marcha a mão do cavalo vai pelando, pelando, até cortar. Um capim seco e macegoso, às vezes chegando por uns três metros…..

……Eu era o mais primeiro da esteira do lado direito, perto dos cabeceiras. Foi por antes das duas horas, com um calor de falar dor-de-cabeça. A gente suava p’la língua, feito cachorro. Afora os bois, eu só via o céu, o sol e o capinzal. Mas, de pancada, tudo parou: gritaram, adiante, e eu vi o fogaréu. Aí era fumaça, mesmo, e as lavaredas correndo, feio, em nossa frente, numa largura enorme, vindo p’ra cima de nós….


…..Meu coração minguou, no pensar que acontecesse d’o gado estourar p’ra minha banda, podendo até derrubar meu cavalo e matar nós dois. Agora o fogo estava p’ro meu ombro. Nós íamos beiradeando aquele paredão desumano, vermelho e amarelo, e enfumaçado, que corria também, querendo vir mais do que a gente: como que nem com uma porção de pernas, esticando uma porção de braços. O bafejo do calor era tão danisco, que eu as vezes passava mão p’lo meu corpo, pensando que já estava também pegando fogo. Suor pingava de mim, feito gordura de churrasco. O capim, a macega velha, fica tão duro e rediço, que é um bambu fino, a gente se estorvando nele. E aquilo vinha que vinha, estraçalhando e estalando: pé-pé-pé-pé-pé!…..

….E, ia esquecendo de contar, a nossa situação ainda era pior do que o senhor está pensando: da banda de baixo, do terceiro lado, também vinha outro fogo, mais devagar, mas já perto. Foi um choque de pôr juízo em doido: a gente se fechou com outro fogo aflito dobrado e emendado, cravando o caminho todo, sem perdoar nem um buraquinho solito, por onde se ir deixando a boiada p’ra trás e fugir….. Eu desacorçoei. Mas o guia gritou: “Agora é farofa ou fava. Vira gente!”

…..Tocamos todos pr’a dianteira. Um pássaro qualquer, voando sem regra, deu em mim e caiu, ranhando minha cara de tirar sangue. O ar estava cheio deles, transtornados. Mexi vergonha de querer fechar os ouvidos e os olhos, pr’a não receber aviso dos outros, de que não adiantava mais, que estava tudo cercado….. O fogo balançava; ô fogo! Só pedindo à Virgem o obséquio de um milagre….

….Era a viagem mais desatinada que eu já vi boiada dar. Enxerguei boi frouxar paleta, desmanchar o quarto dianteiro, o osso despregar da carcaça e subir levantando o couro, e o boi em vez de parar e deitar, seguia correndo e gemendo três trechos, em galope mancado, feito sombração….

….Enfim, aí, Deus desceu do céu, por causa de um bento chão de brejos.
Empurramos os bois, entraram na baía, e tomaram conta. Era quase que uma lama só, uma baía já secando. E ficamos esperando, ali com os bois, tudo irmãos. Gado só? O senhor acredite, lá na baía já tinham amanhecido outros bichos, de muitas qualidades, passaram o fogo ali juntos. Vivemos dois dias naquele lugar, mas ninguém não perdeu a firmeza. Até os bois e bichos procederam certo…..”

Pelo relato acima, nota-se que era época de extrema seca, “Entraram na baía, e tomaram conta, era quase que uma lama só, uma baía já secando…” Nota-se, também, que era uma área não pastejada por gado, “O capim estava tão
crescido, que batia no peito de meu cavalo. Com dias de marcha, a mão do cavalo vai pelando, pelando, até cortar: fica ferido. Um capim seco e macegoso, as vezes chegando por três metros..”

Poderão se perguntar: Estaria esse vaqueiro, e sua comitiva, atravessando alguma Reserva Ambiental? Alguma RPPN? Algum Parque mantido por ONGs ambientalistas? Apenas nesses locais, onde a pecuária foi banida, existe esse excesso de macegas!

Posso lhes assegurar que não!

Primeiramente pelo fato que, mesmo por uma perda de rumo, após escaparem das chamas, estariam presos por crime inafiançável pela ousadia de adentrarem com bovinos nas referidas áreas.

Mas a principal razão que posso lhes assegurar o contrário de nossa indagação é que esse relato em muito antecede a existência de Reservas, Parques e ONGs.

Em julho de 1.947 o então diplomata e escritor João Guimarães Rosa (autor de Sagarana; Grande Sertão: Veredas; entre muitos outros) passou alguns dias no Pantanal da Nhecolândia, especificamente na fazenda Firme, fundada por Joaquim Eugênio Gomes da Silva (Nheco) em 1.880.

Guimarães Rosa desejava “conhecer, de verdade, como é que se tratam, sob o céu, bois e vaqueiros. Para nós servia qualquer direção, porque o Pantanal é um mundo e cada fazenda um centro”. Dessa visita, das conversas e passeios a cavalo com Zé Mariano, nasceu o premiado conto “COM O VAQUEIRO MARIANO”.

Com a maestria peculiar, o autor retratou diversas cenas e passagens de nosso Pantanal, desde um ninho de Quero-Quero até rodeios e malhadas de gado. Relatou uma enchente do Rio Negro onde Mariano quase morreu afogado. Retratou também momentos de seca e fogo! No relato de fogo foi de onde extraí os trechos acima.

Dessa forma meus amigos(as), quero lhes mostrar que a combinação seca/macega sempre causou e sempre causará fogo, não apenas no Pantanal, mas em qualquer ambiente que propicie essa conjunção. Agrônomos e produtores de feno, no mundo inteiro, sabem do melindre ao se estocar os fardos de feno, se mal empilhados, entram em combustão espontânea queimando todo o estoque e os grandes barracões onde são depositados.

Gostaria também de lhes testemunhar, que a natureza e, em especial o bioma Pantaneiro possui uma resiliência sem igual. No final da década de 60, período de grande seca, a região do Paiaguás (a maior entre as 11 sub-regiões que compõe o Pantanal) foi dizimada pelo fogo.

Atualmente é, junto da Nhecolândia, o berço da pecuária de cria brasileira. O ciclo pecuário brasileiro entra em colapso sem o afluxo dos bezerros, sustentavelmente, produzidos aqui!

José Mariano sobreviveu àquele fogo e à muitas outras adversidades, enfrentou novo ciclo de enchente, outro de seca, enfrentou outros incêndios e também grandes geadas. Morreu por velhice na fazenda Firme.

O Homem Pantaneiro também enfrentará novos ciclos, novos incêndios, incêndios de chamas ou de desinformações, ciclos de seca e de enchente, mas, resiliente, estará aqui, produzindo e preservando!

Encerrando, cito o poeta Augusto Cézar Proença: “No Pantanal, passam bois, passa boiada. A natureza fica! ”
Saudações Pantaneiras.
Luiz Otavio B. Carneiro

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