Boate Kiss

Cidades Efeito da tragédia Kiss ainda abala e divide famílias em Santa Maria

Efeito da tragédia Kiss ainda abala e divide famílias em Santa Maria

Quase 9 anos depois, R7 ouve sobreviventes, parentes e amigos de vítimas e mostra que a dor não passará com o julgamento do dia 1º

  • Cidades | Eduardo Marini, do R7, em Santa Maria (RS)

Resumindo a Notícia

  • Mais de 80 sobreviventes criaram um coletivo e divulgaram um manifesto
  • Pais preservam quarto de filho morto no incêndio do jeito que estava no dia da tragédia
  • Estudante que não foi ao show por pedido do namorado ciumento morre com ele dias depois
  • Telão será instalado em Santa Maria para familiares e público acompanharem julgamento
Patrícia e Joana, nascida dias depois da morte do pai, João (na foto, na formatura da mulher)

Patrícia e Joana, nascida dias depois da morte do pai, João (na foto, na formatura da mulher)

GABRIEL HAESBAERT

O incêndio da boate Kiss, que deixou 242 mortos e 680 feridos, a suprema maioria de jovens universitários entre 17 e 25 anos, e tem o início do julgamento dos quatro réus marcado para esta quarta-feira (1º), completará nove anos no dia 27 de janeiro de 2022. Joana Carvalho Treulieb fará 9 anos no dia 15 de março de 2022. Joana nasceu e vive em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, cidade com cerca de 300 mil habitantes, distante 290 quilômetros de Porto Alegre, capital do estado, onde ocorreu o incêndio.

Poderiam ser as únicas coincidências a ligar a menina inteligente, tagarela, de sorriso doce e voz suave à segunda maior tragédia brasileira em número de mortos como consequência de fogo e fumaça. E também à quinta do país por todas as causas, à terceira do mundo em casas noturnas e à maior do país nos últimos 50 anos — mas os caprichos do destino não quiseram exatamente assim.

João Aloísio Treulieb, pai de Joana, formado em turismo, 29 anos em 27 de janeiro de 2013, na ocasião vivendo havia dez com a advogada Patrícia Carvalho, mãe da menina, trabalhava como gerente do bar da Kiss naquela noite. A banda Gurizada Fandangueira animava uma festa de arrecadação de fundos para a formatura de turmas de agronomia e veterinária da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). João é um dos 242 mortos.

Grávida, Patrícia não acompanhou o marido naquela noite. Pouco mais de 40 dias depois, nasceu Joana. De sete meses. "Conhecedores da história olham para Joana e me dizem: 'O nascimento e o desenvolvimento dela viraram, por ironia, exemplos do quanto parte de toda uma existência pode funcionar como relógio, contagem de tempo e calendário de vida à espera de justiça'", conta a advogada. A esperta Joana e sua mãe são dois entre as centenas de exemplos de famílias atingidas, muitas até mesmo partidas para sempre, pelas consequências do incêndio fatídico ocorrido nessa organizada e pujante cidade da região central gaúcha.

Quatro réus serão julgados a partir de 1º de dezembro: o DJ Luciano Augusto Bonilha Leão, que comprou o sinalizador usado no palco, Marcelo Jesus dos Santos, vocalista da banda, que acendeu o artefato no show, e os dois sócios da Kiss, Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffmann. Um telão será instalado no centro de Santa Maria para familiares e o público acompanharem o julgamento. A reportagem do R7 visitou vários familiares, sobreviventes e amigos das vítimas, em Santa Maria, e ouviu relatos emocionantes sobre esses abalos.

Aparecida e César perderam o filho 'na primeira noite em que ele saiu para uma balada'

Aparecida e César perderam o filho 'na primeira noite em que ele saiu para uma balada'

GABRIEL HAESBAERT

João e Patrícia tomaram a decisão de oficializar o casamento em janeiro de 2012, exatamente um ano antes da tragédia. Dois meses depois, em 31 de março, com a advogada empregada em um escritório, o casamento saiu. Por sorte, ou proteção revelada logo ali na frente pelo futuro, os dois conseguiram apertar o cinto no recolhimento das economias e pagar, à vista, o apartamento em que mãe e filha vivem até hoje em um pedaço silencioso, verde e agradável do centro de Santa Maria. João, lembra Patrícia, andava animado por aqueles dias. Pensava em formas de comemorar os 30 anos de idade e tinha planos para os primeiros meses de vida ao lado da pequena Joana. Não houve tempo nem sequer para vê-la explodir no primeiro choro.

Tão logo completou 2 anos, Joana começou a ter acompanhamento psicológico. Hoje, dá mostras de ser uma menina calma e estruturada. Ao dizer o nome completo, soletra o último sobrenome para evitar o risco de o repórter errar a grafia. Permaneceu firme, sem lágrimas nos olhos, mesmo quando a mãe relembrou os dias próximos e seguintes ao incêndio.

Trilhar esse caminho custou, no entanto, muito sacrifício. Firme, em forma física admirável para seus atuais 44 anos, Patrícia administra a casa com o rendimento de seu trabalho somado à pensão mensal de dois salários mínimos pela morte do marido. “Isso teve começo trágico e meio conturbado. Espero agora um final digno. Não falo nem de culpa, porque nada vai compensar a perda do João e a fratura estabelecida em minha família, mas de responsabilidade.”

Em certo ponto da letra da clássica Pedaço de Mim, composta em homenagem à estilista Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel, morto no regime militar, Chico Buarque escreve que “a saudade é o revés de um parto/a saudade é arrumar o quarto/do filho que já morreu”. A dona de casa Aparecida, 63 anos, e seu marido, o técnico de pintura de prédios César Augusto Neves, 60, não conhecem a música — mas mereceriam a perfeição da bela sequência de versos criada pelo cantor e compositor.

Augusto César Neves, 19 anos à época, era estudante do 3º semestre de ciência da computação na UFSM. Filho único, foi adotado aos sete dias de vida. Não bebia, fumava nem tinha nenhum vício. Aquela noite, ainda do sábado 26 de janeiro, foi, segundo seus pais, a primeira da vida em que ele deixou a casa simples de madeira, no bairro Divina Providência, em Santa Maria, para uma balada, o que fez "seu" César ouvir algumas vezes os lamentos de preocupação da mulher.

"Seu" César recebe a reportagem do R7 com a camisa usada pelo filho no ensino médio, em uma escola de orientação evangélica. Detalhista ao ponto de impressionar, dona Aparecida relata como Augusto reclamou, naquele sábado, do suco de soja que havia acabado, da preguiça dela em ir para a cozinha naquele dia, da recuperação de ânimo para fazer o "arroz-feijão-bife-e-batata-frita" predileto do seu menino e do suco “com pouco açúcar” preparado pelo filho.

De novo no quarto de Augusto, apenas documentos no móvel. O resto está como naquela noite

De novo no quarto de Augusto, apenas documentos no móvel. O resto está como naquela noite

GABRIEL HAESBAERT

Após longa busca por seis hospitais e centros da cidade, o jovem Augusto foi localizado sem vida, na manhã daquele domingo, em um dos caminhões dos bombeiros. No quarto da casa, o interior do armário, a cama e outros objetos estão como em 27 de janeiro de 2013. O chapéu predileto ainda repousa sobre a tevê. A cadeira de leitura permanece encostada em uma das paredes. Sobre um móvel à direita da entrada do cômodo, a única mudança: carteiras e documentos enfileirados.

“Todos os réus merecem punições relevantes, compatíveis com o abalo e, em inúmeros casos, com a destruição de famílias”, afirma o pai. “Penso da mesma forma. Não teremos nosso filho de volta, mas as penas precisam ser importantes até para não estimular coisas semelhantes no futuro”, completa dona Aparecida, que acompanhará o julgamento em Porto Alegre desde o início. "Seu" César promete estar no tribunal na leitura das sentenças.

Veja a conversa com Aparecida e César:

A ação do tempo pode ter amenizado os efeitos do “abalo ou destruição de famílias” em alguns casos, mas as referências a eles nesses termos estão longe de ser obras do exagero. Histórias contadas à reportagem por moradores da cidade sob a condição de não ter o nome das fontes revelados provam isso. Um integrante graduado da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) lembra do jovem que se intoxicou com gás de cozinha mais de uma vez para “ter a mesma sensação da namorada” perdida no incêndio. Tempos depois, acrescenta a fonte, o rapaz se suicidou. Mais de uma mãe entrevistada se recordou da “senhora Helena”, que, após perder um casal de filhos na tragédia, teve a saúde debilitada até a morte, meses depois.

Model viu amigo morrer ao lado e fez terapia para vencer o medo de dormir no escuro

Model viu amigo morrer ao lado e fez terapia para vencer o medo de dormir no escuro

GABRIEL HAESBAERT

Um alto integrante do atual governo municipal de Santa Maria conta mais uma peça pregada pelo destino e ligada, de alguma forma, ao incêndio. A filha de um amigo dessa autoridade, nascida e criada em Santa Maria, queria ir à boate Kiss naquela noite a qualquer custo. Mas, bastante contrariada, acabou desistindo após ouvir vários pedidos para ficar em casa, feitos a distância de sua casa, no estado vizinho de Santa Catarina, pelo namorado ciumento.

“Após o incêndio, familiares e amigos da estudante passaram a dizer ao rapaz que o ciúme exagerado dele, por outros caminhos, acabou por salvar a moça”, conta a fonte. “Dias depois, o rapaz veio a Santa Maria buscar a namorada para passar alguns dias em sua casa. Na volta, bateram com o carro em um caminhão. Morreram os dois.”

No início de novembro, a empresa Studio Méliès produziu e publicou no YouTube, a pedido de Jader Marques, advogado do sócio Kiko, o documentário Kiko da Boate Kiss. Em pouco mais de 35 minutos, a peça apresenta uma pessoa abalada, que faz ponderações e apresenta argumentos de defesa entre um e outro episódio de choro.

Em reação, e também para criar “resistência psicológica” durante o julgamento, mais de 80 sobreviventes da tragédia criaram o coletivo ExpreCidade. E lançaram, por escrito e em filme, na internet, com vários deles participando da leitura, o manifesto O 27 que Vive em Nós: Uma Carta Expressa.

Amigas desde a tragédia, Jaqueline e Marise se juntam para lembrar dos filhos Augusto e Lucas

Amigas desde a tragédia, Jaqueline e Marise se juntam para lembrar dos filhos Augusto e Lucas

GABRIEL HAESBAERT

“Diariamente, precisamos lidar com lembranças que irrompem durante o dia a dia, queimaduras, pulmões comprometidos e esse sentimento de impunidade passados quase nove anos”, dizem os jovens no início do documento. “Todo dia, precisamos lutar contra flashes da noite que mudou as nossas vidas. Ainda lembramos, como se fosse ontem, dos gritos, do cheiro insuportável da fumaça, do calor que sentimos enquanto a boate estava em chamas e daquele empurra-empurra em que todos buscávamos por uma só saída”, continuam.

No trecho mais impactante do manifesto, o grupo, sem identificar os autores, enumera frases sobre a tragédia ditas por eles nesses quase nove anos. Algumas: “Chorei por lembrar que tudo isso aconteceu e foi um longo processo pra passar um dia sem que o 27 de janeiro de 2013 definisse o que faço”; “Eu faço terapia até hoje, algumas vezes ainda reaparecem esses sentimentos. Minha psicóloga diz que essa cicatriz que temos, muitas físicas e outras só no coração e na memória, são parte da gente, mas não a gente por completo. Esse acontecimento está na nossa história, mas não somos só ele"; “Até hoje tem gente que me fala que essa dor é mimimi”; “Já ouvi que eu não tinha cara de sobrevivente”; “Ainda sinto uma espécie de culpa, dívida com os familiares de quem morreu”; “Cheiro de fumaça me dá gatilhos que não suporto”.

Não foi só. “No meu caso, fiquei com toque de fogão, eletricidade, qualquer coisa que possa pegar fogo ou explodir. Perco muito tempo conferindo se o fogão está desligado, se está tudo desligado — muito tempo mesmo, faço isso várias vezes. Tenho muita ansiedade desde aquele dia, sempre com medo de que vá acontecer algo. Em relação ao som de ambulância e dos bombeiros, também tenho muita ansiedade."

O peso de quem se sente culpado é uma constante no manifesto. “A dor, a culpa e a saudade sempre vão estar entre nós, sobreviventes. E se eu tivesse salvado mais vidas? E se não tivesse ido? E se não tivesse convidado meu amigo? Isso é algo com que tenho que conviver todos os dias da minha vida. O que não podemos conviver é com esta perseguição, como se tivéssemos culpa de estarmos lá. Até repressão por bombeiros em uma festa que fui aconteceu, como se eu fosse culpado de falar a verdade sobre o que ocorreu naquela noite.”

O psicólogo Luismar Model, hoje com 34 anos, padrinho da doce Joana do início da reportagem, é um dos sobreviventes leitores do manifesto no filme. Naquele dia, ele trabalhava como atendente em uma das divisões do bar da Kiss, chefiado pelo amigo João Aloísio. “Meu rosto estava preto como carvão quando consegui sair da boate”, lembra. Levado a um hospital pela namorada da época na madrugada da tragédia, sentou-se ao lado de um colega para aguardar atendimento. “Ele morreu ali mesmo, ao meu lado.”

A terapia ajudou Model a curar o medo de dormir no escuro e de fechar a porta do banheiro, adquirido com o incêndio. Não chegou a ter queimaduras externas, mas os danos pulmonares poderão incomodá-lo pelo resto da vida. “Os médicos me disseram que, agora, é como se eu tivesse um foguinho eterno nos pulmões. Ele poderá não causar nada ou provocar uma doença, até um câncer, no futuro.”

Model decepcionou-se de vez com a direção da Kiss quando foi testemunha, na Justiça do Trabalho, de um processo movido contra os donos da boate por uma colega de trabalho em busca de direitos. “Na audiência, o enviado dos proprietários disse, com a cara lavada, não conhecer minha colega”, afirma ele. “Mas sabemos que ele não só conhecia, como sabia que ela tinha trabalhado lá e, inclusive, tido um relacionamento afetivo com um dos proprietários, chefes dele. O sujeito disse isso, a moça começou a chorar e eu olhando para a cara dele... Não dá para ninguém manter a credibilidade assim.”

Tenda na praça central de Santa Maria com as fotos dos 242 mortos na tragédia

Tenda na praça central de Santa Maria com as fotos dos 242 mortos na tragédia

GABRIEL HAESBAERT

Mas as sequências de episódios com tantas pessoas, mesmo em meio a tantos abalos e rupturas traumáticas, podem gerar também sentimentos novos e positivos. Jaqueline Malezan e Marise de Oliveira, mães de Augusto e Lucas, mortos no incêndio, se conheceram e construíram uma forte amizade após a tragédia. Augusto, filho de Jaqueline, retornou à Kiss por sete vezes, após ter sido resgatado, para colaborar na retirada dos amigos. Ajudou seis. Na sétima entrada, baqueado pelo gás cianeto que saía da espuma do teto em chamas, ficou por lá. Foi encontrado morto de joelho, com as pernas dobradas.

As duas usam cordões com fotos dos filhos. Como quase todos os parentes de envolvidos, acreditam que os quatro réus merecem punição. O encontro com a dupla, na casa de Jaqueline, foi marcado pelas lembranças, mas também por episódios descontraídos na conversa sobre temas ligados aos dois meninos “alegres, brincalhões e felizes no dia a dia”. Em um deles, Marise diz a Jaqueline: “Envelheci um pouco nesses 13 anos... O Lucas, que sempre brincava comigo dizendo que eu estava ficando velha, vai me pagar [...]”.

As duas trocam risadas leves e a reportagem se despede. A vida tem que seguir.

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